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quinta-feira, 8 de março de 2012
Praga
O celular, ou telemóvel, como o chamam em Portugal, virou uma praga urbana.
Nos mais diferentes espaços públicos, ruas, onibus, aeroportos, cinemas, igrejas, espetáculos, as pessoas sacam o aparelho e usam-no em diálogos, as vezes bastante longos.
Não creio que hajam tantas situações de urgência a requererem comunicação imediata onde quer que a pessoa esteja. Acho que utiliza-lo já virou um hábito, quase uma compulsão.
Viajando em autocarros apinhados, em Lisboa, no interior do veículo se escutava uma sinfonia de toques e conversas banais que poderiam ser adiadas sem nenhum prejuizo.
E olhe que a crise econômica em Portugal é grave e as chamadas não são nada baratas...
O pior é ver pessoas caminhando na rua falando sozinhas. Não, não se trata de nenhum maluco. Simplesmente estão ao celular, ainda que o aparelho não esteja visível.
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domingo, 27 de novembro de 2011
Steve Jobs
Oh uau, Oh uau, Oh uau. Foram estas as últimas palavras de Steve Jobs, o multimilionário pioneiro da era digital morto aos 56 anos de idade de um câncer do pâncreas.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Retorno
Estou de volta. Fiquei uns dias sem internet. Desconectado. E sobrevivi bem. Até chegar a hora de retomar os contatos com o mundo digital.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Doidice
Suiços acabam de um lançar um novo partido, o Partido Contra o Power Point.
A nova agremiação tem como objetivo acabar com a ferramenta da Microsoft.
Saiba mais no jornal O Estado de S. Paulo, edição de 07/07/11
A nova agremiação tem como objetivo acabar com a ferramenta da Microsoft.
Saiba mais no jornal O Estado de S. Paulo, edição de 07/07/11
quarta-feira, 30 de março de 2011
Tecnologias
Aos que temem pelo futuro do livro tal como o conhecemos hoje:
Quando surgiu o automóvel muitos afirmaram que o cavalo era a forma mais perfeita de locomoção. Esta atitude resulta do medo da substituição de uma coisa por outra. Nada disso aconteceu. Apenas desenvolvemos o nosso vocabulário. Não conheço ninguém que tente abolir o automóvel porque temos o avião.
Man Ray
Quando surgiu o automóvel muitos afirmaram que o cavalo era a forma mais perfeita de locomoção. Esta atitude resulta do medo da substituição de uma coisa por outra. Nada disso aconteceu. Apenas desenvolvemos o nosso vocabulário. Não conheço ninguém que tente abolir o automóvel porque temos o avião.
Man Ray
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segunda-feira, 24 de maio de 2010
Tecnologia
Até que enfim o governo do estado vai liberar recursos no valor de R$ 4,5 milhões do Fundo de Inovação Tecnológica (FIT) beneficiando 21 empresas. Já não era sem tempo.
O FIT foi criado durante meu governo.
Saiba mais na coluna do jornalista Egídio Serpa, no Diário do Nordeste, edição de 10/05/10
O FIT foi criado durante meu governo.
Saiba mais na coluna do jornalista Egídio Serpa, no Diário do Nordeste, edição de 10/05/10
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Boas lembranças
domingo, 16 de maio de 2010
MEMÓRIAS DE UM CORONEL DE POLÍCIA 251
Hoje é o natalício do Dr. Lúcio Gonçalo de Alcântara. O Dr. Lúcio foi Senador da República, Governador do Ceará, Vice-Governador, Deputado Federal, Prefeito de Fortaleza, Secretário de Saúde do Estado do Ceará etc.
Médico e Político, é um dos mais destacados homens públicos do Brasil.
O Dr. Lúcio chega aos seus 67 anos de existência carregando sua marca indelével: HUMILDADE.
Conhecia o Dr. Lúcio somente pela televisão, haja vista que seu papel de político assim o notabilizou, entretanto, desde criança, lá no meu querido Quixadá - CE, já ouvia minha família e o povo daquelas paragens falar da sua família, composta também por honradas pessoas públicas, tal o Dr. Waldemar Alcântara, que inclusive derá o nome ao principal colégio da minha cidade natal - Ginásio Waldemar Alcântara.
Já na Polícia Militar, entre o final de 1994 e meados de 1999, trabalhando na 1ª Companhia de Guarda e também na segurança do Governador do Estado, no Palácio do Cambeba e Casa Militar, cruzei algumas vezes com o Dr. Lúcio pelos corredores do Palácio e em eventos políticos pelo Ceará afora, mas nunca tive a oportunidade de estreitar nenhum contato ou laço de amizade com o mesmo.
Em 2002, convidado por ex-colegas da Escola de Formação de Governantes, prestei colaboração ao Movimento Ceará Cidadania, tendo o Dr. Lúcio sido eleito Governador do Ceará naquele ano. Já era Diretor do CIOPS/SSPDS desde 2001, quando já em 2004 e 2005, recebemos em duas ocasiões a visita do Dr. Lúcio no CIOPS.
Sensível, atendeu nossos apelos e do então Secretário de Segurança, Dr. Wilson Nascimento, e junto ao Governo Federal e com recursos próprio do Estado do Ceará, aportou muitos recursos para o nosso CIOPS, porquanto o órgão foi totalmente potencializado.
Passamos a contar com mais tecnologia agregada que deixou o nosso CIOPS como um dos melhores do mundo, lugar que já ocupava com destaque no Brasil. O CIOPS recebeu piso elevado, todos os computadores foram trocados, recebemos viaturas novas, microônibus, rádios portáteis, móveis e fixos, geradores de energia, novos softwares e licenças, homologação de sites, up-grade de sistemas e tecnologia de atendimento, novo Mapa Digitalizado da Região Metropolita de Fortaleza e acesso ao Mapa Mundi GPS/Ominisat/Autotrac, novo software de gravação, degravação, URA, No-Break, móveis, utensílios, telefones, headsets, Display Screen (um dos poucos órgãos de atendimento de emergência do mundo a dispor de tal tecnologia - foto abaixo), além de ajudar na motivação de nossos profissionais. Pela primeira vez na história do Estado do Ceará, profissionais da segurança pública, como o então Cabo Narcélio e o então Major Russo, foram agraciados com a Medalha Estadual do Mérito Profissional Público por, respectivamente, invento (VHF + UHF) e publicação doutrinária (Manual de Telemática).
O Dr. Lúcio enquanto Governador do Ceará, também assinou convênio com a Prefeita de Fortaleza, Profª Luizianne Lins, que possibilitou a continuação do processo de integração do CIOPS com outros órgãos, tipo assim a AMC, Guarda Muncipal, etc.
E o Dr. Lúcio fez muito mais...
Foto do Display Scream do CIOPS
em operação com o Mapa digitalizado da
Região Metropolitana de Fortaleza
em operação com o Mapa digitalizado da
Região Metropolitana de Fortaleza
Depois, já em 2006, quando era Secretário Executivo da Polícia Militar do Ceará, fui chamado até a residência Oficial do Governo do Estado, juntamente como o CEL PM Herdez Antônio de Miranda, e fui convidado para o Comando Geral Adjunto da Polícia Militar do Ceará.Aceitei o convite, mas divergindo do respeitável Comandante ante umas promoções para oficiais do QOA - Quadro de Oficiais de Administração, em 24 de maio de 2006, acabei solicitando minha exoneração do cargo em 31 de maio daquele mesmo ano.
No segundo semestre de 2006, fui chamado novamente por ex-colegas da Escola de Formação de Governo para colaborar com a Proposta do Programa de Segurança do Governo para 2007-2010 ante a campanha pela reeleição do Dr. Lúcio, mas acabei não aceitando, quanto perdi qualquer contato com a estrutura de governo. O Dr. Lúcio na oportunidade não foi reeleito.
Como não tinha nenhum contato próximo com o Dr. Lúcio, somente o reencontrei em 2008, num evento do Programa "História Empresarial Vivida", sob os auspícios do saudoso Prof. Cleber, ante um jantar com o Presidente de uma Multinacional em visita a Fortaleza.
Depois reencontrei o Dr. Lúcio nos demais eventos de "História Vivida" e assim tive, para prazer meu, maior proximidade e contato com o dileto e exemplar homem público.
Rogo a Deus, Dr. Lúcio Alcântara, extensivo a família, que continue com sua bela jornada de paz, prosperidade, saúde, sucesso e muita disposição para continuar servindo ao povo do Ceará e do Brasil.
PARABÉNS E FELIZ ANIVERSÁRIO !
JUNTOS, AVANÇAREMOS MAIS !
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Os Estados e a universidade pública - Paulo Gabriel Soledade Nacif
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A rede de universidades federais, constituída a partir da década de 30, apresenta assimetrias significativas entre os Estados
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A REDE de universidades federais, constituída a partir da década de 1930, apresenta assimetrias significativas entre os Estados e é surpreendente que as elites e, particularmente, os representantes políticos tenham assistido à instalação desse sistema sem discussões que evidenciassem essa questão, cujas características não podem ser confundidas com as desigualdades regionais presentes no debate nacional desde o Brasil império.
Seguramente, os Estados que conquistaram vantagens na implantação de universidades federais nos seus territórios foram dotados de mecanismos de desenvolvimento que vão se revelar superiores a alguns outros que historicamente pautaram agendas nacionais de bancadas de deputados e senadores de todas as regiões. O Rio Grande do Sul recebe cerca de 8% do total do orçamento destinado às universidades federais, valor superior à soma dos percentuais destinados a Santa Catarina e Paraná.
No Sudeste, Minas Gerais possui uma invejável cobertura de campi universitários federais e, em São Paulo, o sistema público é mantido prioritariamente por recursos estaduais.
No Nordeste, Pernambuco e Paraíba estão entre os Estados da Federação mais beneficiados quando se analisa os investimentos da União na educação superior, notadamente em relação à população e ao PIB. Por outro lado, a Bahia possui um número de matrículas/mil habitantes quase cinco vezes menor do que o da Paraíba e duas vezes menor do que o de Pernambuco.
Por qualquer critério de análise, essas assimetrias se repetem em todas as regiões do país.
O poder que cada Estado possuiu em diferentes períodos e os interesses de suas elites certamente contribuíram para moldar o sistema universitário federal e estabelecer, adicionalmente, outras formas de financiamento da universidade pública.
A história ressalta o sentimento autonomista de personagens que lideraram a política baiana até o golpe militar de 1964. A criação da USP é relatada como uma emblemática ação da elite paulista em busca de fortalecimento no plano cultural. Nos Estados do Sul existem as universidades municipais, e a estrutura social permitiu a criação de universidades comunitárias que desafiam o conceito tradicional de educação pública superior.
Em alguns Estados, o reduzido aporte de recursos federais levou à criação de robustos sistemas estaduais. Mesmo considerando-se relevante a ação estadual no ensino superior, não é razoável supor que a sua presença resolve o problema das assimetrias da rede de universidades federais, na medida em que, no modelo atual, se penalizam exatamente os orçamentos dos Estados que mais investem no setor.
