sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

MANTEIGUEIRA SILVA - LISBOA - Foto de Paulo Alexandrino 

JOALHARIA DO CARMOS - LISBOA - Foto de Paulo Alexandrino

HOSPITAL DE BONECAS - LISBOA - Foto de Paulo Alexandrino

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

RCP - Real Colégio de Porugal
Primeira Casa das Bandeiras / Lisboa - Foto de Paulo Alexandrino
Tabacaria Martins / Lisboa - Foto de Paulo Alexandrino

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Foto: ADELINO CHAPA - Alfama, 2007.
Foto: ADELINO CHAPA - Feira da Ladra, 2007

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

REYNOLDS (1723 - 1792)
Il piccolo Samuele
Le petit Samuel
The young Samuel
Der junge Samuel
El pequeño Samuel
Montpellier - Musée
HENNER (1829 - 1905)
Fabiola
Paris - Musée du Louvre

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A corrosão do consenso básico

Quando tudo é contestado, 
o resultado é uma democracia
 instável, imprevisível.

Vivemos uma crise multifacetada: econômica, política, social jurídica, cultural, ideológica e histórica. Mais grave que os aspectos econômicos, sociológicos ou jurídicos da crise, contudo é seu agravamento político. Estamos num rumo perigoso. No Brasil tudo está em questão. A isso nos levou a confusão cultural, normativa e comportamental que resultou da dilaceração do tecido social.

Qualquer sociedade democrática precisa institucionalizar valores básicos, subscritos por sua população, para assegurar sua estabilidade e um ordenado e legal processo político de mudança. Quando não há consenso em torno desses valores básicos ou quando se instala um conflito radical entre eles, a Nação tende a se dividir em dois blocos radicais e excludentes “qui hurlent de se trouver ensemble”.

É a conhecida situação da curva em U, em que o poder foge do centro e se aloja nos extremos. Caso da guerra civil, o pior dos conflitos, cujo exemplo emblemático é a Guerra Civil Espanhola, que em julho de 1936, mais que dois blocos, deu origem a “duas Espanhas”. Nessa situação, parentes e amigos evitam se encontrar, tal a hostilidade que os valores políticos antagônicos provocam entre eles. A guerra civil é a prova definitiva de que o ódio na política é muito mais forte que o ódio no amor.

Não nos encontramos nessa situação. Mas já estivemos muito mais longe dela... Entre a Espanha da guerra civil e o Brasil da crise, a Venezuela bolivariana de Maduro já se encontra muito próxima da guerra civil. Estamos ainda longe da situação espanhola, mas não tão longe da venezuelana. Atente-se para alguns valores essenciais à vida social organizada que se encontram em conflito, contestação e deslegitimação, no Brasil.

• Democracia direta para corroer a democracia representativa – A única condenação legítima é pelo voto: implica desqualificação da legislação penal; pressão por convocação de constituintes, plebiscitos, referendos e reformas políticas para substituir competências já definidas do Legislativo e do STF; manifestações com militantes “pagos” para pressionar, e forçar, decisões legislativas ou jurídicas em normal tramitação no Congresso e no STF.
• Quebra do consenso, tudo está em questão – Redefinição contra legem da família, do regime jurídico do funcionalismo (greve), da eleição direta de dirigentes de órgãos públicos.
Família: qual sua conformação em termos de gêneros? Malicioso enquadramento da discussão família tradicional x família moderna. Sexo: escolhe-se ou é predeterminado ao nascimento? Uso de sanitários é de livre escolha?

Democracia: qual a verdadeira democracia, a representativa ou a democracia direta? Qual o valor estruturante da democracia, igualdade e liberdade política ou igualdade econômica e social? Liberdade econômica macro: quem deve ocupar-se da atividade econômica: a livre-iniciativa ou os órgãos do Estado?
Propriedade privada é legítima e legalmente protegida ou tem legitimidade discutível e precária? A “invasão” é um delito ou é um direito?

O lucro é uma conquista legítima ou um roubo, sujeito à expropriação? O mercado é necessário ou prejudicial?

A escola deve transmitir conhecimentos ou ideologia? Educação ou doutrinação? É legítimo e legal a censura por deliberada exclusão? É óbvio que, na prática política, ideologia e doutrinação serão eufemisticamente definidas como “espírito crítico”.

