sábado, 28 de abril de 2007

A infância revelada

Coluna Lêda Maria - Diário do Nordeste


Quem achou que Lúcio Alcântara havia esquecido da sua infância, vai encontrá-lo com boas e leves lembranças de sua cidade natal, São Gonçalo do Amarante, no livro que acabou de lançar, complementado por muitas fotos da sua sobrinha, a arquiteta Joana França.

Em solenidade concorridíssima, noite de quinta-feira, 26 no Ideal Clube, o governador do Ceará 2003/2006 entregou ´O Rio da Minha Infância´. A apresentação do autor e obra foram do jornalista Carlos Augusto Viana. Ricardo Guilherme leu o poema que intitula o livro e vários amigos discursaram. O ministro Ubiratan Aguiar mandou sua mensagem que foi lida pelo presidente da Casa, Humberto Cavalcante, na qual elogiava as poesias e as fotografias. A noite foi de muitos aplausos. Quase mil livros foram vendidos com renda para a Casa Vida.

Entre as mais de mil pessoas que prestigiaram Lúcio Alcântara estavam Murilo Martins, presidente da Academia Cearense de Letras; Ednilo Soárez, presidente da Academia Fortalezense de Letras; e Lurdinha Leite Barbosa, presidente da Academia de Letras e Artes do Nordeste. Constança Távora, Luiz Gastão, César Montenegro, Oto e Tales de Sá Cavalcante, Heloísa Juaçaba, Pedro Henrique Saraiva Leão, Juraci Magalhães, Thomaz Figueiredo, Estácio Brígido, Allan Aguiar, Gen. Théo Basto e Barros Pinho. Os velhos amigos, Iranildo Pereira e Leorne Belém, também marcaram presença. E mais as irmãs, os filhos e a amada, Beatriz, estavam ao lado de Lúcio Alcântara.

O coral Vozes de Outono brindou a noite com seu canto, cujo momento maior foi quando dedicou a música ´Se todos fossem iguais a você´, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, ao escritor e político Lúcio Alcântara.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

A visita de Bento XVI e a canonização de frei Galvão


A visita do papa Bento XVI ao Brasil, em maio, é muito importante para nossa Nação, que tem um grande contingente de católicos. O papa tem caracterizado seu pontificado por uma insistência nas normas, nos postulados, naquilo que constitui a essência da Igreja. É um chamado à responsabilidade dos católicos no sentido de que ninguém é obrigado a ser católico. Mas uma vez que é, evidentemente que com todas as falhas próprias do ser humano, deve procurar seguir aqueles postulados que orientam a ação e a atuação da Igreja.

O papa Bento XVI não tem o carisma da comunicação que tinha João Paulo II, mas tem uma solidez de conhecimento teológico muito grande. Acho que a Igreja Católica brasileira se ressente muito de que seus integrantes, principalmente o clero, tenha uma formação intelectual melhor, sejam mais preparados, inclusive para um debate, um diálogo, um pregação. E o papa, nesse sentido, tem sido um grande incentivador.


Outro ponto alto da visita do papa é a apresentação do primeiro santo brasileiro, que é frei Galvão. Não deixa de ser também uma glória para o Brasil. Normalmente, as canonizações são feitas pelo Papa, em Roma. Bento XVI abriu uma exceção e vai canonizar Frei Galvão em São Paulo, na Missa que celebrará no Campo de Marte, dia 11 de maio.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Discurso pronunciado no lançamento do livro o "Rio da minha infância"

Concluída minha missão à frente do governo do Estado, após breve período de descanso em Portugal, voltei-me para duas atividades com as quais tenho me envolvido ao longo de minha vida tanto quanto me permitiram honrosas e absorventes funções que vim a exercer. São elas, a literatura como fonte de prazer desfrutado com amigos em companhia dos livros, e a medicina como instrumento de prestação de serviços à comunidade. Com mais tempo disponível para o convívio com os intelectuais tenho aproveitado todas oportunidades surgidas para retomar projetos literários adormecidos, cuidar da biblioteca e por em dia leituras atrasadas. Tudo isso em um contexto de confortadora convivência familiar.

Afastado há muito da prática da medicina, nunca a esqueci, e a retomada de encargos administrativos em caráter voluntário à frente do Instituto do Câncer do Ceará, instituição filantrópica sexagenária presidida por meu pai até falecer, me reaproxima do meio médico ao mesmo tempo que enseja ocasião para que continue a prestar serviço à comunidade. Aliás esta festa, que se realiza por reiterada insistência de amigos, constitui uma síntese entre as duas áreas a que me dedico majoritariamente no momento, pois lanço uma publicação em conjunto com minha sobrinha Joana França destinando o produto da venda à Casa Vida da Rede Feminina de Combate ao Câncer meritória iniciativa voltada para o acolhimento de pessoas de fora em tratamento no Instituto.

Esta publicação, que casa texto e fotografia, está pronta há bastante tempo e não pretendia lança-la festivamente não fora persistência do meu amigo e grande poeta Carlos Augusto Viana acolitado entre outros por Sérgio Braga, Marcos Aurélio, Humberto Cavalcante, Erle Rodrigues. A estes e aos demais, meu comovido agradecimento.

O generoso interesse do Carlos Augusto não parou aí e fluiu nas palavras de encômio minha despretensiosa obra. Com ela dou seguimento à realização de um projeto editorial desenvolvido em parceria com a Joana iniciado com o livro “A casa da minha avó” e que une duas linguagens, o texto e as fotos. Ambas publicações vinculadas ao passado, à memória ou o que dela vem superfície.

Tudo começou após o imprimatur da Maria Beatriz a cujo rigor crítico submeti minhas primeiras produções. "O rio da minha infância” é uma pequena amostra de minhas lembranças e da minha relação com o rio que me banhou menino. Não é livro porque não fica de pé, não é poesia, dirão os inimigos do verso livre pois não há rima. Mas é, isso lhes garanto, fragmento da alma, retalho da memória, emoção, afetividade, evocação que certamente irá tocar a quantos tenham um dia mergulhado criança num rio inesquecível.

Mais que acidente geográfico, acidente sentimental, já muito cantado em prosa e verso mas sempre disponível para quem deseje revelar essa relação única, pessoal, intransferível. Em decorrência de muitas viagens que fiz, a trabalho ou como turista, conheci rios famosos e até naveguei em alguns deles no Brasil e no exterior. Entre Koenigswinter e Colônia percorri o Reno em dia quente e ensolarado refrescado pelo vinho azul de tanta ma fama; naveguei nos canais de Amsterdam jantando à luz de vela nos barcos turísticos; vi o Nilo cortando o Cairo, bobo como todo turista, assistindo um espetáculo falso de dança do ventre; olhei incrédulo o Jordão, imaginando como possa aquele fio de água estar à altura dos cenários descritos nas sagradas escrituras; admirei o Sena poluído pelas horríveis barcaças de areia que me distanciavam da imagem romântica de Charles Trenet entoando “La Seine”:”elle coule, coule, elle roucoule, coule/elle chente le jour, la nuit”.

Vi o Tâmisa cruzado pela ponte do milênio, ícone de uma nova era. Mas gostaria de ter encontrado o “Ouse”, riozinho desconhecido no qual Virginia Woolf seu gênio e a alma atormentada. Singrei o Yang Tse na trepidante Shangai, congestionado de embarcações, que engurgitada de tudo vive a China, em cujas margens o colonizador perverso plantou um jardim interditado à chineses e cães. Encontrei o Tejo em Toledo, acanhado. Revi-o majestoso em sua foz de onde partiram intrépidos marinheiros que descobriram meio mundo.