No caso de São Paulo, devido à potente economia do Estado, a reduzida presença da União poderia ser entendida como positiva cooperação paulista à Federação. No entanto, como exposto, mesmo excluindo o Estado bandeirante das análises, as desigualdades permanecem significativas.
As assimetrias na distribuição de recursos federais para a educação superior terão consequências ainda mais profundas no futuro, na medida em que os processos de desenvolvimento do Brasil e seus Estados se associam cada vez mais a fatores relacionados ao ensino superior, ressaltando-se: a ampliação da capacidade de criar e trabalhar com o conhecimento, com ênfase em tecnologia e inovação que contribuam com a agregação de valor aos produtos gerados nos processos socioeconômicos; o comprometimento da sociedade com a ampla formação de cidadãos qualificados e capazes de aprender continuamente ao longo da vida; formar e consolidar redes de confiança compartilhada entre as instituições e as pessoas nas diferentes regiões.
Não se pode esperar que um sistema social moldado há quase um século seja remodelado por decisões de médio prazo e, dada a complexidade dos conceitos envolvidos na questão, não será possível o estabelecimento de divisões orçamentárias rígidas.
No entanto, a sociedade brasileira pode incluir esse tema nos debates do Plano Nacional de Educação para o período 2011-2020, visando à busca de mecanismos de redução das profundas assimetrias aqui destacadas.
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PAULO GABRIEL SOLEDADE NACIF, 45, engenheiro agrônomo e doutor em solos, é reitor da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia).
* Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, edição de 05/04/2010.
A rede de universidades federais, constituída a partir da década de 30, apresenta assimetrias significativas entre os Estados
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A REDE de universidades federais, constituída a partir da década de 1930, apresenta assimetrias significativas entre os Estados e é surpreendente que as elites e, particularmente, os representantes políticos tenham assistido à instalação desse sistema sem discussões que evidenciassem essa questão, cujas características não podem ser confundidas com as desigualdades regionais presentes no debate nacional desde o Brasil império.
Seguramente, os Estados que conquistaram vantagens na implantação de universidades federais nos seus territórios foram dotados de mecanismos de desenvolvimento que vão se revelar superiores a alguns outros que historicamente pautaram agendas nacionais de bancadas de deputados e senadores de todas as regiões. O Rio Grande do Sul recebe cerca de 8% do total do orçamento destinado às universidades federais, valor superior à soma dos percentuais destinados a Santa Catarina e Paraná.
No Sudeste, Minas Gerais possui uma invejável cobertura de campi universitários federais e, em São Paulo, o sistema público é mantido prioritariamente por recursos estaduais.
No Nordeste, Pernambuco e Paraíba estão entre os Estados da Federação mais beneficiados quando se analisa os investimentos da União na educação superior, notadamente em relação à população e ao PIB. Por outro lado, a Bahia possui um número de matrículas/mil habitantes quase cinco vezes menor do que o da Paraíba e duas vezes menor do que o de Pernambuco.
Por qualquer critério de análise, essas assimetrias se repetem em todas as regiões do país.
O poder que cada Estado possuiu em diferentes períodos e os interesses de suas elites certamente contribuíram para moldar o sistema universitário federal e estabelecer, adicionalmente, outras formas de financiamento da universidade pública.
A história ressalta o sentimento autonomista de personagens que lideraram a política baiana até o golpe militar de 1964. A criação da USP é relatada como uma emblemática ação da elite paulista em busca de fortalecimento no plano cultural. Nos Estados do Sul existem as universidades municipais, e a estrutura social permitiu a criação de universidades comunitárias que desafiam o conceito tradicional de educação pública superior.
Em alguns Estados, o reduzido aporte de recursos federais levou à criação de robustos sistemas estaduais. Mesmo considerando-se relevante a ação estadual no ensino superior, não é razoável supor que a sua presença resolve o problema das assimetrias da rede de universidades federais, na medida em que, no modelo atual, se penalizam exatamente os orçamentos dos Estados que mais investem no setor.
No caso de São Paulo, devido à potente economia do Estado, a reduzida presença da União poderia ser entendida como positiva cooperação paulista à Federação. No entanto, como exposto, mesmo excluindo o Estado bandeirante das análises, as desigualdades permanecem significativas.
As assimetrias na distribuição de recursos federais para a educação superior terão consequências ainda mais profundas no futuro, na medida em que os processos de desenvolvimento do Brasil e seus Estados se associam cada vez mais a fatores relacionados ao ensino superior, ressaltando-se: a ampliação da capacidade de criar e trabalhar com o conhecimento, com ênfase em tecnologia e inovação que contribuam com a agregação de valor aos produtos gerados nos processos socioeconômicos; o comprometimento da sociedade com a ampla formação de cidadãos qualificados e capazes de aprender continuamente ao longo da vida; formar e consolidar redes de confiança compartilhada entre as instituições e as pessoas nas diferentes regiões.
Não se pode esperar que um sistema social moldado há quase um século seja remodelado por decisões de médio prazo e, dada a complexidade dos conceitos envolvidos na questão, não será possível o estabelecimento de divisões orçamentárias rígidas.
No entanto, a sociedade brasileira pode incluir esse tema nos debates do Plano Nacional de Educação para o período 2011-2020, visando à busca de mecanismos de redução das profundas assimetrias aqui destacadas.
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PAULO GABRIEL SOLEDADE NACIF, 45, engenheiro agrônomo e doutor em solos, é reitor da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia).
* Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, edição de 05/04/2010.
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quarta-feira, 3 de março de 2010
Mindlin
Perdi um grande amigo. E os livros também. Hoje eles choram letras de saudade.
Os livros esquecidos, os livros mortos, aos quais devolveu a vida para alojá-los nas prateleiras de confortáveis bibliotecas.
Os recém natos, que acolheu em preciosas coleções, preservando-os para o futuro.
José Mindlin foi um leitor precoce, um jornalista em trânsito, um advogado competente, um industrial avançado, um político sem mandato, que formou no pelotão de frente de um pequeno grupo de grandes empresários que lutaram pela redemocratização do país.
Um administrador da cultura e da tecnologia que se demitiu quando a orientação do Governo colidiu com os princípios da liberdade de expressão que sempre defendeu.
Com atuação marcante em campos tão diversos, será sempre lembrado por seus muitos feitos. Mas, irá prevalecer a imagem afável e bem humorada do bibliófilo ímpar, convertido à loucura mansa (gentle madness) de que costumava falar.
Foi ainda autor tardio, que revelou numa prosa agradável episódios deliciosos de sua prolongada e íntima convivência com os livros.
Suspeito que tenha partido levando na algibeira sua última aquisição, a ser ressuscitada pelas mãos habilidosas de Guita, sua companheira no longo e frutuoso percurso aqui na terra.
Os livros esquecidos, os livros mortos, aos quais devolveu a vida para alojá-los nas prateleiras de confortáveis bibliotecas.
Os recém natos, que acolheu em preciosas coleções, preservando-os para o futuro.
José Mindlin foi um leitor precoce, um jornalista em trânsito, um advogado competente, um industrial avançado, um político sem mandato, que formou no pelotão de frente de um pequeno grupo de grandes empresários que lutaram pela redemocratização do país.
Um administrador da cultura e da tecnologia que se demitiu quando a orientação do Governo colidiu com os princípios da liberdade de expressão que sempre defendeu.
Com atuação marcante em campos tão diversos, será sempre lembrado por seus muitos feitos. Mas, irá prevalecer a imagem afável e bem humorada do bibliófilo ímpar, convertido à loucura mansa (gentle madness) de que costumava falar.
Foi ainda autor tardio, que revelou numa prosa agradável episódios deliciosos de sua prolongada e íntima convivência com os livros.
Suspeito que tenha partido levando na algibeira sua última aquisição, a ser ressuscitada pelas mãos habilidosas de Guita, sua companheira no longo e frutuoso percurso aqui na terra.
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Kindle
O Kindle, leitor de livros eletrônicos, os e-books, postos à venda pela Amazon, custam no Brasil cerca de R$ 1 mil a unidade. Para os americanos o valor médio é de R$ 430,00.
Metade do valor pago pelo consumidor brasileiro se refere a imposto.
Alegando que o Kindle, um leitor eletrônico, deve desfrutar da imunidade tributária concedida aos livros convencionais um advogado impetrou mandato de segurança para comprar o aparelho sem pagar impostos.
Liminar foi concedida por uma juíza federal acatando a tese do advogado. Especialistas em direito tributário se dividem quanto ao entendimento sobre o assunto.
Novas tecnologias e processos de comunicação exigem atualização das leis em vários campos inclusive na área tributária.
Saiba mais no jornal Diário Econômico, edição de 17/12/09
Metade do valor pago pelo consumidor brasileiro se refere a imposto.
Alegando que o Kindle, um leitor eletrônico, deve desfrutar da imunidade tributária concedida aos livros convencionais um advogado impetrou mandato de segurança para comprar o aparelho sem pagar impostos.
Liminar foi concedida por uma juíza federal acatando a tese do advogado. Especialistas em direito tributário se dividem quanto ao entendimento sobre o assunto.
Novas tecnologias e processos de comunicação exigem atualização das leis em vários campos inclusive na área tributária.
Saiba mais no jornal Diário Econômico, edição de 17/12/09
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Profissionalização
O governo, através do Ministério da Educação, estruturou um amplo programa de educação profissional oferecido aos estados embalado em gordas verbas federais.
O governo do Ceará tem se beneficiado do programa por meio de sua Secretaria de Educação, a quem cabe aplicar volumosos recursos transferidos para instalar escolas profissionais.
O terceiro irmão, há algum tempo em entrevista concedida a um canal de televisão, jactou-se do número dessas escolas já criadas ou a serem-no proximamente.
O que deixou de dizer é que essas novas unidades são escolas já existentes que passaram a oferecer novo conteúdo curricular.
Particularmente os Liceus, projeto iniciado por meu antecessor e abraçado por mim com grande entusiasmo, estão sendo rebatizados, aproveitados seus bem equipados laboratórios e excelentes instalações, como se estivéssemos diante de coisa nova, além das gigantescas inscrições nos muros da nova nomenclatura escolar.
No Ceará, a educação profissional de há muito está a cargo da Secretaria de Ciência e Tecnologia através da rede de Centros Vocacionais e Tecnológicos (CVT) e Centros Tecnológicos (CENTEC), que fortaleci e ampliei substancialmente durante meu governo, os quais desfrutavam de reconhecimento público graças ao desempenho alcançado.
Desconheço se o remanejamento da competência de uma secretaria para outra foi feita mediante alteração da lei ou se o fato foi simplesmente ignorado.
Mais uma vez o atual governo desmantela realizações anteriores, de provada eficiência, Centec e Liceus, para apagar imagens de antecessores, substituindo-as por iniciativas sôfregas cujo sucesso está por comprovar.