O criminoso é responsável por seus atos ou vítima? Liberdade de imprensa é uma garantia de liberdade ou é o abuso dos proprietários? Qual o critério legítimo para a promoção salarial ou na carreira: desempenho (mérito) ou confiança política?
Símbolos religiosos não podem ser expostos em público ou é direito de qualquer religião expor seus símbolos? A vida humana é sagrada ou instrumental?

O que é a legalidade? O Estado Democrático de Direito, suas instituições e normatividade, ou esses são apenas atributos formais, inferiores aos critérios substantivos? O que é golpe de Estado, um conceito jurídico-político ou uma expressão usada na disputa política de significado arbitrário? Como entender esta frase: seguir a virtude prejudica o País (prejuízos e custos da Lava Jato)?

• Destruição da dignidade dos Poderes e das funções – Plenário do Congresso como palco para danças folclóricas, reunião indígena, concentração de minorias organizadas. Ocupação da Mesa do Senado por senadores de um partido. Legisladores usando cartazes, igualando-se a manifestantes. Cenas de pugilato, cuspidas. Obstrução invasiva apoiada por legisladores.

Como se constata, tudo é contestado. E quando tudo é contestado, corrói-se o consenso básico. Não se trata de um consenso absoluto e irreal. Trata-se de um consenso em valores básicos, centrais e de elevada hierarquia, mediante o qual a política e a administração são previsíveis; contêm regras que os cidadãos conhecem, praticam e as instituições protegem; e se consolida numa organização política democrática, unida em torno desses valores e dividida em torno de políticas públicas.

Quando tal não sucede, quando tudo é contestado, quando tudo está sempre aberto a mudanças, o que resulta é uma democracia instável, imprevisível, de precária legitimidade e duração. Tais democracias tendem a desembocar no totalitarismo, na ditadura populista ou na cronificação da instabilidade, o que parece ser o caso do Brasil.

A listagem apresentada permite identificar, no mínimo, 40 questões intensa e radicalmente divisivas. Considere-se, entretanto, que nenhuma é de importância periférica ou secundária. São todas elas indispensáveis para a configuração política, econômica, social, jurídica e cultural do País e para a qualidade de sua democracial.

A indagação que se impõe é de hierarquia correspondente à gravidade do nosso desafio como nação democrática: como uma nação com tal grau de conflito em seus valores básicos poderá construir e manter uma democracia moderna, autêntica e estável?

Por Francisco Ferraz - 
Professor de Ciência Política e ex-reitor da UFRGS, é criador e diretor do portal politicaparapoliticos.com.br.

Fonte: O Estado de S. Paulo, Espaço Aberto - Domingo (08/08/2017)

O fim do amadurecimento


Existem alguns efeitos nefastos que são claramente derivados da sociedade avançada de mercado em que vivemos. Aliás, minha principal razão de crítica à esquerda é sua incapacidade atávica de perceber a realidade. Ao contrário do que parece, a esquerda investe numa visão infantil da realidade, negando o fato de que ela mesma, a esquerda, é um dos fetiches mais chiques do capitalismo avançado.

Se a esquerda é utópica em sua crítica infantil, os liberais tampouco nos ajudam com sua utopia de que o mercado resolve tudo. Falta aos liberais reverência ao fracasso.

Falta à esquerda a humildade de se assumir como um produto do capitalismo como uma Louis Vuitton. O sucesso do melhor método de produzir condições razoáveis de vida (o capitalismo) é nosso próprio cadafalso: gente bem de vida fica, na maioria das vezes, boba.

Mas vamos ao que interessa. O fim do amadurecimento. Mas, antes, um detalhe de que não tratarei hoje: o fim do afeto. Este está em extinção devido ao seu caráter necessariamente dolorido. Não existem paixões alegres sem paixões tristes.

O fim do afeto ocorrerá em breve e ele está intimamente associado ao fim do amadurecimento porque este implica naquele. Não há amadurecimento sem sofrimento e esse é o foco de todo o esforço moderno: eliminar o sofrimento.