Estive no choupal olhando por cima do Mondego para apreciar na margem oposta a “Quinta das Lágrimas” cenário do drama de Inês de Castro e em Amarante, também no querido Portugal atravessei a ponte romana sobre o Tâmega construída pelo santo do meu nome, Gonçalo. No Douro vi o prodígio de aço de Eiffel ligando as duas margens e os tradicionais rabelos flutuando para deleite dos turistas. Em Roma, passei sobre o Tibre por uma ponte monumental para encontrar o Papa no estado do Vaticano. Da ponte Vecchia , assediado por mercadores de jóias de seculares tradições, debrucei-me sobre o Arno para lembrar Dante, o florentino genial que não chegou a possuir como eu a sua Beatriz.

No Brasil, extasiei-me com o Amazonas, suas lendas, e o abraço com o Negro; o São Francisco, meu Rubicão, cujas margem atingi em Ibotirama transpondo-o para chegar a Brasília para a aventura definitiva da política investido no mandato de Deputado Federal. Não me cabe dizer se venci, mas afirmo ter muito pelejado. Maravilhado, contemplei o espetáculo das cataratas de Iguaçu por mais que seja apenas um rio que tomba no dizer de Eça de Queirós. E o que dizer dos nossos rios, cearenses, nordestinos? Irregulares, inconstantes, espasmódicos, feitos mais de pedra e areia que de água. O Jaguaribe, duas vezes pinçado para conter a hemorragia na denúncia lírica do poeta Demócrito Rocha. O Salgado e seu boqueirão famoso, o Acaraú, berço de nobrezas sertanejas, o Curu, testemunha de feroz batalha entre índios e espanhóis, ainda hoje motivo de controvérsia entre estudiosos. E o meu rio, meu modesto rio? Quase anônimo, minha afeição fluvial permanente, que nunca deixou de correr dentro de mim e hoje emerge neste despretensioso trabalho.

O que sei dele já o disse, mesmo que sem talento e graça. Diante de embarcações majestosas que encontrei mundo afora aflorava a lembrança daquelas canoas modestas calafetadas de alcatrão, e assim mesmo inundadas, sangradas por cuias manuseadas diligentemente. Cruzei meu rio, não para esquecer, pois não é o Lethes da mitologia, mas para lembrar. Fui barqueiro, não para levar os mortos como Caronte, mas para lembrar aos vivos que as águas do tempo não são profundas bastante para sepultar emoções e lembranças. Aos que aqui vieram desejo agradecer emocionado, pois revelam amizade com suas presenças carinhosas o que me sensibiliza definitivamente.

Caderno 3 - Memórias Fotográficas

Entrevista a JOSÉ ANDERSON SANDES - Editor do Caderno 3 - Diário do Nordeste

Lúcio Alcântara:
“Sempre me interessei pelo passado, pela memória, o que guardei ou recuperei olhando para trás” (Foto: Denise Mustafá)

Pequenos poemas, às vezes cortantes, outros amorosos. Lembranças de infância. Memórias nunca são fáceis, as marcas do passado doem, são repletas de perdas. Retratos pendurados numa parede. Ausências jamais preenchidas. Um mundo que se fechou nos jamais. A recordação tem seus mistérios. Lúcio Alcântara se enreda pelo discurso da memória. Ainda em pequenos poemas - ou talvez, nem poemas - frases criativas, mas repletas de saudades - lembrar não é viver. “Na mesa austera da casa da minha avó não havia madeleines, mas a coalhada no prato fundo é puro Proust”, escreveu em “A Casa da Minha Avó”, seu primeiro livro de ficção. Foi nesses pequenos retalhos, frestas de lembranças que Lúcio se “afogou” para escrever “A Casa da Minha Avó”. Agora, repete a fórmula em “O Rio da Minha Infância”, obra que lança hoje no Ideal Clube. A seguir, trechos da entrevista que Alcântara concedeu ao Diário.

O senhor sempre foi um homem ligado aos livros. Agora, não apenas escreve seus primeiros poemas, como funda uma editora, a Labirinto. Sonho antigo?

Sempre tive desejo de ter uma editora, uma livraria e um bar. Muito mais sonho do que projeto realizável. Tive várias experiências editoriais à frente dos Institutos Tancredo Neves e Teotônio Vilela, Conselho Editorial do Senado, que tive a honra de presidir, e a própria Fundação Waldemar Alcântara. No livro ´A Casa da Minha Avó´ apresentei a Editora Labirinto e sua linha de trabalho. Iniciativa sem fins comerciais, é apenas uma atividade da Fundação Waldemar Alcântara.Nestes dois livros, ´A Casa da Minha Avó´ e ´O Rio da Minha Infância´, o senhor percorre momentos da sua vida. No primeiro, são lembranças esparsas - móveis, relógio, chão da sala -, quase a memória involuntária proustiana. O segundo, ´O Rio da Minha Infância´, é repleto de contrastes, paradoxos.


Poderia explicar melhor o contexto em que foi escrito estes dois livros, bem como o seu processo de criação?

Algumas pessoas que leram ´A Casa da Minha Avó´ se surpreenderam com o texto, que consideraram algo melancólico. Não imaginavam, me disseram, que eu fosse uma pessoa triste. Não acho que o seja, embora me considere reservado, tímido mesmo. Não é um comportamento que se espere de políticos, geralmente expansivos, conversadores, alguns até histriônicos. Sempre me interessei pelo passado, pela memória, o que guardei ou recuperei olhando para trás. As duas publicações foram concebidas e realizadas enquanto estava no governo, embora só agora esteja lançando ´O Rio da Minha Infância´. Talvez porque estando cercado de muitos, estivesse, de fato, sozinho. A parceria com a Joana obedece a um projeto gráfico que espero irá continuar. Buscamos uma sinergia entre imagem e texto, muito bem executada pela Expressão Gráfica.


Carlos Lacerda deixou um belo livro de depoimentos, bem como escreveu ´A Casa do Meu Avô´. Quer dizer, ele remexeu mais profundamente seu baú de memórias. O senhor pretende escrever as suas?

No momento não penso nisso, embora tenha muitas anotações. Alguém já escreveu que a descrição da vida não vale a sensação da vida. Por ora, prefiro guardar o meu olhar sobre os outros para o futuro.


Parece que o senhor está vivendo no espaço da saudade, tem muito a contar, a narrar. Estes dois pequenos livros seriam apenas o começo? Pedro Nava, também médico, escreveu suas memórias depois dos 60 anos. E, ao contrário de muitos memorialistas, revolveu seu baú de ossos sem meias palavras. Machucou amigos, inimigos e familiares. O senhor faria o mesmo?

A verdade pode não ser relativa, mas é múltipla. A de cada um, várias, e a verdadeira, muitas vezes desconhecida. Por mais que se tenha memória e critério, não é possível reproduzir integralmente o passado, são apenas retalhos vividos que ressurgem. Para mim Pedro Nava é incomparável como memorialista, pois falou de pessoas, cenários, costumes, com espantosa liberdade. Quem me dera chegar lá!


Quais os livros que mais lhe tocam?

Não tenho livro de cabeceira a não ser a Bíblia, que costumo ler aleatoriamente. Conforme o momento que esteja vivendo, ou o trabalho que realize, posso ter um ou mais livros à mão. No momento tenho três, um deles um livro policial.

A dobradinha política e literatura dá certo?
Comigo dá, porque sou mais leitor do que autor. Com freqüência fico pensando como certos políticos do passado construíram obras literárias extensas e de qualidade. Não creio que com as exigências da política contemporânea isso ainda fosse possível. De qualquer forma, a literatura me ajudou muito a conviver com as agruras da política.


A literatura tem seus códigos, máscaras, artifícios de linguagem. A linguagem está ligada às estruturas de poder. Como o senhor definiria a literatura?

Literatura é a metáfora. A vida em ficção. A ´Comédia Humana´, de Balzac, e ´Madame Bovary´, de Flaubert, são bons exemplos do que afirmo.


Tivemos a Semana de Arte de 22, a Geração de 45, enfim, nossa literatura do Romantismo (século XIX) até hoje parece buscar sua identidade. O senhor acha que, como a nossa República (ainda em construção), temos também, uma literatura em busca de sua identidade?