A proposta em execução lembra muito a reforma Passarinho, lei 5692, abandonada por ter frustrado expectativas que gerou à época.
Os cursos até agora oferecidos na rede estadual, guia de turismo, técnico em enfermagem, técnico em comércio e outros, com características semelhantes, são de baixa complexidade e não guardam relação com a demanda e a necessidade local e regional.
O governo do Ceará tem se beneficiado do programa por meio de sua Secretaria de Educação, a quem cabe aplicar volumosos recursos transferidos para instalar escolas profissionais.
O terceiro irmão, há algum tempo em entrevista concedida a um canal de televisão, jactou-se do número dessas escolas já criadas ou a serem-no proximamente.
O que deixou de dizer é que essas novas unidades são escolas já existentes que passaram a oferecer novo conteúdo curricular.
Particularmente os Liceus, projeto iniciado por meu antecessor e abraçado por mim com grande entusiasmo, estão sendo rebatizados, aproveitados seus bem equipados laboratórios e excelentes instalações, como se estivéssemos diante de coisa nova, além das gigantescas inscrições nos muros da nova nomenclatura escolar.
No Ceará, a educação profissional de há muito está a cargo da Secretaria de Ciência e Tecnologia através da rede de Centros Vocacionais e Tecnológicos (CVT) e Centros Tecnológicos (CENTEC), que fortaleci e ampliei substancialmente durante meu governo, os quais desfrutavam de reconhecimento público graças ao desempenho alcançado.
Desconheço se o remanejamento da competência de uma secretaria para outra foi feita mediante alteração da lei ou se o fato foi simplesmente ignorado.
Mais uma vez o atual governo desmantela realizações anteriores, de provada eficiência, Centec e Liceus, para apagar imagens de antecessores, substituindo-as por iniciativas sôfregas cujo sucesso está por comprovar.
A proposta em execução lembra muito a reforma Passarinho, lei 5692, abandonada por ter frustrado expectativas que gerou à época.
Os cursos até agora oferecidos na rede estadual, guia de turismo, técnico em enfermagem, técnico em comércio e outros, com características semelhantes, são de baixa complexidade e não guardam relação com a demanda e a necessidade local e regional.
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Computadores
Cresce a impressão de que a distribuição de computadores entre alunos contribuirá para melhorar a qualidade da educação, graças ao acesso que terão à internet, um grande depósito de informações.
Ao mesmo tempo, seria uma iniciação à informática, ferramenta sem a qual já vai se tornando impossível a vida moderna.
Empresários se empenham em produzir equipamentos de custo mais baixo, para permitir aos governos adquirí-los para doação às escolas públicas.
Algumas vozes já se levantam para questionar a real contribuição que os laptops possam dar à melhoria da qualidade do ensino.
Nicholas Carr, escritor renomado e especialista em tecnologia da informação, afirma, categórico:
Não há nenhuma prova de que o uso de computadores na escola primária melhora a qualidade da educação, assim como não há nenhum fundamento na ideia tantas vezes divulgada de que o projeto Um Laptop por Criança possa fazer uma revolução no ensino. É puro modismo.
Para ele, muitos pais e professores têm essa ilusão de que o computador poderá tornar seus filhos mais inteligentes e acelerar sua aprendizagem. Os jovens devem, é claro, aprender a usar o computador, mas como ferramenta de mil utilidades.
Ao mesmo tempo, seria uma iniciação à informática, ferramenta sem a qual já vai se tornando impossível a vida moderna.
Empresários se empenham em produzir equipamentos de custo mais baixo, para permitir aos governos adquirí-los para doação às escolas públicas.
Algumas vozes já se levantam para questionar a real contribuição que os laptops possam dar à melhoria da qualidade do ensino.
Nicholas Carr, escritor renomado e especialista em tecnologia da informação, afirma, categórico:
Não há nenhuma prova de que o uso de computadores na escola primária melhora a qualidade da educação, assim como não há nenhum fundamento na ideia tantas vezes divulgada de que o projeto Um Laptop por Criança possa fazer uma revolução no ensino. É puro modismo.
Para ele, muitos pais e professores têm essa ilusão de que o computador poderá tornar seus filhos mais inteligentes e acelerar sua aprendizagem. Os jovens devem, é claro, aprender a usar o computador, mas como ferramenta de mil utilidades.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Olimpíada
Do jornal O Estado de S. Paulo, edição de 29/09/09:
Olimpíada de matemática melhora nota de escola em prova nacional
Pela primeira vez, impacto da competição é medido em avaliações, quanto mais o colégio participa melhor o desempenho
Olímpiadas escolares existem no mundo desde o fim do século XIX.
No nosso Governo, numa ação conjunta das secretarias de Ciência e Tecnologia e Educação, apoiada pela Universidade Federal do Ceará, com a coordenação do professor Lucas, realizamos a Olimpíada de Matemática nas escolas públicas, em caráter pioneiro, com grande sucesso.
O êxito de nossa iniciativa foi tal que o Governo Federal incorporou o projeto, instituíndo a Olimpíada Brasileira de Escola Pública, tendo a primeira acontecido no ano de 2005. Quase 20 milhões de alunos, entre 11 e 17 anos de idade, participaram do certame este ano.
A Olimpíada Brasileira de Matemática existe desde 1979, com destaque para os alunos das escolas particulares. Alunos das escolas públicas, praticamente ficavam à margem dessas competições.
Avaliação feita por pesquisadores da Fundação Itaú Social concluíram que as escolas que inscreveram alunos na competição, entre 2005 e 2008, tiveram, em média, 2,14 pontos a mais na Prova Brasil, exame do MEC que avalia português e matemática.
Nosso pioneirismo não parou aí. Realizamos, no Ceará, a primeira Olimpíada de Português, empreendimento inédito, inclusive em âmbito internacional.
Olimpíada de matemática melhora nota de escola em prova nacional
Pela primeira vez, impacto da competição é medido em avaliações, quanto mais o colégio participa melhor o desempenho
Olímpiadas escolares existem no mundo desde o fim do século XIX.
No nosso Governo, numa ação conjunta das secretarias de Ciência e Tecnologia e Educação, apoiada pela Universidade Federal do Ceará, com a coordenação do professor Lucas, realizamos a Olimpíada de Matemática nas escolas públicas, em caráter pioneiro, com grande sucesso.
O êxito de nossa iniciativa foi tal que o Governo Federal incorporou o projeto, instituíndo a Olimpíada Brasileira de Escola Pública, tendo a primeira acontecido no ano de 2005. Quase 20 milhões de alunos, entre 11 e 17 anos de idade, participaram do certame este ano.
A Olimpíada Brasileira de Matemática existe desde 1979, com destaque para os alunos das escolas particulares. Alunos das escolas públicas, praticamente ficavam à margem dessas competições.
Avaliação feita por pesquisadores da Fundação Itaú Social concluíram que as escolas que inscreveram alunos na competição, entre 2005 e 2008, tiveram, em média, 2,14 pontos a mais na Prova Brasil, exame do MEC que avalia português e matemática.
Nosso pioneirismo não parou aí. Realizamos, no Ceará, a primeira Olimpíada de Português, empreendimento inédito, inclusive em âmbito internacional.
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quinta-feira, 23 de julho de 2009
Twitter II
"Mulher encontra homem chamado Darcy que parece horrível. Ele mostra ser realmente legal. Eles ficam juntos".
Esta é uma versão bem humorada de "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen que está no "Little Book of Twitter" compilação recém-lançada de mensagens "tuitadas" na rede.
Para alguns "tuitar" é mais que fazer piada. Esses levam as possibilidades instrumentais literárias do twitter a sério. Dois estudantes americanos anunciam para breve a publicação, pela Penguin, do livro "Twitterature", versões de romances no estilo twitter.
Pretendem que nehum deles tenha mais que 20 trechos com até 140 caracteres.
Ian Bogost, professor do Instituto Georgia de Tecnologia (EUA) junto com um colega resolveu refazer no twitter, para comemorar o Bloomsday (16/060), o capítulo 10 da obra de Joyce (Ulysses) com a pretensão de abordar além da extensão dos textos a temporalidade.
Aqui, Marcelino Freire, organizador do livro "Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século", ligado confesso em micro-formatos, entrou no twitter este mês com o propósito de atingir a marca de mil contos nanicos.
Até agora "tuitou" 12, tipo: " O que é iiiisssssoooooo, Padre ?/- O pecado meu filho." Diz já ter 200 prontos.
Saiba mais nos jornais Folha de S. Paulo, edição de 30/06/09 e O Estado de S. Paulo, edição de 19/07/09
Esta é uma versão bem humorada de "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen que está no "Little Book of Twitter" compilação recém-lançada de mensagens "tuitadas" na rede.
Para alguns "tuitar" é mais que fazer piada. Esses levam as possibilidades instrumentais literárias do twitter a sério. Dois estudantes americanos anunciam para breve a publicação, pela Penguin, do livro "Twitterature", versões de romances no estilo twitter.
Pretendem que nehum deles tenha mais que 20 trechos com até 140 caracteres.
Ian Bogost, professor do Instituto Georgia de Tecnologia (EUA) junto com um colega resolveu refazer no twitter, para comemorar o Bloomsday (16/060), o capítulo 10 da obra de Joyce (Ulysses) com a pretensão de abordar além da extensão dos textos a temporalidade.
Aqui, Marcelino Freire, organizador do livro "Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século", ligado confesso em micro-formatos, entrou no twitter este mês com o propósito de atingir a marca de mil contos nanicos.
Até agora "tuitou" 12, tipo: " O que é iiiisssssoooooo, Padre ?/- O pecado meu filho." Diz já ter 200 prontos.
Saiba mais nos jornais Folha de S. Paulo, edição de 30/06/09 e O Estado de S. Paulo, edição de 19/07/09
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quinta-feira, 16 de julho de 2009
Transparência II
Com a nova Lei, os cidadãos deixam de depender do Legislativo para obter informações sobre as despesas do Governo, uma vez que todos os dados estarão ao seu alcance.
Os interessados não terão mais que esperar pela boa vontade dos parlamentares, para conhecerem o modo como o dinheiro do povo está sendo gasto. A norma prescinde da intermediação deles para o acompanhamento das receitas e dispêndios do Governo.
Considero-a um rude golpe no poder dos parlamentos, até aqui detentores exclusivos dessa prerrogativa. A medida vem no bojo do anseio da sociedade por mais informação sobre o desempenho do Governo.
No caso do Ceará, por exemplo, nossa Assembleia Legislativa empenha-se mais em ocultar que esclarecer os atos do Governo estadual. Basta lembrar a rejeição sistemática aos pedidos de informação, de autoria de seus integrantes, que pretendam obter dados sobre atos praticados pelo Executivo.
As assembleias legislativas, a do Ceará inclusive, estão empenhadas em mudar a Constituição Federal para ampliarem sua competência para legislar. Para justificar a pretensão, seria bom que cuidassem de exercer as que já detêm...