Calma. Não estou aqui a fazer um elogio à agonia. Nem ao sofrimento. Não precisamos procurá-los, eles nos encontram de forma inevitável. Toda pessoa normal, como diziam utilitaristas como Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873), foge da dor e busca o bem-estar. Estou a dizer que o utilitarismo transformado em comportamento sistemático produziu o momento mais infantil da espécie: nossa era.

Pode-se notar claramente o fim do amadurecimento tanto no comportamento dos mais jovens como no dos mais velhos. O amadurecimento não é algo que se busca ou se compra. Ele está mais perto do fracasso do que do sucesso. É aquele tipo de estado de espírito que se revela mais no silêncio do que no ruído da autoafirmação. Pede paciência, como o conceito pede, diria Hegel (1770-1831).

E levanta voo no final do dia, como a coruja da filosofia, segundo o mesmo Hegel. Por isso sempre associamos o amadurecimento aos mais velhos. Quando se vê avós querendo imitar netas, pode apostar que o contrário do amadurecimento, o retardo mental, se instalou como modo de vida.

Nos jovens, o estrago é cada vez pior. Chegam a universidade atolados em "políticas de vulnerabilidade". Você não sabe o que é isso? Explico.
Em 2004, o sociólogo inglês Frank Furedi, no seu "Therapy Culture", ainda sem tradução no Brasil, apontava, a partir de uma pesquisa empírica na mídia impressa britânica, o crescimento de termos psicológicos que descrevem vulnerabilidade: angústia, necessidade de aconselhamento, ansiedade, distúrbios de atenção, e outros.

Nas escolas e universidades, o impacto é enorme. Pais e profissionais, de forma disfarçada, pressionam as instituições de ensino para "aprovarem" seus filhos em nome de seus diagnósticos. A vulnerabilidade clínica deve ser critério, pensam o ideólogos dessas políticas de vulnerabilidade, para aprovação. Usam termos como "inclusão" para justificar velhas práticas de negação dos resultados ruins de seus filhos e pacientes.

O resultado, entre outras coisas, é que os jovens são cada vez mais frágeis, com quase nenhuma "resiliência" (nome da moda pra se referir à velha força de caráter, fora de moda). Sendo uma avaliação algo além de mera devolutiva de conteúdo da matéria, essa mesma avaliação passa a ser um instante de enorme stress patológico. Algum dia desses, um professor será processado por reprovar um aluno.

E o problema é que a pedagogia, muitas psicólogas e parte do Ministério Público endossam esse desastre para o amadurecimento.

O ganho secundário, como diria Freud (1856-1939), dessa neurose da vulnerabilidade é que esses jovens são "poupados" de qualquer responsabilidade moral. Uma catástrofe em nome da vulnerabilidade. Uma geração inteira de medrosos com iPhones. 


Por Luiz Felipe Pondé

Fonte: Folha de S. Paulo, Ilustrada - Segunda-feira (17.07.2017)

As substâncias medicinais da maconha


O uso da maconha foi proibido a partir da conferência internacional do ópio, realizada em Genebra em 1924. Decidiu-se na época que era mais perigosa do que o ópio.

Em nosso meio, segundo o professor Elisaldo Carlini, da Unifesp, a partir da década de 1930, seu uso foi proibido e os usuários passaram a sofrer perseguição policial.

Antes da proibição, a Cannabis já era usada no tratamento de convulsões em crises de epilepsia.

Em 2003, a OMS autorizou o uso médico da tetra-hidrocanabinol, substância derivada da maconha. No Brasil, a RDC 79/2016 da Anvisa incluiu os canabinoides como produto médico controlado sob receita médica.

Raphael Mechoulan, da Universidade Hebraica de Jerusalém, recentemente fez uma revisão, na revista "Epilepsy & Behavior", dos canabinoides e do uso dos princípios ativos da maconha.

Em pesquisa publicada em 1964 no "Journal of the American Chemical Society", Mechoulan, em colaboração com Yechiel Gaoni, relatou o isolamento pela primeira vez do tetra-hidrocanabinol, no Instituto Weizman de Ciências de Israel. Mais tarde, essa e outras substâncias ativas da maconha passaram a ser usadas no tratamento de crises epilépticas de crianças, onde outros remédios falharam. Essas substâncias estão sendo estudadas para controle da dor e em problemas autoimunes.