Cada época tem seus intérpretes. Esse período também terá os seus na ficção, na poesia e no ensaio. A globalização, o terrorismo, a cibernética, a integração econômica, a formação de blocos de países, a emigração maciça de pobres, são fenômenos que já estão e irão, cada vez mais, inspirar novos escritores. O cardápio é rico e aguarda talento e disposição para explorá-lo.O senhor seria um tradicionalista em meio a um mundo globalizado, pós-moderno?Não me considero um tradicionalista. Basta olhar detidamente para minha atuação no Parlamento e no Executivo, Prefeitura de Fortaleza e Governo do Estado do Ceará.Tivemos uma literatura bastante engajada durante a ditadura militar. Hoje nossos artistas se renderam à indústria cultural, de massa. Perdemos com essa opção mercadológica?Na presença da liberdade de expressão, manifestações ´marginais´ ou comprometidas politicamente tendem a desaparecer ou se reduzir significativamente. A indústria cultural é inevitável, não sendo em si mesmo um mal, enquanto oferta de produtos para uma sociedade de massa. Basta assegurar espaço para a cultura nacional, inclusive as manifestações locais e regionais. A cultura brasileira tem qualidade e consistência para resistir ao colonialismo cultural e até ser admirada por outros povos. O maior exemplo disso é a música popular brasileira.


A política deixou muitas marcas, mágoas?

Eu continuo na política. Marcas são sinais de luta. Mágoas, quem não as teve?


Serviço:
O Rio da Minha Infância, de Lúcio Alcântara. Fotos de Joana França. R$ 15,00. Lançamento hoje, às 20 horas, no Salão Nobre do Ideal Clube, com apresentação de Carlos Augusto Viana. Toda a renda será revertida para a Casa da Vida do Hospital do Câncer.



FIQUE POR DENTRO
- A escrita na solidão do poder -
Ricamente ilustrada por sua sobrinha, Joana França, O Rio da Minha Infância mostra um pouco do passado do ex-governador. Frases que apenas dão pistas de sua trajetória, revelam ainda muito pouco. Atualmente vivendo a experiência de estar sem mandato, pela primeira vez em décadas, depois de se desentender com colegas de partido e perder no primeiro turno a reeleição para o Governo do Estado, Lúcio não pensa em escrever suas memórias. Pelo menos por enquanto, atém-se ao lançamento da nova produção literária. ´As duas publicações foram concebidas e realizadas enquanto estava no governo, embora só agora esteja lançando ´O Rio da Minha Infância´. Talvez porque estando cercado de muitos, estivesse, de fato, sozinho´, reflete o autor, que diz realizar um antigo sonho, com a fundação de uma editora, a Labirinto.

Vida & Arte - Contrastes da memória

Entrevista ao Jornal O Povo - Caderno Vida & Arte (Foto: Evilázio Bezerra)

O ex-governador Lúcio Alcântara lança, hoje à noite, o livro-poema O rio da minha infância, pelo selo próprio Labirinto. Em entrevista, por email, Lúcio fala de poesia, livros e nas entrelinhas, de política



Lúcio Alcântara, o político, é um homem do consenso e do silêncio. Consegue calar quando todos esperam a resposta, a polêmica, o confronto. Mergulhado em si mesmo, voltado para a infância, tornou-se poeta, embora negue de pronto o título. "No máximo, escreve textos poéticos", aponta. A indisciplina confessa com o gênero, porém, não impediu o ex-governador de compor versos e transformá-los no livro poema que será lançado hoje à noite no Ideal Clube, O rio da minha vida. A estréia na poesia se deu com o livro A casa da minha avó. Nos dois, a memória da infância é latente. O sabor dos "biscoistos de madeilenes" invoca o menino de São Gonçalo, o lugar de nascença e da criancice, a mobília de casa e das redondezas. Na entrevista a seguir, Lúcio, conversa por email, com a discrição e poucas palavras que marcam sua história, dos livros, dos autores, da literatura. E, nas entrelinhas, os silêncios das respostas contidas




O Povo - No novo livro do Alberto Manguel (A Biblioteca à Noite), ele narra sobre o que vê na sua biblioteca à noite, construída numa espécie de castelo abandonado numa aldeia francesa. Como sei que o senhor tem uma bela biblioteca particular, queria então saber, como o senhor passeia por ela. Que memória o senhor guarda da sua construção. Que livros lhe são mais caros?

Lúcio Alcântara - A biblioteca é minha toca onde nada me atinge. A leitura ou fato de olhar, manusear os livros, me causam enorme bem estar. É uma blindagem contra tudo que me preocupa ou aborrece. Como diz Ina D. Coolbrith no poema “Na Biblioteca” – “aqui estão os amigos que nunca traem, o companheirismo que nunca se cansa”. Minha biblioteca é muito eclética, mas me agradam sobretudo os que herdei de meu Pai, os que tratam de alguma forma da relação medicina/literatura/ arte e os livros sobre livros. Ali também, “entre os livros da minha biblioteca há alguns que já não tornarei a abrir”, Borges, no poema “Limites”.

O Povo - Como o senhor começou a ser leitor? E que livros marcaram sua vida de forma definitiva?

Lúcio Alcântara - Comecei pela biblioteca do meu Pai, passava horas lá. Foi quando li Machado de Assis, José de Alencar, Cronin, “As Memórias de Casanova” , e o “Tesouro da Juventude” entre outros livros. Era o tempo das coleções da Jackson e da José Olympio. De Machado li os 31 volumes da coleção. Muita coisa não guardei, mas acho que devo a essas leituras poder ler e escrever razoavelmente mesmo sem lembrar as regras da gramática. Surgiu daí meu gosto pela leitura e os livros. É difícil falar de livros que me marcaram, mas citaria entre muitos: “Cazuza”; “Os Meninos da Rua Paulo”; “Angústia”; “O Tempo e o Vento”; “A Pele”; “A Tragédia do Homem”; “Lições de Abismo”; “O Arco do Triunfo”; a obra de José Lins do Rego e os cânones da Literatura Universal que consegui ler.


O Povo - Quando o senhor descobriu-se poeta? Quais os poetas que têm sido seus companheiros de vida?

Lúcio Alcântara - Não me considero poeta. Não tenho dimensão para tanto. No máximo escrevo alguns textos poéticos. Coisa recente, de uns oito anos para cá. É a lira tardia que só vai para o papel quando já não posso conte-la dentro de mim. A poesia é minha companheira esporádica. Leio-a de forma indisciplinada, sem nenhum planejamento.


O Povo -
No seu primeiro livro-poema (A Casa da Minhã Avó) são as imagens da infância que “pendem” nos versos. Estão nos objetos as lembranças que compõem o poema. No segundo livro, este que será lançado agora, mais uma vez o senhor percorre o rio da infância e navega pelo “contraste de lembranças”. Por que a infância se tornou tão presente agora, quando o senhor decidiu-se pela poesia? E como imagens e palavras vão se juntando ao longo do livro?

Lúcio Alcântara - Falo da minha infância porque ela foi feliz. E como disse Erico Veríssimo, ninguém se livra do menino que foi. O paradoxo das imagens corresponde à variação caudal dos rios nordestinos e as distintas visões da criança e do adulto. O que era longo, hoje é curto, o que foi largo, agora é estreito e assim por diante. A fusão de imagens e palavras corresponde a um projeto gráfico desenvolvido fotograficamente por minha sobrinha Joana a partir do meu texto. “O Rio da Minha Infância” é o segundo produto da dupla.


O Povo - Literatura e política são duas artes. O senhor lida com as duas. Onde está a interseção delas na sua vida?

Lúcio Alcântara - A Literatura para mim é fundamental pois sobre ela tenho autonomia. Isto é, leio o que, e quando quero. Escrevo se estou inspirado. Já a política...depende de muitas circunstâncias e vontades, é exigente e confortadora porque nos permite contribuir para o bem comum, sendo, não raro, ingrata. Da harmonia entre as duas, tiro meu equilíbrio mental.