Quando os parlamentos se distanciam da opinião pública e tratam com descaso o que é de interesse geral, caem no descrédito e alimentam o pensamento dos que consideram-no dispensável.
Do modo como se comporta o Poder Legislativo, não há porque estranhar seu desprestígio junto ao povo.
O poder da sociedade mobilizada, apoiada na tecnologia, estabelece mecanismos de participação popular que ultrapassam a representação política tradicional.
A norma a que nos referimos é um exemplo disso.
Os interessados não terão mais que esperar pela boa vontade dos parlamentares, para conhecerem o modo como o dinheiro do povo está sendo gasto. A norma prescinde da intermediação deles para o acompanhamento das receitas e dispêndios do Governo.
Considero-a um rude golpe no poder dos parlamentos, até aqui detentores exclusivos dessa prerrogativa. A medida vem no bojo do anseio da sociedade por mais informação sobre o desempenho do Governo.
No caso do Ceará, por exemplo, nossa Assembleia Legislativa empenha-se mais em ocultar que esclarecer os atos do Governo estadual. Basta lembrar a rejeição sistemática aos pedidos de informação, de autoria de seus integrantes, que pretendam obter dados sobre atos praticados pelo Executivo.
As assembleias legislativas, a do Ceará inclusive, estão empenhadas em mudar a Constituição Federal para ampliarem sua competência para legislar. Para justificar a pretensão, seria bom que cuidassem de exercer as que já detêm...
Quando os parlamentos se distanciam da opinião pública e tratam com descaso o que é de interesse geral, caem no descrédito e alimentam o pensamento dos que consideram-no dispensável.
Do modo como se comporta o Poder Legislativo, não há porque estranhar seu desprestígio junto ao povo.
O poder da sociedade mobilizada, apoiada na tecnologia, estabelece mecanismos de participação popular que ultrapassam a representação política tradicional.
A norma a que nos referimos é um exemplo disso.
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domingo, 7 de junho de 2009
Ciência
Há um fato auspicioso em relação à ciência brasileira. O número de artigos publicados em revistas científicas indexadas, portanto acreditadas, cresceu 56% em 2008, se comparado com 2007.
O Brasil passou do 15º para o 13º lugar, no ranking mundial, de artigos publicados. Superou a Rússia e a Holanda, países com maior tradição científica.
A notícia, como não poderia deixar de ser, teve repercussão positiva em nossa comunidade científica, integrada por cerca de 200.000 doutores e mestres.
É certo que a base de revistas brasileiras indexadas aumentou de 63, em 2007, para 103, em 2008. A quantidade de periódicos indexados também cresceu em outros países, sobretudo nos de menor tradição científica.
Em todo mundo, a base passou de 9000 para mais de 10.000. E o número de artigos indexados mundialmente saltou de 960.000, em 2007, para 1,4 milhão em 2008.
O aumento de nossa produção científica em relação ao resto do mundo, foi de 0,44% em 1981 para 2,12% hoje. É verdade que o impacto medido pelas publicações não ocorre nas mesmas proporções nas citações, o que se explica pela nossa pequena tradição científica.
Os dados revelados demonstram o avanço da ciência e da tecnologia, no país que se deve a estruturação de um sistema nacional apoiado em instituições estáveis, com financiamento assegurado e perspectiva de crescimento constante.
Saiba mais no jornal Folha de S. Paulo, edição de 25/05/09.
O Brasil passou do 15º para o 13º lugar, no ranking mundial, de artigos publicados. Superou a Rússia e a Holanda, países com maior tradição científica.
A notícia, como não poderia deixar de ser, teve repercussão positiva em nossa comunidade científica, integrada por cerca de 200.000 doutores e mestres.
É certo que a base de revistas brasileiras indexadas aumentou de 63, em 2007, para 103, em 2008. A quantidade de periódicos indexados também cresceu em outros países, sobretudo nos de menor tradição científica.
Em todo mundo, a base passou de 9000 para mais de 10.000. E o número de artigos indexados mundialmente saltou de 960.000, em 2007, para 1,4 milhão em 2008.
O aumento de nossa produção científica em relação ao resto do mundo, foi de 0,44% em 1981 para 2,12% hoje. É verdade que o impacto medido pelas publicações não ocorre nas mesmas proporções nas citações, o que se explica pela nossa pequena tradição científica.
Os dados revelados demonstram o avanço da ciência e da tecnologia, no país que se deve a estruturação de um sistema nacional apoiado em instituições estáveis, com financiamento assegurado e perspectiva de crescimento constante.
Saiba mais no jornal Folha de S. Paulo, edição de 25/05/09.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Medicina
Jean Bernard, grande clínico e professor francês, ao discorrer sobre o futuro da medicina e os riscos da profissão, vaticinou que a ciência médica moderna se fundamentaria na prevenção e na predição.
As vacinas, os hábitos saudáveis, a alimentação equilibrada, os exames médicos periódicos são instrumentos em vigor capazes de assegurar vida longa e com qualidade.
A predição começa a ganhar espaço, na medida em que se amplia o conhecimento genético e se conhece a predisposição dos indivíduos para desenvolver, mais tarde, determinadas doenças.
O conhecimento científico e o emprego da tecnologia em assuntos vitais, como o sacrifício de embriões e a manipulação genética, devem ser submetidos a uma discussão ética, antes da aceitação universal.
Nasceu, na Inglaterra, o primeiro bebê sem o gene do cancro de mama. A criança teria uma enorme probabilidade de desenvolver a doença. O Reino Unido foi o primeiro país a aprovar o diagnóstico pré-implantatório para doenças tardias.
Portugal, por exemplo, reune condições técnicas para efetuar o procedimento, mas depende de uma aprovação ética, que ainda não se deu.
Saiba mais no Diário de Notícias, edição de 30/01/09.
As vacinas, os hábitos saudáveis, a alimentação equilibrada, os exames médicos periódicos são instrumentos em vigor capazes de assegurar vida longa e com qualidade.
A predição começa a ganhar espaço, na medida em que se amplia o conhecimento genético e se conhece a predisposição dos indivíduos para desenvolver, mais tarde, determinadas doenças.
O conhecimento científico e o emprego da tecnologia em assuntos vitais, como o sacrifício de embriões e a manipulação genética, devem ser submetidos a uma discussão ética, antes da aceitação universal.
Nasceu, na Inglaterra, o primeiro bebê sem o gene do cancro de mama. A criança teria uma enorme probabilidade de desenvolver a doença. O Reino Unido foi o primeiro país a aprovar o diagnóstico pré-implantatório para doenças tardias.
Portugal, por exemplo, reune condições técnicas para efetuar o procedimento, mas depende de uma aprovação ética, que ainda não se deu.
Saiba mais no Diário de Notícias, edição de 30/01/09.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Zen
Nasce um movimento, ainda pequeno, o slow blog, nome inspirado na prática do slow food, que promove a comida local, orgânica, sazonal, em oposição ao fast food que destruiria hábitos alimentares saudáveis.
O slow blog prega uma espécie de blog zen, escrito sem pressa, despreocupado com o imediatismo, o consumo ocasional, sem ser movido por notícias.
Para Bárbara Ganley (The New BGBlogging), slow blogging é "ficar em silêncio por alguns minutos antes de escrever e jamais escrever a primeira coisa que lhe vem à cabeça".
Um Manifesto Slow Blog escrito em 2006, por Todd Sieling, consultor de tecnologia de Vancouver, Colúmbia Britânica, apresentou os princípios do movimento. O slow blog é a rejeição do imediatismo, escreveu. Sieling não anda mais escrevendo devido à falta de leitores...
Dicas do movimento slow blogging:
1- Slow blogging é a rejeição do imediatismo.
2- Slow blogging prova que nem tudo que merece ser lido é escrito às pressas.
3- Slow blogging é meditação.
4- Blogs de notícias são como restaurantes de fast food.
5- Fique em silêncio por alguns minutos antes de escrever.
6- Não escreva a primeira coisa que lhe vem à cabeça.
7- Inclua posts uma ou duas vezes por semana, mas, se precisar ficar um mês sem escrever, faça-o.
E aí, depois do que leu, você acha que eu sou slow ou fast blogger? Dá para ser slow na internet, que é essencialmente fast?
Saiba mais na Folha de S. Paulo, edição de 02/12/08.
O slow blog prega uma espécie de blog zen, escrito sem pressa, despreocupado com o imediatismo, o consumo ocasional, sem ser movido por notícias.
Para Bárbara Ganley (The New BGBlogging), slow blogging é "ficar em silêncio por alguns minutos antes de escrever e jamais escrever a primeira coisa que lhe vem à cabeça".
Um Manifesto Slow Blog escrito em 2006, por Todd Sieling, consultor de tecnologia de Vancouver, Colúmbia Britânica, apresentou os princípios do movimento. O slow blog é a rejeição do imediatismo, escreveu. Sieling não anda mais escrevendo devido à falta de leitores...
Dicas do movimento slow blogging:
1- Slow blogging é a rejeição do imediatismo.
2- Slow blogging prova que nem tudo que merece ser lido é escrito às pressas.
3- Slow blogging é meditação.
4- Blogs de notícias são como restaurantes de fast food.
5- Fique em silêncio por alguns minutos antes de escrever.
6- Não escreva a primeira coisa que lhe vem à cabeça.
7- Inclua posts uma ou duas vezes por semana, mas, se precisar ficar um mês sem escrever, faça-o.
E aí, depois do que leu, você acha que eu sou slow ou fast blogger? Dá para ser slow na internet, que é essencialmente fast?
Saiba mais na Folha de S. Paulo, edição de 02/12/08.
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Descontrole
Em solenidade no Palácio Iracema, sede do Governo do Estado do Ceará, para assinatura da ordem de serviço da rede de internet banda larga, o Governador se incomodou com o fato do Presidente da Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará (ETICE) considerar-se o autor da idéia.
Inconformado com a condição de patrocinador do projeto, concebido pelo professor, diante de uma platéia estarrecida, se considerou reduzido, pelo mesmo, a condição de cocô de cavalo...
Saiba mais no jornal O Estado, edição de 18/12/08.
Inconformado com a condição de patrocinador do projeto, concebido pelo professor, diante de uma platéia estarrecida, se considerou reduzido, pelo mesmo, a condição de cocô de cavalo...
Saiba mais no jornal O Estado, edição de 18/12/08.
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quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Medicina e Política
Honra-me inaugurar este magno conclave a cuja presidência honorária me guindou generosa indicação da comissão organizadora, sob a infatigável liderança do professor Dary Oliveira, para dar-vos as boas vindas, augurando proveitosos trabalhos que não impeçam o gozo de nossa hospitalidade e das belezas da terra cearense.
Passo sem delongas ao tema que me foi confiado a título de conferência de abertura para a qual trago como única credencial o conhecimento feito de experiência própria, médico e político que sou, assim como o foi também meu pai. O assunto sobre o qual pedem me debruce, as relações históricas entre a medicina e a política, exigem conhecimento de que me ressinto e tempo de que não disponho. Aí há matéria, não para uma aula, mas para um curso inteiro. Dar-me-ei por bem recompensado se o esforço de síntese que empreendo desperte interesse de quem se alongue em novos estudos nesse fascinante campo da história da medicina.