Pelo pioneirismo de Mechoulan, está sendo organizada uma conferência internacional em sua homenagem pela Universidade Hebraica de Jerusalém e pela Sociedade Internacional de Pesquisas em Canabinoides. 


Fonte: Folha de S. Paulo, Plantão Médico, por Júlio Abramczyk - Sábado, 5/08/17).


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

PEQUENAS LIVRARIAS VOLTAM A ABRIR PORTAS EM NOVA YORK


Um ditado favorito dos americanos para expressar ironia após triunfar sobre uma adversidade foi cunhado por Mark Twain: “Notícias da minha morte foram muito exageradas”, disse o autor de Huckleberry Finn, um humorista fino. Para os sofridos livreiros independentes, um pouco de triunfalismo será desculpado, neste ano em que o discurso público emanando de Washington reflete alergia a qualquer forma de prosa literária. Não é exagero: as livrarias independentes, além de não estar mortas, voltaram com força. Em 2009, havia 1.401 livrarias independentes nos Estados Unidos. Este ano, elas já somam 2.321. Nova York, onde caros aluguéis comerciais afugentam o varejo como não acontecia desde o crash de 2008, ganhou pelo menos cinco livrarias no último ano, como a aconchegante Books Are Magic, no Brooklyn. A livraria foi aberta em maio pela romancista Emma Straub, autora de Os Veranistas, que começou a escrever ficção enquanto trabalhava como vendedora na Book Court, no mesmo bairro. A Book Court fechou depois de 35 anos, em dezembro, porque o prédio foi vendido para um empreendimento imobiliário. O pesar entre leitores e escritores que lançavam seus livros na Book Court, como Junot Diaz e Don DeLillo, ilustrou como o papel das independentes cresceu com a debandada das cadeias sob o cerco da Amazon e do livro digital. 
O número de debates e eventos com autores em livrarias aumentou este ano, depois da vitória do presidente, que pede aos assessores relatórios de apenas uma página, de preferência com gráficos. E não é só por causa do renovado sucesso da ficção sobre distopias. Em cidades como Washington, Boston, São Francisco, Chicago e Nova York, é comum noites com mais de um autor debatendo temas além da literatura, como política de saúde e educação.
A explosão das cadeias dos anos 1990, como a Barnes & Noble, ainda sobrevivente da devastação digital do começo do milênio, colocou as independentes na defensiva, incapazes de competir com a venda de livros com desconto. Mas as cadeias de livrarias, além do assalto da Amazon, passaram a enfrentar outro fenômeno recente: a morte dos shoppings onde costumavam se instalar. É o que a mídia chama de “apocalipse do varejo”. Enquanto shoppings vão ficando desertos, a vida de pequenas cidades e subúrbios afluentes se volta ao comércio da rua principal e adjacências. É um estímulo à volta da livraria como ponto de encontro e conversa.
Há 20 anos, esta repórter estava filmando uma da melhores livrarias de ficção literária de Nova York, quando uma van despejou uma turma de alunos do segundo grau na Books & Company. O professor guiava a turma como se estivesse no Museu Metropolitan, destacando fotos de grandes romancistas nas paredes. Foi um momento doce e amargo. A sorte dela já estava selada pela alta exorbitante do aluguel do proprietário do prédio, o Museu Whitney. Mas os adolescentes percorreram com entusiasmo a livraria como a âncora de uma cultura literária pela qual estariam por se afeiçoar.
Novas pesquisas revelam que apenas 6% dos leitores de livros nos Estados Unidos consomem apenas livros digitais. A livraria física e os livros impressos continuam a atrair leitores de todas as idades. Para uma cidade de 8.5 milhões de habitantes, as cem livrarias independentes de Nova York não fazem frente à fartura de Paris. Mas a saúde das livrarias independentes mostra que é possível conviver com o e-livros sem abdicar dos prazeres do papel.

Fonte: Lúcia Guimarães. O Estado de S. Paulo (Domingo, 2 de julho de 2017)

POEMA ECOLÓGICO

Poema de Júlio Roberto, 1978, uma deliciosa lição-análise sobre este nosso cada vez mais agredido Ambiente, pela ganância ilimitada do mundo dos cifrões está a conduzir para a destruição.