O Povo - A literatura e a política são construídas por meio de personagens. No caso da literatura, alguns deles parecem saltar da página para a realidade. No caso da política, algumas vezes de tão inverossímeis, parecem ficção. Que personagens na política mais lhe surpreenderam?

Lúcio Alcântara - Toda proximidade surpreende. Não há ídolos vistos de perto.

O Povo - O tempo não foi dos mais fáceis durante o seu último mandato como governador. Que livros o senhor leu nesse período? E durante o processo eleitoral, quando a tempestade chegou, qual ou quais autores estavam na sua cabeceira?

Lúcio Alcântara - Li pouco durante meu governo. Sobrava pouco tempo para o lazer. Gosto muito de livros policial com certo requinte dos personagens e do ambiente onde se desenrola a trama. Aprecio, sobretudo, os autores ingleses mestres no gênero. No governo como na campanha fizeram-me excelente companhia.


O Povo - “Cruzar a passo a vida é o heroísmo de uma existência”, diz um dos versos do livro “O Rio da minha infância”. Que ocasião da sua vida política o senhor sentiu que “cruzava a passo a vida”?

Lúcio Alcântara - Acho que viver é sempre um ato de heroísmo por mais simples ou exitosa seja a vida da pessoa. Afinal disse o poeta Manuel Bandeira “que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu”.

O Povo - Na apresentação do seu primeiro livro de poesia, o senhor fala de sonhos. O livro inteiro parece que é um sonho que lhe desperta as lembranças. Ou a saudade que ocupa o lugar das madeleines. Nesse último livro, o senhor torna a falar do lugar onde deixou seus sonhos de menino. Quais sonhos o senhor tem agora para a política e para a literatura?

Lúcio Alcântara - Se for verdade que o passado nunca termina de ser construído, vou continuar a trabalhá-lo. Quanto aos sonhos, na Literatura, é ler o mais que puder. Na política, é operar e esperar.



SERVIÇO O rio da minha infância. Será lançado hoje, 26, a partir das 20h, no Ideal Clube. O livro vai custar R$ 15 e o dinheiro será destinado à causa social .

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Revisão constituinte na Assembléia


Merece aplausos a iniciativa da Assembléia Legislativa de fazer uma revisão constitucional. É um trabalho que deve ser feito com cautela, com rigor, profissionalismo e espírito público, com atenção ao que está acontecendo no mundo.

Os deputados estaduais devem aproveitar este momento para corrigir os excessos que a Constituição tenha, e mesmo que o objetivo seja ampliar os poderes dos parlamentares para legislar, além de abrir espaço para participação popular, não é o caso de se estabelecer um cabo de guerra entre o Executivo e o Legislativo. É sim o momento de buscar sinergias, cada qual com sua autonomia, sua independência, mas compreendendo que a governabilidade, na verdade, não é só do Poder Executivo. Isso precisa ficar claro.

Quando se fala em governo são os três poderes, cada qual com sua competência, sua independência. Há uma interdependência que não deve ser perdida de vista. Todos os poderes têm que ter a consciência de que a governabilidade não é uma responsabilidade só do Executivo. Governo são os três poderes.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Sudene - ainda no papel

Embora esteja muito longe daquilo que se gostaria, eu espero que a nova Sudene saia do papel. Será uma Sudene fraca, sem recursos. Uma Sudene distante do que os nordestinos precisam para alavancar o desenvolvimento da Região. Mas já que foi algo prometido, e anunciado várias vezes, tem que ser recriada a fim de conceber projetos que nos levem a superar as diferenças entre os estados e as regiões brasileiras.

Mais comentários sobre este assunto:

A importância da Sudene para o desenvolvimento da Região Nordeste

Comemoração do 40° aniversário da criação da Sudene

Críticas aos escassos recursos destinados à Sudene

Liberação de recursos para conclusão de importantes projetos na Região Nordeste

Reivindicações dos governos e das bancadas nordestinas para o período de 1996/2010

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Fim da reeleição com mandato de cinco anos

Eu sempre achei que se houver um mandato de cinco anos não há necessidade de reeleição. Cinco anos é um período razoável. Já dá para concretizar algumas coisas do plano de governo. Quatro é pouco. Se for para acabar com a reeleição e der cinco anos de mandato eu sou a favor, em todos os níveis.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Siderúrgica sem gás

É lamentável este imbróglio em torno do fornecimento de gás para a Siderúrgica Ceará Stell, a ser construída no Complexo do Pecém. Como Governador, fiz um esforço enorme no sentido de criar as condições para que o empreendimento acontecesse.

Na imprensa, há inúmeras declarações, não só de representantes da Petrobrás, mas do próprio Governo, confirmando que o Estado do Ceará realmente tinha cumprido todas as exigências e satisfeito todas as condições. Acho que o problema agora só será resolvido na alçada do Presidente da República. Não acredito em solução da Petrobrás. O presidente se comprometeu comigo mesmo várias vezes. Aqui já veio e reafirmou sua promessa de campanha. Parlamentares também disseram ter ouvido isso dele. Então, agora é resolver.

domingo, 15 de abril de 2007

Notícias do PR no Ceará

Enquanto aguardamos que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-CE) emita o registro do PR – a fim de que a nova Executiva Estadual do Partido seja válida legalmente – o trabalho não para. Comissões provisórias estão sendo formadas em diversos municípios cearenses, sob a coordenação do segundo vice-presidente, Iranildo Pereira. A orientação é conseguir novas adesões.
Não queremos tirar ninguém de onde está, mas evidente que se vier pessoas com expressão eleitoral serão bem-vindas. O deputado Marcelo Teixeira, secretário-geral do PR estadual, já está em contato com os demais deputados federais (Leo Alcântara, Vicente Arruda e Gorete Pereira) e com o deputado estadual Adahil Barreto para saber quais as áreas de interesses dos parlamentares em relação aos diversos municípios cearenses.
Tudo está sendo feito com o objetivo principal de colaborar para que o Partido da República amplie a sua militância e a sua representatividade institucional. Também queremos contribuir para que o nosso partido defina uma linha programática coerente e projete para a sociedade brasileira a imagem de uma sigla que honra efetivamente os ideais republicanos que colocam o princípio democrático e a defesa do interesse comum como à causa primordial de sua atuação.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

O semi-árido nordestino precisa das águas do São Francisco

Muita coisa tem sido dita a respeito do projeto de transposição das águas do São Francisco. No fim de março, a notícia de que a licença de instalação concedida pelo Ibama para que o Ministério da Integração Nacional inicie as obras estava ligada ao cumprimento de 51 condicionantes. Este fato nos deixou preocupados. Sei que todos querem revitalizar o rio, criando medidas que facilitem a vida do São Francisco. Mas o problema é que, mesmo tendo feito um grande esforço em torno da questão hídrica, tanto no meu governo quanto nos anteriores, se não vier água para o Ceará nós sempre vamos ficar na iminência de termos problemas graves – de água para o consumo humano.

O apoio do presidente Lula neste momento é fundamental para a realização deste grande projeto. E acredito que o ministro da Integração, o baiano Gedel Vieira Lima, está no cargo para cumprir a determinação do Presidente da República, que é o chefe de Estado. Se ele aceitou ser Ministro e o Presidente Lula já declarou que essa é uma prioridade, cabe a Gedel concretizar esta promessa de campanha. Será muito ruim para o Governo do Lula se o Ministro não realizar o projeto de transposição. Aliás, será péssimo, e criará uma situação muito difícil para o Presidente.