A história da medicina é também a história da evolução do poder médico. Para melhor interpretar a conexão da medicina com a política, é mister conhecer suas relações com o Estado, as pessoas e as instituições da sociedade, estabelecidas através de seus agentes, os médicos. Assim melhor se alcançará a forma pela qual se dá o envolvimento da medicina com a política e de como médicos nela ingressam.
O professor Jean Bernard, renomado médico francês, divide a história da medicina em cindo períodos. A saber:
1 – Período Mágico – tudo depende dos deuses aos quais está entregue o destino dos homens, e a doença faz parte deste destino. É desnecessário examinar e tratar os doentes. É o tempo dos sacerdotes e dos profetas, dos adivinhos.
2 – Período de Hipócrates – é no século V aC. que se busca a causa das doenças, se descrevem sintomas, se faz comparação de casos e se prevê a evolução da doença. Este longo período, que marca o início da medicina como ocupação, igualmente ineficaz, em nada acrescenta ao poder do médico.
3 – Período do Século XIX - é quando se dá a grande mudança que abriria espaço para a fase científica da medicina com as contribuições fundadoras, entre outros de Pasteur, Claude Bernard e Mendel que permitiram o surgimento das vacinas, da cirurgia e obstetrícia modernas.
4 – Período Terapêutico – não obstante os avanços científicos, a impotência terapêutica do médico se mantinha. A partir de 1936, com o surgimento das sulfas, da penicilina, dos hormônios, numa sucessão de descobertas, a situação muda, e a medicina torna-se mais eficaz.
5 – Período Racional – se a medicina do século XX foi muito diferente da praticada nos séculos passados, a do século XXI será rigorosa, muito eficaz, voltada para a prevenção e a predição, que se empenhará em ser universal, mas ao mesmo tempo reconhecerá o caráter único de cada homem. (Jean Bernard em “Esperanças e Sabedoria da Medicina”).
O desenvolvimento da medicina, registrado nos vários períodos em que se divide sua história, não eliminou de todo a natureza sagrada de seus primórdios nem o cunho sacerdotal dos primeiros praticantes. Ai residem as raízes do poder médico sobre os pacientes e a sociedade, tal o conhecemos hoje.
Durante todo esse tempo a humanidade mudou e com ela a medicina. O poder do médico sobre o paciente se consolidou, e a profissão ganhou projeção, as estruturas sociais que se constituíram, dentro e fora do estado, acabaram por legitimar esse poder, originando uma ideologia que guarda uma dinâmica de “dominação e submissão”, segundo Jaime Landmann, perante o indivíduo e a política.
Assim como o padre diz quem é santo e quem é pecador, e o juiz aponta quem é culpado e quem é inocente, o médico decide quem é doente e quem é são. A delegação que recebe dá-lhe esse direito, o grande poder de julgar.
O namoro da medicina com a política embute o risco da manipulação e da submissão, inaceitáveis ambas. O homem moderno cobra cada vez mais o direito à saúde, e os políticos usam a demanda para promover suas carreiras.
A colaboração construtiva da medicina com a política produziu páginas na história da humanidade que só engrandecem seus autores. A submissão aos ditames da política dominante, por outro lado, gerou fatos vergonhosos que cobriram de opróbrio a medicina e os médicos. Refiro-me ao comportamento indecoroso dos médicos que, a serviço de ideologias extremas, sacrificaram vidas nos campos de concentração nazista em nome da eugenia, ou de experimentos abjetos em seres humanos, confinaram dissidentes políticos em manicômios soviéticos, chancelaram a tortura nas masmorras das ditaduras. A cegueira ideológica não poupou médicos conceituados e professores de renome que, bestializados pela política, esqueceram a lealdade ao paciente, como prescreve o juramento de Hipócrates, para servir, incondicionais, a Estados totalitários. O vínculo com o Estado, que transforma o médico em agente duplo, na expressão de Landmann, não o desobriga do primeiro dever, que é para com o doente.
Se a servidão da medicina ao poder a avilta e rebaixa, a política não está vedada aos médicos, que podem fazer dela instrumento para realização de seus ideais. Esta, aliás, foi a visão de Virchow, o médico alemão que fundou a moderna patologia. Em 1848, foi designado pelo governo para estudar uma epidemia de febre tifóide que ocorria na Silésia, então território da Prússia, hoje parte da Polônia. Revoltado com a miséria da população, a desigualdade de renda e o analfabetismo, para combater a disseminação da doença, recomenda a adoção de várias medidas que resumiu na frase – “Democracia irrestrita, mais educação e melhoria do nível de vida”. Teve intensa atuação política. Foi vereador em Berlim, Deputado Estadual e Federal e um dos fundadores do Partido Progressista Alemão (1860). Defendia a união entre as idéias médicas e políticas para o controle mais rápido e eficaz das moléstias, pois atribuía importância às condições sócioeconômicas da população no surgimento e difusão da doença. Opunha-se assim, de certa maneira, aos que, entusiasmados com a descoberta por Koch do Bacilo da tuberculose, desconsideravam a importância do meio e das condições sociais da população na gênese e propagação da doença. Virchow foi uma ponte entre a ciência e a política. Acreditava que a medicina e a prática da saúde pública, aplicadas politicamente, poderiam transformar a sociedade. Por suas idéias, foi afastado da Universidade de Berlim a ela retornando anos depois.
Foi o cientista autor do texto canônico da medicina, “Patologia Celular” (1858), no qual desenvolve a tese de que a sede da doença está na célula. Sem esquecer a política, usa no texto, de caráter científico, a metáfora da “república das células” e da “democracia celular”. Conciliou competência científica com convicções políticas, conseguindo assim lançar as bases de uma nova patologia e da medicina social. Interpelado por Bismarck, seu opositor, em razão de seu comportamento, atribuiu ao médico o papel de “advogado natural dos pobres”, e resumiu seu ideal na frase “A Medicina é uma ciência social, e a política não é mais que a medicina em grande escala.” Para melhor exercê-lo, tornou-se político.
Na cátedra, no parlamento, e através do jornal “Reforma Médica”, fundado por ele, Virchow pugnou com ardor em defesa de seu pensamento. Defendia a escolha do ministro da saúde pelo voto direto dos médicos, melhores salários, maior relevância social para a classe médica e a criação de um serviço público de saúde. Foi um reformador que lutou por mudanças políticas e sociais que transcendiam à medicina.
Na prática, como vereador de Berlim, colaborou para a instalação de esgoto, saneamento, e higiene dos alimentos. Ajudou a transformá-la na cidade mais limpa da Europa.
A divulgação de suas idéias conquistou adeptos na Alemanha e em outros países, o que foi determinante para a expansão do conceito de medicina social e a realização das reformas médicas na metade do século XIX. A empolgação com a era microbiana da medicina e a ênfase posterior nas causas biológicas das enfermidades cresceram a biomedicina, mas a relevância dos fatores econômicos e sociais na determinação das doenças nunca poderia ser esquecida. Os dois conceitos, o de Flexner, que valoriza o individual, e o de Virchow, que privilegia o social, têm ambos sua validade, e a boa medicina deve integrá-los. Tratar bem dos doentes e combater de modo eficaz as doenças exige preparo técnico e compreensão política.
Na América Latina também se fez sentir a influência de Virchow no desenvolvimento da medicina. Salvador Allende, no Chile, e Manuel Vitorino, no Brasil, são dois exemplos de médicos e políticos sensibilizados por suas propostas.
Allende esteve entre os alunos do patologista alemão Max Westenhofer, discípulo de Virchow, que dirigiu por alguns anos o departamento de patologia da escola médica da Universidade do Chile, o que certamente contribuiu para formar a consciência que iria orientar sua atuação como médico e político. Ministro da saúde de um governo popular, em 1939, escreveu um livro “A Realidade Médico Social Chilena”, no qual traça um agudo panorama da situação de saúde da população, relacionando-a com as más condições de vida dos trabalhadores, o endividamento e a dependência internacional do país. No início dos anos 50, investido do mandato de senador, cria a legislação que institui o serviço nacional de saúde, em parte inspirado no serviço público de saúde proposto por Virchow. É o primeiro programa nacional das Américas que garante o acesso universal aos serviços. Sua morte trágica, em 1973, deposto da presidência do país por um golpe militar, foi o pesado tributo pago por suas crenças políticas que sonhou realizar pela via democrática.
Manuel Vitorino (1853 – 1902), médico bahiano de origem humilde, ajudou o pai no comércio e foi marceneiro, para reunir as condições de seguir os passos do irmão, ingressando na Faculdade de Medicina onde brilhou como aluno e professor. A faculdade, então chamada Academia de Medicina, era o centro em torno do qual girava a cultura e a intelectualidade da Bahia. Cursá-la era o caminho para a ascensão social. Os professores valorizavam a retórica, o culto obsessivo da língua, o ensino deixava muito a desejar e a medicina pouco tinha de ciência. As faculdades de direito estavam no Recife e em São Paulo, mas entre os doutores bahianos havia muito de bacharelismo. Daí saíram muitos médicos que brilharam na política no segundo reinado e albores da república, entre eles Manuel Vitorino, tido por Gilberto Freyre como quase outro Rui Barbosa na eloqüência. Neste cenário avulta a contribuição dada por um grupo de estrangeiros, o inglês Patterson, o alemão Wucherer, o português Silva Lima e o maranhense Nina Rodrigues, pesquisadores diligentes que, estudando doenças mal conhecidas, embora muito incidentes na província, fundaram a escola tropicalista bahiana, embrião da medicina científica que viria a transformar o ensino e a prática médica na faculdade pioneira do Brasil. A ação desses precursores se deu em meio à oposição dos conservadores, que viam com desconfiança o papel inovador do pequeno grupo, para o qual foi atraído Manuel Vitorino, em seqüência a seu irmão que já o integrava. A proximidade com os pesquisadores pavimentou-lhe o caminho para uma rápida e vitoriosa carreira docente, impulsionada por uma viagem que empreendeu à Europa em 1879 quando teve a oportunidade de visitar os grandes centros médicos de Londres, Berlim e Viena. Assiste às operações de Lister com o emprego do método antisséptico, freqüenta aulas de Robert Koch, conhece Rudolf Wirchow e fica fascinado pelo desempenho de Billroth, o criador da alta cirurgia do aparelho digestivo. De volta ao Brasil, inclina-se pela cirurgia, introduz a assepsia aprendida com Lister nos atos operatórios, galga por concurso a cátedra de cirurgia. Torna-se o mais respeitado e procurado cirurgião de seu estado.
Da viagem à Europa, Manuel Vitorino não trouxera apenas conhecimentos avançados de técnica operatória, mas veio consigo também o germe da política, despertado, quem sabe, pelas idéias de Virchow, com quem esteve, e a consciência do atraso do Brasil, ignorante e escravista.