“Amigo Chefe Seattle 
Li a tua carta escrita em 1854 ao grande Chefe Branco de Washington. 
Sou um homem de 1978 que vive, como tu previste, num mundo em decadência e destruição. Já não ouço o sussurrar do vento nem o diálogo nocturno das rãs nos charcos da selva. Já nem temos selva. 
As flores murcham, as árvores agonizam, os pássaros fogem e os insectos deixam de zumbir. Sei que sou um homem enjaulado numa cidade, enquanto outrora tu vivias nas pradarias, lá onde bisontes e búfalos te alimentavam o corpo e a alma. 
Os rios, para ti sagrados, são hoje para mim apenas uma miragem de infância. Neles, em vez de peixes a fazerem corridas e acrobacias, eu vejo o lixo da nossa civilização, os detritos deste mundo, as opulências mortas de uma humanidade que se afunda vertiginosamente na era do plástico. 
Olho para as estrelas e o luar. Parecem mais distantes do que são, e os meus olhos, desabituados já de os observar, cansam-se facilmente. Não tenho, como tu tinhas, esse poder de olhar de frente o sol, de receber – sem me cegar – a sua luz e o seu calor. 
As águias, vi uma ou outra, como se fossem já animais pré-históricos, aturdidos e se calhar confusos, sem perceberem o que fizemos desta Terra. 
E o mar, esse, sobretudo o que vinha dantes banhar as nossas praias e namorar a areia branca, vem agora sujá-las, com o lixo que lhe deitaram dentro. Tem um ar triste, de um mendigo que, às vezes, se revolta e destrói as grandes construções dos nossos engenheiros. 
Ah! Meu querido amigo selvagem! Como eu, que não vivi no teu tempo, nem nas tuas pradarias, tenho saudades da tua Terra sagrada! 
Sabes, agora temos frutos maiores, calibrados, estudados, enxertados, fertilizados e envenenados. Não sabem a nada, nem à frescura do néctar da flor que os gerou, nem ao perfume de que tu falas. 
A nossa sabedoria é outra. Transformámos tudo, progredimos, inventámos, criámos coisas que tu nem imaginas. Olha, substituímos o vento e o sol por uma coisa que se chama energia nuclear. 
Sabes, é que nós precisamos de mais energia. Criámos tantas coisas, somos seres tão exigentes, que a energia da Natureza não chega para os semideuses que nós somos.
Desviámos rios, irrigámos as terras, morreram muitos peixes, passámos fome; porém, temos coisas que tu nem sequer podias imaginar. 
Sabes o que é um arranha-céus com ar condicionado, elevadores que nos levam para cima e para baixo? Claro, não sabes. Tu não precisavas de morar para cima de ti próprio. Tinhas espaço e moravas para os lados. 
Nós vivemos a correr; tu contemplavas. Contentavas-te com pouco. Não admira, tu eras selvagem. Nós, não, temos necessidade de mais, cada vez mais, cada vez mais! 
É que nós não nos pertencemos. Pertencemos ao todo. Cada um é uma pequena peça que gira e roda sem saber porquê, e sem ter tempo para saber. 
Tu tinhas espaço, tinhas tempo e tinhas-te a ti. 
Como tu disseste, «Vocês morrerão afogados nos vossos próprios resíduos»”

Júlio Roberto (1929-2013) foi meu contemporâneo no Liceu. Na fase em que partilhei com ele e outros adolescentes com interesses intelectuais, ele era um curioso na biologia e na filosofia.
Professor, escritor, poeta, ecologista e editor (ITAU), foi conferencista em Portugal e no Estrangeiro, dissertando sobre a natureza, a qualidade de vida e o homem.
Convidado pelo Conselho da Europa para escrever um livro sobre os Direitos Humanos, aceitou o desafio, dando à estampa “Reconstruir o nosso mundo”, com ilustrações de Teresa Soller (ITAU, 1976), tido por um dos primeiros livros a alertar-nos para a destruição da biodiversidade pelo chamado progresso.
A. Galopim de Carvalho

Fonte: http://dererummundi.blogspot.com.br/2017/08/poema-ecologico.html