Questão polêmica

Integrantes do Movimento em Defesa da Vida, contrários a legalização do aborto, realizaram protesto, durante lançamento, em Fortaleza, do Dia Mundial da Saúde pelo ministro José Gomes Temporão. Esta é uma questão polêmica, que encerra muitas avaliações de caráter moral, religioso, ético. É uma discussão controversa. Dificilmente teria uma lei aprovada pelo Congresso. Acredito que a melhor solução para este assunto é submetê-lo a um plebiscito popular.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Ética na política

Vivemos uma crise geral, uma crise ética. Não sei se de comportamento. As pessoas não estão se conscientizando das funções que exercem e aí a população não distingue quem realmente está cumprindo seu dever e quem não cumpre, colocando todos na mesma situação. Isso reflete um enfraquecimento institucional, o que é lamentável. É muito ruim que tenhamos um País com instituições políticas, democráticas, poderes constituídos tão mal avaliados. É verdade que não é uma coisa restrita ao Brasil. Há uma crise da democracia representativa no mundo todo. E a mídia tem um papel fundamental com a forma de avaliar ou enfocar o papel desses poderes.

A forma de fazer campanha é outra coisa importante. Se faz campanha prometendo o que não se pode cumprir. E daí resulta nisso. Desprestígio, desconfiança, descrédito. Isso é perigoso, porque não há alternativas melhores.

Temos que continuar investindo em educação política, vigilância em relação às pessoas que ocupam esses cargos. Sem incorrer em injustiças e excessos da mídia. As pessoas precisam se educar politicamente. Os próprios agentes políticos têm que se educarem, compreenderem a importância e a relevância das funções que exercem, e a expectativa que as pessoas têm em relação a elas.

domingo, 1 de abril de 2007

SUDENE*

Este momento oferece, para nós nordestinos em particular e brasileiros em geral, a mesma dimensão histórica daquele dia em que o Presidente Juscelino Kubitschek oficializou a criação da SUDENE, em 15 de dezembro de 1959, há quase quarenta e quatro anos atrás. Nessa iniciativa que nasceu politicamente ambiciosa, Juscelino teve a colaboração intelectual do economista Celso Furtado, um ilustre filho do sertão paraibano.
As propostas criadas por Furtado para a SUDENE ajudaram a mudar o Nordeste, que em alguns momentos provou ter uma economia mais dinâmica que a do Brasil, embora os avanços na área social sempre tenham se mantido longe do que aspiramos e merecemos. Com a participação da SUDENE, a agricultura e a indústria nordestina foram contempladas com projetos modernizadores e, sem ela, dificilmente tais projetos iram adiante.
Após décadas de atuação, a SUDENE foi extinta, em maio de 2001, e substituída pela ADENE, que permaneceu apenas uma sigla, sem existência de fato. Agora, a retomada da SUDENE, com o seu nome original, chega como um acontecimento de poderosa carga simbólica, e é também um gesto de reconhecimento do Presidente Lula aos serviços de um órgão que foi um marco referencial no planejamento regional brasileiro.

Com a recriação da SUDENE, o Presidente cumpre um de seus compromissos de campanha, que é o de apoiar, como faz a União Européia e tantos outros blocos e países do mundo, as suas regiões mais vulneráveis.
A SUDENE nasceu com o ideal de contrabalançar, através da coordenação dos investimentos federais e com o auxílio dos incentivos fiscais, a escandalosa situação de desequilíbrio existente entre as várias regiões do País. Para isso, chegou a coordenar os vários órgãos do Governo Federal operando no Nordeste, comandando recursos consideráveis, administrando o FINOR e participando das decisões sobre o FNE.
Um conjunto de fatores levou a SUDENE a perder gradualmente o poder de coordenação de iniciativas inovadoras, capazes de contribuir para o desenvolvimento do Nordeste. A falta de fiscalização adequada; os desvios de verbas; a criação de sucessivos programas especiais, sem continuidade e sem consulta aos governadores; e a escassez de recursos e de pessoal qualificado formaram um quadro desfavorável que levou ao esvaziamento da SUDENE. Evitar a repetição de tropeços e equívocos passados, daqui para frente, é uma prerrogativa básica, para que as providências e decisões não fujam do controle da Superintendência e das lideranças locais.
Como cidadão e como governador do Ceará, eu tenho acompanhado de perto os debates sobre a recriação da SUDENE, conduzidos nesse momento pelo Ministério da Integração Nacional e liderados pelo Ministro Ciro Gomes. O que está se propondo, portanto, é fruto de um trabalho coletivo entre as lideranças regionais e o Governo Lula.

Nessa discussão, ficou comprovado que as causas do desequilíbrio espacial e social entre regiões e estados, meio rural e urbano, o centro e a periferia, são velhos conhecidos de todos nós. A questão não mais reside na busca de uma explicação para o fenômeno, mas em intervenções deliberadas que permitam minimizar os efeitos das profundas diferenças.
Qual deve ser a atitude do Estado frente ao problema regional, quando algumas tradicionais formas de atuação se mostram ultrapassadas? Como ordenar as ações do setor público no contexto democrático de uma economia aberta e competitiva? A proposta hoje apresentada poderá equacionar essas questões, com o apoio político decisivo e continuado do Presidente da República em parceria com os governadores da Região.
Acredito que as desigualdades econômico-sociais do Brasil são também advindas do fato de que, durante anos, o País não cultivou uma visão de longo prazo e grande alcance. Infelizmente, os assuntos emergenciais absorvem muito das nossas energias, enquanto os problemas estruturais se acumulam, agravando-se. A SUDENE, portanto, tem de pensar o Nordeste do futuro.
O Presidente Lula está iniciando um processo de alteração do modelo de desenvolvimento. De um lado, é preciso criar condições para o livre funcionamento do mercado, estimulando os investimentos privados e públicos que produzem bens e serviços, criam empregos e geram renda. De outro, é preciso motivar as iniciativas locais e os empreendimentos da comunidade, para promover a cidadania e o lugar onde se vive.

No Ceará, direcionado por essa visão, o Governo atual criou a Secretaria de Desenvolvimento Local e Regional, que trabalhará em íntimo contato com a nova SUDENE, buscando atenuar as enormes disparidades que existem entre a Região Metropolitana de Fortaleza e o restante do Estado. Como exemplo, Fortaleza e seu entorno concentram 40% da população do Ceará e participam com 62% do seu PIB.
Acredito que um dos papéis da nova SUDENE seja recuperar sua dívida para com o semi-árido nordestino. O apoio à produção de grãos, à fruticultura irrigada e às explorações tradicionais do sertão, deve ser incondicionalmente reforçado, para que essas atividades atinjam o nível ideal de auto-suficiência, contando, inclusive, com o projeto de transposição das águas do rio São Francisco, devidamente revitalizado. E aqui queria destacar a criação pelo Presidente Lula de um Grupo de Trabalho, no último dia 15, que levará adiante essa questão, outra promessa de campanha.
Por último, gostaria de agradecer a presença honrosa dos governadores e demais autoridades, registrando a grande esperança que deposito nessa nova proposta política de desenvolvimento regional, com dimensão e origem verdadeiramente nacionais, e que, ao invés de apenas parcialmente contemplar as regiões mais atrasadas como áreas-problema, vislumbra o conjunto de todas as regiões brasileiras, com as suas peculiaridades, diferenciações, potencialidades e demandas próprias, sob a perspectiva histórica de um Brasil em um novo tempo.

* Solenidade de Recriação da SUDENE. Auditório do Banco do Nordeste. Fortaleza (CE) em 28/07/2003
** Governador do Estado do Ceará (2003-2007)

quinta-feira, 29 de março de 2007

Lúcio Alcântara alerta para compromissos programáticos


O ex-governador Lúcio Alcântara (PR-CE) convocou dirigentes, militantes e simpatizantes do PR ao trabalho capaz de projetar para sociedade a imagem do partido como sigla que honra seus compromissos republicanos. Na Carta aos Republicanos, o ex-governador reconhece a necessidade da definição de uma linha de coerência capaz de evidenciar os compromissos democráticos da legenda.

Carta aos Republicanos


Como é de conhecimento púbico, dificuldades incontornáveis de natureza local nos impeliram à decisão de encaminhar nossa transferência partidária por nos mantermos fiéis a determinados princípios dos quais não queremos declinar. Diante dos fatos, buscar abrigo em uma nova legenda foi um imperativo ditado pela necessidade de garantir perspectivas futuras a um grupo de homens públicos que permaneceram leais às razões que nos conduziram a tomar decisões afirmativas da nossa independência política, entre os quais se encontram parlamentares, prefeitos e outras lideranças com bons serviços prestados ao povo cearense.