Sua militância política se inicia em 1885, com artigos publicados na Gazeta da Bahia onde dá combate à escravidão, à vitaliciedade do Senado e prega o federalismo. Na verdade, a política já o seduzia há tempos, pois, doutorado pela Faculdade de Medicina, logo se inscrevera no Partido Liberal, atraído pelo brilho de Rui Barbosa de quem se torna companheiro. Com o advento da República, por indicação deste, ministro da fazenda do governo provisório, é investido no cargo de governador da Bahia. Entre seus atos mais importantes estão a extinção dos partidos políticos, a instituição do ensino primário obrigatório e leigo, a criação de fundo escolar para financiar a educação e o estabelecimento da higiene escolar, que chegou a regular a dieta e o repouso das crianças. O ímpeto reformista de Manuel Vitorino não encontrou eco entre os políticos bahianos e a oligarquia conservadora rural que não tardaram a intrigá-lo com Hermes da Fonseca, comandante da guarnição militar e irmão do Presidente Deodoro da Fonseca. Sem apoio para seu audacioso programa, lança um apelo patético “pela união do elemento político antigo e do elemento político novo”. Deixa o governo (abril, 1890), deposto, poucos meses depois de haver assumido, prometendo em carta a Rui “estar definitivamente retirado da política”.
Intenção desmentida dentro de pouco tempo. Depois de brevíssimo interregno, retorna à política para eleger-se sucessivamente deputado, senador estadual e senador federal, alçando-se ao plano da política nacional na qual seria figura de destaque como vice-presidente da república, tendo exercido em caráter interino a presidência, no impedimento de Prudente de Morais por motivo de doença. Na condição de vice-presidente participa da comissão instituída pelo prefeito Furquim Werneck para realizar estudos sobre o saneamento do Rio de Janeiro, tendo escrito a introdução do relatório apresentado pela comissão. A passagem lembra Virchow e o saneamento de Berlim. Desavindo-se com Prudente, experimentou o ostracismo e a perseguição política que injustamente o incriminou como um dos responsáveis pelo atentado sofrido por este quando do desembarque no Rio de Janeiro das tropas retornadas de Canudos. O atentado deflagrou o estado de sítio e medidas de exceção que ampliariam os poderes presidenciais e sufocariam a oposição na qual militava Manuel Vitorino. Fortalecia-se institucionalmente o presidencialismo brasileiro. O derradeiro golpe viria com o veto aposto por Campos Sales ao projeto aprovado pelo parlamento, prorrogando sua licença da cátedra na Faculdade de Medicina. A medida obrigava-o a retornar à Bahia. A política, por idealismo, o roubara à medicina; a política, por mesquinharia, o devolve à medicina. No curso dos preparativos para a viagem de volta, adoece e morre rápido. O corpo é transportado para Salvador no encouraçado Deodoro. A honra que lhe negam em vida oferecem-na morto.
O acesso dos médicos à política independe de autorização ou licença de qualquer órgão ou autoridade, salvo no que diga respeito à legislação eleitoral de caráter geral. A decisão é de natureza individual, implicando cada vez mais em uma opção entre as duas atividades crescentemente inconciliáveis. As exigências inerentes a cada uma delas impossibilita exercê-las simultaneamente, sob pena de mau desempenho ou frustração de expectativas, daí não ser rara a hesitação dos médicos atraídos pela política em abandonar o exercício da profissão. O contínuo progresso da medicina e a solicitação dos pacientes não admitem o médico em tempo parcial e desatualizado, assim como o político zeloso não dispõe de horas livres para se dedicar a outros misteres. Juscelino Kubitschek vacilou entre a carreira médica, que já se anunciava auspiciosa, e o convite para abraçar a política com seu fascínio e incertezas. Seu movimento foi no sentido de atender as duas vocações e aos poucos sentir afrouxar os laços com a medicina até afastar-se dela definitivamente com um gesto premeditado e algo teatral em 1944. São dele as palavras que transcrevo, reproduzidas do livro de Ronaldo Costa Couto – Brasília Kubitschek de Oliveira, páginas 58 e 59 :
“E à medida que me deixava absorver pelos assuntos submetidos à minha atenção, vi diluírem-se dentro de mim, os antigos valores que me absorveram: a medicina, o trabalho no hospital militar, os doentes da Santa Casa, a atividade no consultório. Era um universo – minúsculo, sem dúvida, mas construído com as próprias mãos – que começava a se esboroar. Mesmo a tese que, secretamente, e com tanto carinho estava elaborando para concorrer a uma cátedra na faculdade, acabou deixada numa gaveta e daí não sairia mais.”
Seu último paciente foi o escritor Eduardo Frieiro, que operou de apendicite aguda:
“Hoje, vou dar duas altas, Dona Noêmia. Uma ao Frieiro, que já está bom e pode retornar a suas atividades. E outra a mim mesmo, pois encerro, com o caso do seu marido, minha atividade profissional. Dona Noêmia olhou-me estupefata. Tirei o avental branco e o guardei no armário da sala dos médicos. Vesti o paletó. Apanhei alguns livros que estavam sobre a escrivaninha. Estendi a mão a Dona Noêmia e saí. A opção, sob a qual eu havia hesitado durante tanto tempo, acabara de ser feita. Já não era médico. Mas político.”
Vivi o mesmo dilema, conciliei o quanto pude, até render-me exclusivo à política. Se não me arrependi da decisão, guardo a nostalgia da carreira.
Os insucessos eleitorais, precoces ou tardios, produzem idas e vindas entre o consultório e a tribuna num movimento pendular que condena o médico ao anacronismo profissional, quando possível instalado na burocracia estatal ou relegado ao esquecimento que fomenta a desilusão política.
Há os que vêem nos médicos celeiro de políticos potenciais, estimulando pretensões adormecidas, tentadas pelo mundo fascinante da política. Recrutados pelas lideranças locais, os médicos da zona rural e das cidades menores lançam-se com freqüência à aventura política na disputa das prefeituras municipais. Arthur Tibau, no livro Notas de um médico, publicado em 1932, no texto intitulado o “Médico e o Estadista”, estranha que nenhum esculápio tenha até então ascendido ao posto de Presidente da Nação, não obstante o preparo de muitos deles, alguns já provados na administração pública e no governo de estados. Argumenta com um paralelo entre a organização social e o corpo humano, as células e os indivíduos, analogia que recorda expressões de Virchow no seu texto clássico sobre a patologia celular. Para o autor, conhecer o funcionamento do organismo humano capacita o médico a ser um dirigente político.
O médico e senador da Nigéria, Olorunnimbe Mamora, em conferência pronunciada em fevereiro de 2005, em uma universidade daquele país, exorta os médicos a se tornarem políticos, por acreditar que possam contribuir para melhorar a qualidade da vida pública nigeriana. Afirma serem muitos os pontos comuns entre a medicina e a política, que considera irmãs siamesas, pelo que ambas exigem de seus integrantes em termos éticos e morais, prometidos em juramentos solenes, fundamentos do elo de confiança que deve existir entre o médico e o paciente, o político e a sociedade. Juramentos que, como declarações de princípios morais, não são mais fortes que a vontade dos que os respeitam e aceitam, como bem anotou Thomas Szasz em A Fabricação da Loucura. A violação deles é reflexo do conflito interno da sociedade. A erosão do individualismo médico e o compromisso de trabalhar pelo bem geral como funcionário de saúde do estado aproximam a medicina da política. A mudança de posição do médico no contexto social e profissional já era apontada pelo “Journal of the American Medical Association” a propósito da lei de seguro de Lloyd George, o primeiro programa de seguro compulsório para operários britânicos, ao afirmar que daquele diploma em diante o médico não seria mais “um profissional liberal particular ou um negociante” (A Fabricação da Loucura, Thomas Szasz). Confessa-se casado com a medicina e amante da política, inspirado no exemplo histórico de Virchow, de quem repete um pensamento: “Se a doença é a expressão de uma vida individual em circunstâncias desfavoráveis, as epidemias são indicadoras de distúrbios de massa.” Julga que a maior participação dos médicos na política da Nigéria seja o remédio para o tsunami político que banha o país na corrupção e no desleixo dos governos. Invoca Sêneca para atrair os médicos à política:
“A grande punição para os sábios que se recusam a governar é sofrer o governo dos idiotas”. A afinidade entre a política e a medicina estaria, segundo ele, na promessa dos médicos de, mesmo sob ameaça, respeitarem as leis da humanidade e no compromisso dos políticos de não usarem o poder em detrimento das pessoas e da sociedade como um todo. Exorta os médicos a se comportarem como “profissionais na política” e não “políticos profissionais”.
Jean Bernard, aqui já citado, considera que a medicina é ao mesmo tentada e tentadora.
Identifica seis tentações que a assediam:
1 – Tentação administrativa – consiste na valorização excessiva da burocracia, da gestão e das normas. O predomínio dos meios sobre os fins. “A medicina moderna necessita da administração. A administração crê não necessitar da medicina” (Jean Bernard)
2 – Tentação psicológica – o reconhecimento dos transtornos afetivos, emocionais e sua importância para a saúde das pessoas não pode desprezar as causas orgânicas das doenças.
3 – Tentação sociológica – diz respeito à influência do meio sobre o surgimento de doenças e seu desenvolvimento. Considera a importância de fatores étnicos e dos costumes sobre a saúde das populações.
4 – Tentação humanista – cultivar o humanismo indispensável ao médico sem ceder ao beletrismo, a retórica sem conteúdo, a glória vã e vaidosa, que imobiliza a investigação científica e paralisa o progresso da medicina.
5 – Tentação científica – o risco de uma medicina sem médicos, desumanizada, com os pacientes assistidos só por aparelhos. A tecnologia substituindo o homem.
6 – Tentação política – a tentação política atua sobre a medicina, os médicos e os doentes. A percepção moderna da saúde como um direito de todos aguça o interesse dos políticos pela medicina, a qual ao mesmo tempo abusam e desprezam. A sabedoria está em buscar o equilíbrio que impeça o abuso e evite o desprezo. A interação entre as duas é proveitosa para a sociedade, desde que a medicina não se deixe corromper ou subordinar à política. Decisões políticas acarretam mais recursos para saúde, melhoram a assistência médica, ajudam a combater e controlar doenças. Campanhas saneadoras como a de Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro não se fazem sem verbas e sustentação política. Foi uma atitude política que acionou a propaganda maciça e a mobilização popular para uma campanha de combate aos ratos, moscas e mosquitos, sem o uso de produtos químicos, de que a China não dispunha. Em nove anos, entre 1949 e 1958, a higiene chinesa corrigiu um atraso de quatro séculos (Jean Bernard, em Grandeur et tentations de la médecine). Todavia a degeneração dessas relações deságua em atrocidades como as que tiveram lugar nos campos de concentração nazistas, nódoas da medicina alemã.