Encontramos na legenda do Partido da República (PR) aquelas condições que avaliamos suficientes para uma decisão segura. Fomos bem recebidos pelos companheiros do PR. Nenhuma exigência fizemos e nada nos foi solicitado, além de dedicação que, estejam certos, teremos para colaborar para que o partido tenha condições de representar as melhores esperanças do povo brasileiro.

A reforma política, por muitos anunciada e tantas vezes postergada, certamente dará ao quadro partidário nacional um formato mais consistente. Precisamos nos preparar para isto. O Partido da República, pela força de sua bancada atual no Congresso Nacional e proeminência de suas principais lideranças, tem todas as condições de ultrapassar o marco seletivo da reforma partidária, consolidando-se como uma referência no aprimoramento do nosso sistema de representação popular.

Queremos colaborar para que o PR - à parte a atuação de seus membros no apoio ao Governo Federal e a participação efetiva dos mesmos nos postos que lhe forem confiados - possa dedicar-se ainda com maior esforço à formulação e um programa partidário doutrinariamente bem definido, à boa formação e quadros na sua militância e, com especial atenção à construção de uma imagem pública que contribua para o fortalecimento do processo institucional, angariando a confiança do nosso povo e com ele construindo uma duradoura identidade.

No longo percurso de uma vida dedicada à causa Pública, sempre procuramos honrar responsabilidades que nos foram confiadas sem buscar necessariamente posições de liderança, valorizando sempre o esforço e a dedicação dos demais companheiros. Por onde passamos, deixamos como uma marca da nossa atuação o empenho na formação de quadros e a construção de uma ideologia partidária. No PR, não será diferente.

Queremos, portanto, colaborar para que o Partido da República amplie a sua militância e a sua representatividade institucional, mas queremos também contribuir para que o nosso partido defina uma linha programática coerente e projete para a sociedade brasileira a imagem de uma sigla que honra efetivamente os ideais republicanos que colocam o princípio democrático e a defesa do interesse comum como à causa primordial de sua atuação.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Rio São Francisco - Estrada Sinuosa


Uma estrada sinuosa, que exige fôlego e paciência dos que a percorrem. Esta parece ser uma boa imagem para definir as negociações em torno da transposição das águas do rio São Francisco, assunto que o governo federal espera traduzir em obras ainda este ano. Isso, se conseguir vencer os desvios e paradas ocasionais, pois o percurso é longo.

Tão longo quanto os 2.800 metros de extensão do São Francisco, que percorre alternadamente cenários de natureza exuberante e aridez absoluta. Do ponto em que nasce, na Serra da Canastra, em Minas Gerais, até desembocar no mar, entre Sergipe e Alagoas, o Velho Chico enfrenta uma corrida de obstáculos e culturas variadas, sendo que sua bacia atinge 504 municípios de sete estados brasileiros.

Por mexer com tanta gente, a transposição das águas do São Francisco mobiliza forças sociais, promove interesses políticos e desperta paixões - algumas despropositadas. Geralmente, as vozes que se levantam contra o projeto alegam que ele causaria males ecológicos e econômicos ao País. Se assim fosse, estaríamos defendendo o indefensável. Mas não é.

Hoje, mais do que nunca, é possível investir em grandes obras estruturantes de forma planejada e responsável, sem desperdício de recursos nem danos para o meio ambiente. Há muitos anos estudos são feitos acerca do aproveitamento de uma pequena parte das águas do rio São Francisco, que não sofreria com as obras.

Antes de começar o trabalho, é necessário um parecer favorável do Relatório de Impacto Ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Rima/Ibama), entre outras providências. Agora, é hora de unir conhecimento técnico, planejamento ambiental, campanhas de informação, responsabilidade social e, sobretudo, vontade política.
A Assembléia Legislativa do Ceará deu mais um passo nessa caminhada em prol de antigas reivindicações, instalando um comitê de defesa de transposição das águas do São Francisco, com representantes de órgãos estaduais, universidades e entidades, como a Fiec.

Nacionalmente, as negociações, permeadas por avanços e recuos, pequenas vitórias e grandes polêmicas, têm sido levadas adiante pelo Ministério da Integração Nacional, com o acompanhamento de vários ministérios e do Comitê da Bacia Hidrográfica do rio São Francisco, no qual a sociedade civil tem importante participação.

A transposição do São Francisco não resolverá todos os problemas referentes à falta de água no Nordeste. Ela vai contribuir imensamente para um projeto maior, que interliga bacias em vários pontos da região, de modo a distribuir água o ano inteiro e garantir condições mais dignas de sobrevivência para milhares de famílias.

Pesquisas e experiências desenvolvidas nas últimas décadas comprovam que o semi-árido é propício a atividades lucrativas, como fruticultura, ovinocaprinocultura, apicultura e produção de oleaginosas (mamona, amendoim, gergelim, girassol). O projeto do São Francisco, junto com medidas sérias de integração hídrica, pode levar a região a um novo modelo de desenvolvimento.

O Ceará inaugurou há pouco tempo a primeira etapa do Canal da Integração e trabalha, de forma planejada, há 15 anos na construção de açudes, canais, estações de tratamento, adutoras e poços profundos que se comunicam por todo o Estado.

Hoje, os programas que dão certo evitam pulverização de recursos, promovem a articulação das ações setoriais do governo e mobilizam forças da sociedade civil, principalmente dos beneficiários das medidas, formando parcerias estratégicas e duradouras. A articulação institucional intergovernamental potencializa esforços e recursos, tornando possível a complementariedade de ações.

Todos conhecem o episódio das jóias da Coroa, que D. Pedro II jurou vender caso necessário, em troca da solução da questão nordestina. Que a transposição das águas do rio São Francisco não se transforme em uma miragem no deserto nem esbarre na má vontade gerada pela desinformação.

A última grande estiagem nordestina (1998-1999) consumiu R$ 2 bilhões só do governo federal. Isso é quase metade do valor calculado para financiar a transposição do rio São Francisco.

quarta-feira, 7 de março de 2007

PR é a mais nova casa do ex-governador Lúcio Alcântara


A escalada de crescimento do Partido da República chega com força ao Estado do Ceará pelas mãos do ex-governador Lúcio Alcântara e mais 4 deputados que assinaram as fichas de filiação do PR. A filiação das lideranças cearenses foi oficializada em Brasília, na Liderança do PR na Câmara dos Deputados, durante cerimônia que reuniu lideranças nacionais da legenda nesta quarta-feira, 7 de março.


Além do ex-governador Lúcio Alcântara, filiaram-se ao PR o Deputado Estadual Adhail Barreto, e os Deputados Federais Leo Alcântara, Marcelo Teixeira e Vicente Barreto que, na companhia da deputada Gorete Pereira, passarão a formar a bancada cearense dos republicanos da Câmara dos Deputados.


A concorrida cerimônia foi marcada pelo entusiasmo de seus participantes. “É uma honra pra mim, eu como cearense que sou, participar deste momento”, comemorou o Líder do PR na Câmara, Deputado Luciano de Castro (PR-RR), que nasceu no Estado do Ceará, mas é cidadão do Estado de Roraima. “Sua vinda para cá torna o Estado do Ceará um Estado muito importante para o Partido da República”, sentenciou o Presidente de Honra do PR, Senador Alfredo Nascimento (AM), em pronunciamento que homenageou o ex-governador Lúcio Alcântara.


“Estou iniciando uma nova etapa na minha já longa vida publica. Até cogitei, determinado momento, de dar por encerrada minha missão uma vez que já tive a oportunidade de exercer tantos cargos, e que talvez fosse o momento de abrir o espaço para que outras lideranças tivessem a oportunidade. Mas foi um grupo de amigos, companheiros, que me incentivou, estimulou, e que, de certa forma, me outorgou a responsabilidade de coordenar o destino destas pessoas. E eu não me considerei no direito de me omitir diante disso”, ressaltou o ex-governador Lúcio Alcântara em discurso que além de assumir compromissos com o crescimento e a consolidação da legenda em seu Estado, fez questão de reconhecer o brilho do trabalho da Deputada Gorete Pereira e do atual presidente do PR, Iranildo Pereira.


NOTA DA REDAÇAO – O ex-governador Lúcio Alcântara foi Secretário de Saúde do Ceará aos 27 anos de idade, de 1971 a 1973. Respondeu pelo mesmo cargo em 1975 e em 1991. Em 1978 foi Secretário Estadual para Assuntos Municipais. Em 1979 foi eleito prefeito de Fortaleza. Alcântara foi eleito deputado federal em duas eleições (1982 e Constituinte em 1986). Na eleição de 1990 foi eleito vice-governador na chapa de Ciro Gomes. Quatro anos depois se elegeu Senador e em 2002 foi eleito governador do Estado do Ceará.


segunda-feira, 5 de março de 2007

Ampliação do debate

Estamos ampliando o debate político e fomentando a criação de redes de parlamentares nos vários estados brasileiros e municípios do semi-árido, a fim de acompanhar e implementar o Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAN), que conta com o envolvimento dos vários ministérios, instâncias governamentais e da sociedade civil.

Ceará, Pernambuco, Piauí, Bahia, Maranhão, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Sergipe, Espírito Santo e Minas Gerais estão juntos nessa luta. O PAN, junto com medidas sérias de integração hídrica, pode levar o semi-árido brasileiro a um novo modelo de desenvolvimento, com base na redução da pobreza e das desigualdades sociais, na ampliação da capacidade produtiva e na proteção ambiental. Obras como o Canal da Integração e a transposição das águas do Rio São Francisco são fundamentais para transformarmos intenções em realidade.

Hoje, os programas que dão certo evitam pulverização de recursos, promovem a articulação das ações setoriais do governo e mobilizam forças da sociedade civil, principalmente dos beneficiários das medidas, formando parcerias estratégicas e duradouras. A articulação institucional intergovernamental potencializa esforços e recursos, tornando possível a complementariedade de ações.

Só para se ter uma idéia, hoje, o Ministério das Cidades executa um projeto de saneamento básico que envolve 84 municípios da bacia do São Francisco, no valor de R$ 660 milhões, pois 250 comunidades despejam esgotos "in natura" na calha do rio.

Por fim, se a transposição do rio São Francisco, por um lado, não resolve os problemas referentes à falta de água no Nordeste, por outro, contribui imensamente para a garantia de condições mais dignas para milhares de famílias. Contudo, o debate só chegará a bom termo se as prerrogativas nacionais forem colocadas acima das conveniências políticas e muito além dos interesses de cada região.

O Canal da Integração


Um canal gigantesco, o maior já construído em concreto no País, com 225 quilômetros de extensão, é a obra mais fundamental para o processo de fortalecimento das condições de convivência com o semi-árido cearense. Estamos falando do Canal da Integração, que já teve o seu primeiro trecho inaugurado pelo Governo do Estado.

De saída, o Canal vai transportar as águas do açude Castanhão, no município de Nova Jaguaribara, a pontos distintos do interior cearense. Com isso, a agricultura irrigada ganhará um grande impulso, pois a obra vai fortalecer a produção de frutas na região do Baixo Jaguaribe. O abastecimento humano de Fortaleza e comunidades ao longo do Canal também estará garantido nas próximas três décadas, mesmo em períodos de estiagem.

Ao final do seu percurso, o Canal da Integração terá passado por 12 municípios, irrigando pelo menos 33 mil hectares e garantindo água para o Complexo Industrial do Pecém e os distritos industriais de Maracanaú, Horizonte e Pacajus.

O mais importante será quando a segunda e terceira etapas da obra estiverem concluídas, o Ceará será o primeiro Estado em condições de receber as águas provenientes da transposição do rio São Francisco.

Um projeto para mudar o Brasil

Em janeiro de 2006, parlamentares das bancadas federais do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco fizeram uma moção de apoio ao governo federal, pelo empenho na realização do projeto de transposição das águas do rio São Francisco.

Um documento produzido na ocasião observa: “somente alguém que sentiu na pele a situação de enfrentar longos períodos de estiagem, vendo-se obrigado a deixar a sua terra natal em busca de uma vida melhor, poderia entender o clamor do nosso povo e não se deixar levar pelas pressões dos que são contrários a oferecer um pouco d’água a quem tem sede”.

Independente de pressões localizadas e interpretações emocionais, tão prosaicas na história brasileira, mas pouco indicadas a este ou a outros casos, a transposição das águas do rio São Francisco vem deixando de ser uma miragem no deserto para transformar-se numa realidade concreta.

Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte seriam os estados diretamente beneficiados, mas um conjunto de medidas em prol do Velho Chico estenderiam os efeitos das melhorias para os estados vizinhos.

Antigas, as negociações foram sempre marcadas por avanços e recuos, e hoje são coordenadas pelo Ministério da Integração Nacional, com o acompanhamento de vários ministérios e do Comitê da Bacia Hidrográfica do rio São Francisco, no qual a sociedade civil tem importante participação.

Devemos esclarecer que não se trata de uma questão nordestina, mas de um grande tema pátrio. A distribuição da água no território nacional é assunto que diz respeito a cada um de nós, brasileiros. E o princípio da federação, que nos rege, pressupõe compromisso com o todo, e solidariedade entre os estados membros.

Toada antiga

Essa é uma toada antiga. Nos tempos do Império, o deputado cearense Marcos Macedo já falava sobre a importância das águas do São Francisco no atendimento a outros estados.

Mais de 500 municípios de sete estados brasileiros são atingidos pela bacia do rio São Francisco, que nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e desemboca no mar, entre Sergipe e Alagoas, perfazendo um longo e sinuoso percurso de 2.800 quilômetros de extensão.

Por envolver tamanha quantidade de lugares, climas, pessoas e interesses, num raio de abrangência que abarca as regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, a transposição das águas do velho Chico incita o debate político, mobiliza forças sociais, mexe com prerrogativas técnicas e divide a opinião pública.

Junte-se a isso a má vontade nascida da desinformação de alguns setores do pensamento nacional, para os quais pouco vale dizer que somente uma pequena quantidade da água do rio seria desviada para abastecimento da população, justamente a que é jogada no mar sem proveito algum.

As vozes que se levantam contra o projeto alegam que ele causaria males ecológicos e econômicos ao País, ainda que estejam em andamento ações de controle da erosão na bacia do rio; monitoramento da qualidade da água; reflorestamento das nascentes, margens e áreas degradas na bacia do São Francisco e estudos de conformação do leito navegável.

O pior cego é o que não quer ver. Hoje, sabemos que é possível erguer obras estruturantes fundamentais, de forma planejada, responsável e conseqüente, evitando desperdícios de verba pública, estorvos para a população e danos ao meio ambiente.
É bom esclarecer também que a transposição do rio São Francisco será bem-vinda por impulsionar um projeto maior de interligação de bacias, capaz de levar o Nordeste a um novo patamar de desenvolvimento. Com a água transposta, alguns açudes estratégicos poderão multiplicar a sua vazão regularizada, sendo que apenas nos anos críticos de estiagem a transposição ocorreria nos limites máximos. Para diminuir as perdas por evaporação, já estamos reforçando a gestão racional dos reservatórios públicos.
Por sua vez, a irrigação no Vale do São Francisco, que pode expandir-se por mais 800 mil hectares nos próximos anos, significa maior produtividade agrícola, incentivo à fruticultura, criação de novos empregos e geração de renda para milhares de famílias, especialmente na região do semi-árido, a mais penalizada pelas estiagens e pelo descaso político.