Para Jean Bernard são três as faces da tentação política. “A etapa inicial é um admirável sucesso da aliança entre a medicina e a política, a primeira reconhece os males que ameaçam o homem, a segunda oferece os meios de limitá-los; a segunda etapa que não nos concerne, é a exploração política desse sucesso; a terceira etapa, que nos concerne, é feita das conseqüências para a medicina de sua estreita aliança com a política”.
São diversas as vias pelas quais os médicos entram na política: pela tradição familiar; pelas relações profissionais com políticos ou seus familiares; pela cooptação por lideranças locais das pequenas cidades; pelo exercício altruístico da clínica junto à população carente que lhe desperta no peito a chama da política.
A forma de ingresso não importa, se motivado pelo ideal de servir, ampliando sua área de atuação, norteado pelos princípios que orientam a prática médica. Giovanni Berlinguer vê no estudante de medicina dos primeiros anos um idealista e, nos últimos, um cínico. Seria tão bom se conservássemos ao longo da vida a pureza das primícias médicas, as mesmas que devem ter impelido o médico Ernesto (Che) Guevara ao protagonismo revolucionário. No outro extremo está Adib Jatene, que nunca concorreu a eleições nem fez revoluções, mas prestou assinalados serviços, à política e à medicina, como secretário de saúde de São Paulo e ministro da saúde.
O número de médicos, no executivo e no parlamento, tem crescido no Brasil, e no Ceará não tem sido diferente. O que não tenho como avaliar é o impacto do fato sobre o nível da política brasileira e da saúde do povo. A maior participação dos médicos na política não é em si nenhum mal. Pelo contrário, poderá ser benéfica à sociedade. Há exemplos que engrandeceram as duas. Tudo depende da motivação de cada um e da forma como ascenderam à vida pública. Maus médicos, sem ética e sem pudor profissional, serão seguramente maus políticos.
O reconhecimento da importância dos fatores sociais na gênese das doenças instituiu nos anos vinte do século XIX os fundamentos da medicina social que arrebatou muitos médicos do consultório para o anfiteatro da política. Além das causas primárias das moléstias, microbianas, por exemplo, era preciso combater sua etiologia social, representada pela pobreza e a ignorância, e isso escapava ao domínio da medicina. Para enfrentar essas condições adversas à saúde humana, o médico havia que migrar para a política onde poderia encontrar a solução para problemas de tal magnitude.
O que fez de Virchow político foi o encontro com o atraso e a miséria dos habitantes da Silésia, a braços com uma epidemia de febre tifóide que lhe tocou investigar como um jovem médico. Se não tomou o caminho das armas como Guevara, despertado pela realidade com que se deparou ao longo de sua mítica viagem pela América do Sul, previu a revolução de 1848, quando afirmava que a aparente tranqüilidade seria negada pela eclosão dos conflitos sociais. Entre a revolução e a reforma escolheu a segunda; preferiu a cátedra, a imprensa e a tribuna do parlamento à guerrilha, para travar a luta contra a iniqüidade e a injustiça social.
Manuel Vitorino deixou claro em seu manifesto político de 1898 o que o decidiu a enveredar pelo caminho tortuoso e inseguro da militância política. São dele as palavras que se seguem:
“Uma circunstância, porém, faz-me político militante: a minha viagem à Europa deu-me a conhecer até que ponto nos culminavam, e como influía nesse conceito, que nos abatia, o fato de sermos um país que ainda tinha escravos. De volta, vinham meus sentimentos abolicionistas exigentes, intratáveis, e nesse terreno não cedia uma linha”.
Antonio José de Almeida, médico e Presidente de Portugal, em visita ao Brasil, ao agradecer a medalha com a qual o homenageava a Academia Nacional de Medicina, manifestou com clareza, no estilo elegante da época (1922), a forte influência da medicina na sua carreira política. Reproduzo seu pensamento no trecho que interessa a nossa exposição:
“Mas, como disse, nessa minha vida de prático, de médico de aldeia, de que tanto tenho orgulho e cuja rememoração faço com tanto prazer, ela fica como um símbolo supremo – é o único que tenho neste gênero pelo menos é o único que tenho e jamais terei outro.
E ela ficará então como o símbolo do que o homem deve ser sobre a terra; e junto, por ventura, a outros símbolos de que disponho, ela será, sob certo aspecto, o símbolo supremo, porque aquilo que lembra minha vida de médico lembra o que tenho sido, e que não é muito, a não ser a investidura oficial que ostento, porque esta é enorme, visto que representa a pátria. Tudo aquilo que sou o devo efetivamente à minha profissão de médico.
Exercendo-a, estudando a ciência, que me deu as faculdades para exercê-la, fiquei sabendo que na vida só há uma verdade – aquela que assenta na observação e na experiência.
Foi como médico e cultivando a medicina, que pude ter para mim esta filosofia suprema, de que o homem deve ser sempre bom, caritativo e agasalhador; que o homem deve olhar sempre para seu semelhante, ou seja branco ou preto, ou grande ou pequeno, ou homem ou mulher, ou celerado ou santo, abrigando-os, a todos, no manto da mesma ternura.
Se eu não tivesse sido médico, pouco mais, em qualquer caso, poderia ser do que tenho sido, poderia ser muito menos, mas, com certeza, seria uma coisa diferente, porque foi o exercício da minha profissão, foi o contacto com os meus doentes, foi o sentimento fraterno que me ligou sempre a eles, como de resto acontece a todos os médicos, que fez com que eu, na política da minha terra, tenha sido animado deste espírito de conciliação que me tem levado a querer concentrar todos os portugueses no laço da mesma disciplina, e ao mesmo tempo, conservá-los sob o mesmo amor carinhoso e fraterno.”
Saudou-o na ocasião Miguel Couto, para muitos, á época, o maior médico do Brasil, que teve rápida passagem pela política na condição de constituinte em 1934. Reportando-se ao homenageado, disse que nele foi o médico que traiu o político. “Não tivesse dilatados anos, em terras de África e lusitanas terras, convivido com o sofrimento, vendo-o todos os dias abater os presunçosos no seu orgulho e os nivelar aos pequeninos na sua humildade, e acompanhando tantas vezes, com aquela angustia que só nós conhecemos, o desengano dos recursos mais heróicos contra a inexorabilidade de tantos males, e evidentemente a certeza na fragilidade das cousas humanas não teria naquele ambiente de fausto e poderio lhe ocorrido ao pensamento.
O médico, continua, leva para todas as oportunidades da existência as características da sua profissão: a fé, a bondade, a ternura, o compadecimento, a simplicidade, a tolerância.”
A notícia da morte de Miguel Couto, tal como está em “Medicina e Cultura” – volume I, descreve-o como uma inteligência superior, cujo talento estendeu-se além da medicina para iluminar a política com o entusiasmo cívico que o caracterizou, tendo porfiado na constituinte em defesa da educação e da raça.
O Senador Mamora, anteriormente mencionado, prescreve aos médicos carregarem consigo para a política os honrosos princípios que lastreiam o exercício da medicina. Infelizmente não tem sido assim. Muitos tem se orientado para a política movidos pela ambição, a sede de poder e o desejo de se tornarem ricos. A maneira como buscam o voto, em colisão com a lei e o código de ética médica, não engrandece a profissão. São procedimentos assistencialistas, típicos de um coronelismo contemporâneo que não conhece limites na corrida eleitoral. Na ausência do estado, a medicina no passado, sobretudo nas aldeias, era um misto de clínica privada pobre e filantropia. Hoje a ação do estado alargou substancialmente a assistência à população embora os serviços estejam congestionados por uma demanda infindável. Isso tornou a benemerência na aparência, pois estes, não raro, são remunerados pelo Estado.
A lei eleitoral veda a captação de sufrágios em troca de bens ou favores pessoais. Nosso código de ética, em seu artigo 65, proíbe-nos de “obter da relação com o paciente vantagens física emocional, financeira ou política”. A laqueadura indiscriminada de trompas, os atendimentos favorecidos na cronologia e nos meios, a concessão de atestados médicos graciosos, em troca de votos, configuram infrações cometidas de modo abusivo ignoradas pelo costume, o uso tolerado e a leniência fiscalizatória. Está em estudo no âmbito do Conselho Federal de Medicina nova versão do código de ética que adapte a disciplina profissional às condições atuais nas quais o médico trabalha. Espero que seja mais incisivo ao tratar dos impedimentos éticos na barganha das eleições.
Necessário se faz que o médico sopese a decisão de tornar-se político, face o custo moral e a exigência da opção, que não traga a amargura do arrependimento tardio. Os percalços da vida pública afetam aos que a professam, em intensidade variável, mas a nenhum poupa. O travo desses acontecidos aflora escolhas pretéritas que surgem em desabafos como o de Manuel Vitorino quando atingido por ato injusto do desafeto no poder. É sua esta dorida anamnese: “o novo regime foi desgraçadamente buscar-me entre os meus livros e meus alunos. Relutei em deixá-los. Acreditei ou fizeram-me acreditar que poderia ser útil aos meus compatriotas. Triste ilusão!”
O antídoto contra as decepções políticas só pode ser o ideal que nos levou a exercê-la. A consciência do dever cumprido é que tranqüiliza a alma e faz suportar as adversidades. Por isso, que ninguém, médico ou não, se aventure na política a não ser impulsionado por um forte ideal. Aos médicos seduzidos pela política digo-lhes que atentem para o conselho de Virchow no fecho de seu histórico relatório sobre a epidemia de febre tifóide na Silésia: “A medicina imperceptivelmente nos levou para a área social e nos colocou em uma posição de confrontar os grandes problemas de nosso tempo.” Então valerá a pena pelejar na política por uma nobre causa, mesmo ao custo de padecer dos dissabores que ela acarreta.
* Palestra proferida por Lúcio Alcântara na abertura do XIII Congresso Brasileiro de História da Medicina, dia 12/11/2008, em Fortaleza.
Passo sem delongas ao tema que me foi confiado a título de conferência de abertura para a qual trago como única credencial o conhecimento feito de experiência própria, médico e político que sou, assim como o foi também meu pai. O assunto sobre o qual pedem me debruce, as relações históricas entre a medicina e a política, exigem conhecimento de que me ressinto e tempo de que não disponho. Aí há matéria, não para uma aula, mas para um curso inteiro. Dar-me-ei por bem recompensado se o esforço de síntese que empreendo desperte interesse de quem se alongue em novos estudos nesse fascinante campo da história da medicina.
A história da medicina é também a história da evolução do poder médico. Para melhor interpretar a conexão da medicina com a política, é mister conhecer suas relações com o Estado, as pessoas e as instituições da sociedade, estabelecidas através de seus agentes, os médicos. Assim melhor se alcançará a forma pela qual se dá o envolvimento da medicina com a política e de como médicos nela ingressam.
O professor Jean Bernard, renomado médico francês, divide a história da medicina em cindo períodos. A saber:
1 – Período Mágico – tudo depende dos deuses aos quais está entregue o destino dos homens, e a doença faz parte deste destino. É desnecessário examinar e tratar os doentes. É o tempo dos sacerdotes e dos profetas, dos adivinhos.