Apesar das polêmicas e delongas, nunca estivemos tão próximos de traduzir dados em obras. É importante, portanto, que todas as dúvidas sejam esclarecidas, para que nenhum Estado se julgue prejudicado pela realização desse empreendimento, que por sua vez, não prejudicará o rio São Francisco, esse formidável patrimônio nacional, cujo leito continuará passando por onde sempre passou.

O objetivo, é bom esclarecer, não é acabar com a seca, mas amenizar os seus efeitos, contribuindo para o convívio harmônico do homem com o semi-árido. Não creio que falte solidariedade ao povo baiano, mineiro, paulista ou carioca, para compreender a magnitude de uma aspiração de tantos anos.

Bons tempos para o semi-árido

O projeto do São Francisco está estritamente ligado ao convívio harmonioso com o semi-árido, uma região densamente povoada e com demandas históricas a serem sanadas.

Por isso, o governo federal estruturou o Programa de Desenvolvimento Sustentável do Semi-Árido e da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, planificando medidas que se dividem entre os seguintes programas: Revitalização do Rio São Francisco; Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca; Suprimento de Água para Populações Rurais e Urbanas; Programa Conviver para a Região Semi-Árida e Programa de Integração de Bacias Hidrográficas.

Todos esses programas se dividem em uma série de ações que visam proteger o rio e beneficiar a população do entorno. O sertão nordestino, enfim sabemos, precisa de apoio político, investimentos bem direcionados e obras estruturantes para mostrar a sua pujança e inaugurar uma nova era econômica.

Nos últimos anos, muitas atividades estão sendo estimuladas no semi-árido nordestino, além da agricultura familiar. Pesquisas e experiências desenvolvidas nas últimas décadas comprovam que a aparente hostilidade da região é propícia a atividades lucrativas, como fruticultura, aqüicultura, ovinocaprinocultura, apicultura, produção de oleaginosas (mamona, amendoim, gergelim, girassol), além do beneficiamento de riquezas minerais, do turismo ecológico, esportivo e religioso e da exploração do artesanato.

Os estados precisam estar atentos para não desperdiçar oportunidades de investimentos nem adiar o processo de crescimento, que se faz de forma integrada, em diversas frentes, dentre as quais se destaca a educação para o convívio com o semi-árido.

Em janeiro desse ano, o Governo do Ceará lançou a Unidade de Formação do Capital Humano do Campo (Unicampo), que vai articular uma grande rede para a troca de experiências, conhecimentos e técnicas agrícolas entre pequenos agricultores, empresários rurais e instituições de ensino. Uma troca que vai beneficiar 30.000 pessoas somente em 2006, por meio da promoção de teleconferências, seminários, oficinas, cursos, reuniões e eventos de capacitação.

A idéia é o combate intenso ao analfabetismo, o repasse de técnicas agrícolas e a conscientização para a preservação do meio ambiente, dentre outros pontos importantes. Instituições públicas, entidades privadas, movimentos sociais, conselhos setoriais e municipais, instituições financeiras, organizações de classe e instituições de ensino e pesquisa fazem parte desse grande mutirão para a qualificação da mão-de-obra.

A Unicampo integra o eixo de Desenvolvimento Humano do Programa Sertão Vivo, que envolve quinze secretarias de Estado e fundamenta as suas ações na geração de trabalho e renda, infra-estrutura básica e hídrica, meio-ambiente e tecnologia, além de desenvolvimento humano.

A Fisionomia de um Projeto

O “rio da integração nacional”, como é chamado o São Francisco, foi descoberto, praticamente junto com o Brasil, em 1502. Apesar dos maus tratos a que foi submetido ao longo da história, continua assemelhando-se a uma mão aberta e generosa, recebendo água de 168 afluentes e banhando os estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas; sendo que sua bacia hidrográfica também envolve parte de Goiás e Distrito Federal.

Mesmo durante a estação seca, é a represa de Sobradinho que garante a regularidade de vazão do São Francisco, alimentando cinco grandes companhias hidrelétricas, como a do São Francisco (Chesf). As águas do rio põem em funcionamento o sistema nervoso das hidrelétricas, alimentando-lhes os geradores e, depois disso, seguem para o mar.

O projeto de transposição prevê a captação de 26 metros cúbicos por segundo (m³/s), ou seja, 1,4% do volume de água que o rio despeja no mar. Essa água será preciosa para o abastecimento das bacias dos rios Jaguaribe, no Ceará; Apodi, no Rio Grande do Norte; Piranhas-Açu, na Paraíba e no Rio Grande do Norte; Paraíba, na Paraíba; e Moxotó e Brígida, em Pernambuco.

Dados do Ministério da Integração Nacional esclarecem que, hoje, 95% do volume médio liberado pela barragem de Sobradinho – 1.850 metros cúbicos por segundo – são despejados na foz e apenas 5% são consumidos no Vale. Nos anos chuvosos, a vazão de Sobradinho chega a ultrapassar 15 mil metros cúbicos por segundo, e todo esse excedente também vai para o mar, revelam estudos técnicos.

Não se quer, de maneira alguma, tomar medidas que agravem as condições de degradação do ecossistema, pois o rio já tem problemas em relação às suas nascentes e ao longo de suas margens. Ao contrário, o que almejamos é uma recuperação que pode significar nova vida para o São Francisco.

O Programa de Revitalização, cujas ações já se iniciaram, contempla justamente a melhoria da navegação no rio, o que trará avanços para o transporte de soja, algodão, milho e outros grãos, que transitam do oeste da Bahia para o porto de Juazeiro, também na Bahia, escoando-se a produção, por ferrovia, para os maiores portos do Nordeste.

Serão financiados projetos de reflorestamento das margens do rio, recuperação do leito, combate à erosão e ao assoreamento, além de obras de saneamento, tratamento de esgotos e projetos de desenvolvimento sustentável para atender às populações ribeirinhas.

Doze milhões de pessoas podem ter o abastecimento garantido com a captação de água do Velho Chico, dividindo-se o projeto em dois eixos: o canal leste, que atenderá Pernambuco e Paraíba, e o canal norte, responsável pelo abastecimento do Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco.

A seca e as jóias da coroa

Tratada geralmente com excessos sentimentais, parcialidade política e pouca fundamentação científica, a questão das secas periódicas continua a desafiar o Nordeste. Relatos históricos garantem que D. Pedro II jurou vender até a última jóia da coroa para que nenhum cearense morresse de fome. Com isso, provou apenas que os flagelos não se resolvem com belas frases.
Durante muitos anos, a açudagem foi considerada a nossa única saída para os humores do clima. Com o tempo, porém, a construção de barragens e grandes reservatórios, por si só, mostrou-se incapaz de promover melhorias na agricultura e assegurar prosperidade para as regiões secas.
Hoje, afinal, sabemos que não basta acumular água. É preciso investir numa política conseqüente de gestão dos recursos hídricos, capaz de planificar medidas estruturantes, interligando bacias e conectando os esforços da União, estados e municípios. Há inúmeros projetos de transferência de água muito bem sucedidos na Rússia, nos Estados Unidos e em vários outros países.

Nesse ponto, apesar das gigantescas dificuldades, o Ceará tem muito o que dizer. Já avançamos bastante no sistema de integração das águas, desenvolvido de forma planejada há 15 anos, com a construção de açudes, canais, estações de tratamento, adutoras e poços profundos que se comunicam por todo o Estado.

Esse sistema leva a água das regiões úmidas para as zonas secas. Por causa disso, o Ceará possui hoje 2.600 quilômetros de rios perenizados.

Nesse ponto, é bom que se diga que a Política Estadual dos Recursos Hídricos adota os princípios básicos de descentralização, integração e participação comunitária, para garantir que a água seja usada de forma racional pela sociedade, representada nos Comitês de Bacias Hidrográficas.

No longo caminho rumo ao desenvolvimento sustentável, uma das mais importantes obras hídricas do País é a transposição das águas do velho Chico, e o Ceará está se preparando para a concretização desse projeto, com sua política de recursos hídricos e pontos de apoio, dentre os quais se destaca um grande canal que vai interligar vários municípios do interior.