2 – Período de Hipócrates – é no século V aC. que se busca a causa das doenças, se descrevem sintomas, se faz comparação de casos e se prevê a evolução da doença. Este longo período, que marca o início da medicina como ocupação, igualmente ineficaz, em nada acrescenta ao poder do médico.
3 – Período do Século XIX - é quando se dá a grande mudança que abriria espaço para a fase científica da medicina com as contribuições fundadoras, entre outros de Pasteur, Claude Bernard e Mendel que permitiram o surgimento das vacinas, da cirurgia e obstetrícia modernas.
4 – Período Terapêutico – não obstante os avanços científicos, a impotência terapêutica do médico se mantinha. A partir de 1936, com o surgimento das sulfas, da penicilina, dos hormônios, numa sucessão de descobertas, a situação muda, e a medicina torna-se mais eficaz.
5 – Período Racional – se a medicina do século XX foi muito diferente da praticada nos séculos passados, a do século XXI será rigorosa, muito eficaz, voltada para a prevenção e a predição, que se empenhará em ser universal, mas ao mesmo tempo reconhecerá o caráter único de cada homem. (Jean Bernard em “Esperanças e Sabedoria da Medicina”).
O desenvolvimento da medicina, registrado nos vários períodos em que se divide sua história, não eliminou de todo a natureza sagrada de seus primórdios nem o cunho sacerdotal dos primeiros praticantes. Ai residem as raízes do poder médico sobre os pacientes e a sociedade, tal o conhecemos hoje.
Durante todo esse tempo a humanidade mudou e com ela a medicina. O poder do médico sobre o paciente se consolidou, e a profissão ganhou projeção, as estruturas sociais que se constituíram, dentro e fora do estado, acabaram por legitimar esse poder, originando uma ideologia que guarda uma dinâmica de “dominação e submissão”, segundo Jaime Landmann, perante o indivíduo e a política.
Assim como o padre diz quem é santo e quem é pecador, e o juiz aponta quem é culpado e quem é inocente, o médico decide quem é doente e quem é são. A delegação que recebe dá-lhe esse direito, o grande poder de julgar.
O namoro da medicina com a política embute o risco da manipulação e da submissão, inaceitáveis ambas. O homem moderno cobra cada vez mais o direito à saúde, e os políticos usam a demanda para promover suas carreiras.
A colaboração construtiva da medicina com a política produziu páginas na história da humanidade que só engrandecem seus autores. A submissão aos ditames da política dominante, por outro lado, gerou fatos vergonhosos que cobriram de opróbrio a medicina e os médicos. Refiro-me ao comportamento indecoroso dos médicos que, a serviço de ideologias extremas, sacrificaram vidas nos campos de concentração nazista em nome da eugenia, ou de experimentos abjetos em seres humanos, confinaram dissidentes políticos em manicômios soviéticos, chancelaram a tortura nas masmorras das ditaduras. A cegueira ideológica não poupou médicos conceituados e professores de renome que, bestializados pela política, esqueceram a lealdade ao paciente, como prescreve o juramento de Hipócrates, para servir, incondicionais, a Estados totalitários. O vínculo com o Estado, que transforma o médico em agente duplo, na expressão de Landmann, não o desobriga do primeiro dever, que é para com o doente.
Se a servidão da medicina ao poder a avilta e rebaixa, a política não está vedada aos médicos, que podem fazer dela instrumento para realização de seus ideais. Esta, aliás, foi a visão de Virchow, o médico alemão que fundou a moderna patologia. Em 1848, foi designado pelo governo para estudar uma epidemia de febre tifóide que ocorria na Silésia, então território da Prússia, hoje parte da Polônia. Revoltado com a miséria da população, a desigualdade de renda e o analfabetismo, para combater a disseminação da doença, recomenda a adoção de várias medidas que resumiu na frase – “Democracia irrestrita, mais educação e melhoria do nível de vida”. Teve intensa atuação política. Foi vereador em Berlim, Deputado Estadual e Federal e um dos fundadores do Partido Progressista Alemão (1860). Defendia a união entre as idéias médicas e políticas para o controle mais rápido e eficaz das moléstias, pois atribuía importância às condições sócioeconômicas da população no surgimento e difusão da doença. Opunha-se assim, de certa maneira, aos que, entusiasmados com a descoberta por Koch do Bacilo da tuberculose, desconsideravam a importância do meio e das condições sociais da população na gênese e propagação da doença. Virchow foi uma ponte entre a ciência e a política. Acreditava que a medicina e a prática da saúde pública, aplicadas politicamente, poderiam transformar a sociedade. Por suas idéias, foi afastado da Universidade de Berlim a ela retornando anos depois.
Foi o cientista autor do texto canônico da medicina, “Patologia Celular” (1858), no qual desenvolve a tese de que a sede da doença está na célula. Sem esquecer a política, usa no texto, de caráter científico, a metáfora da “república das células” e da “democracia celular”. Conciliou competência científica com convicções políticas, conseguindo assim lançar as bases de uma nova patologia e da medicina social. Interpelado por Bismarck, seu opositor, em razão de seu comportamento, atribuiu ao médico o papel de “advogado natural dos pobres”, e resumiu seu ideal na frase “A Medicina é uma ciência social, e a política não é mais que a medicina em grande escala.” Para melhor exercê-lo, tornou-se político.
Na cátedra, no parlamento, e através do jornal “Reforma Médica”, fundado por ele, Virchow pugnou com ardor em defesa de seu pensamento. Defendia a escolha do ministro da saúde pelo voto direto dos médicos, melhores salários, maior relevância social para a classe médica e a criação de um serviço público de saúde. Foi um reformador que lutou por mudanças políticas e sociais que transcendiam à medicina.
Na prática, como vereador de Berlim, colaborou para a instalação de esgoto, saneamento, e higiene dos alimentos. Ajudou a transformá-la na cidade mais limpa da Europa.
A divulgação de suas idéias conquistou adeptos na Alemanha e em outros países, o que foi determinante para a expansão do conceito de medicina social e a realização das reformas médicas na metade do século XIX. A empolgação com a era microbiana da medicina e a ênfase posterior nas causas biológicas das enfermidades cresceram a biomedicina, mas a relevância dos fatores econômicos e sociais na determinação das doenças nunca poderia ser esquecida. Os dois conceitos, o de Flexner, que valoriza o individual, e o de Virchow, que privilegia o social, têm ambos sua validade, e a boa medicina deve integrá-los. Tratar bem dos doentes e combater de modo eficaz as doenças exige preparo técnico e compreensão política.
Na América Latina também se fez sentir a influência de Virchow no desenvolvimento da medicina. Salvador Allende, no Chile, e Manuel Vitorino, no Brasil, são dois exemplos de médicos e políticos sensibilizados por suas propostas.
Allende esteve entre os alunos do patologista alemão Max Westenhofer, discípulo de Virchow, que dirigiu por alguns anos o departamento de patologia da escola médica da Universidade do Chile, o que certamente contribuiu para formar a consciência que iria orientar sua atuação como médico e político. Ministro da saúde de um governo popular, em 1939, escreveu um livro “A Realidade Médico Social Chilena”, no qual traça um agudo panorama da situação de saúde da população, relacionando-a com as más condições de vida dos trabalhadores, o endividamento e a dependência internacional do país. No início dos anos 50, investido do mandato de senador, cria a legislação que institui o serviço nacional de saúde, em parte inspirado no serviço público de saúde proposto por Virchow. É o primeiro programa nacional das Américas que garante o acesso universal aos serviços. Sua morte trágica, em 1973, deposto da presidência do país por um golpe militar, foi o pesado tributo pago por suas crenças políticas que sonhou realizar pela via democrática.
Manuel Vitorino (1853 – 1902), médico bahiano de origem humilde, ajudou o pai no comércio e foi marceneiro, para reunir as condições de seguir os passos do irmão, ingressando na Faculdade de Medicina onde brilhou como aluno e professor. A faculdade, então chamada Academia de Medicina, era o centro em torno do qual girava a cultura e a intelectualidade da Bahia. Cursá-la era o caminho para a ascensão social. Os professores valorizavam a retórica, o culto obsessivo da língua, o ensino deixava muito a desejar e a medicina pouco tinha de ciência. As faculdades de direito estavam no Recife e em São Paulo, mas entre os doutores bahianos havia muito de bacharelismo. Daí saíram muitos médicos que brilharam na política no segundo reinado e albores da república, entre eles Manuel Vitorino, tido por Gilberto Freyre como quase outro Rui Barbosa na eloqüência. Neste cenário avulta a contribuição dada por um grupo de estrangeiros, o inglês Patterson, o alemão Wucherer, o português Silva Lima e o maranhense Nina Rodrigues, pesquisadores diligentes que, estudando doenças mal conhecidas, embora muito incidentes na província, fundaram a escola tropicalista bahiana, embrião da medicina científica que viria a transformar o ensino e a prática médica na faculdade pioneira do Brasil. A ação desses precursores se deu em meio à oposição dos conservadores, que viam com desconfiança o papel inovador do pequeno grupo, para o qual foi atraído Manuel Vitorino, em seqüência a seu irmão que já o integrava. A proximidade com os pesquisadores pavimentou-lhe o caminho para uma rápida e vitoriosa carreira docente, impulsionada por uma viagem que empreendeu à Europa em 1879 quando teve a oportunidade de visitar os grandes centros médicos de Londres, Berlim e Viena. Assiste às operações de Lister com o emprego do método antisséptico, freqüenta aulas de Robert Koch, conhece Rudolf Wirchow e fica fascinado pelo desempenho de Billroth, o criador da alta cirurgia do aparelho digestivo. De volta ao Brasil, inclina-se pela cirurgia, introduz a assepsia aprendida com Lister nos atos operatórios, galga por concurso a cátedra de cirurgia. Torna-se o mais respeitado e procurado cirurgião de seu estado.
Da viagem à Europa, Manuel Vitorino não trouxera apenas conhecimentos avançados de técnica operatória, mas veio consigo também o germe da política, despertado, quem sabe, pelas idéias de Virchow, com quem esteve, e a consciência do atraso do Brasil, ignorante e escravista.
Sua militância política se inicia em 1885, com artigos publicados na Gazeta da Bahia onde dá combate à escravidão, à vitaliciedade do Senado e prega o federalismo. Na verdade, a política já o seduzia há tempos, pois, doutorado pela Faculdade de Medicina, logo se inscrevera no Partido Liberal, atraído pelo brilho de Rui Barbosa de quem se torna companheiro. Com o advento da República, por indicação deste, ministro da fazenda do governo provisório, é investido no cargo de governador da Bahia. Entre seus atos mais importantes estão a extinção dos partidos políticos, a instituição do ensino primário obrigatório e leigo, a criação de fundo escolar para financiar a educação e o estabelecimento da higiene escolar, que chegou a regular a dieta e o repouso das crianças. O ímpeto reformista de Manuel Vitorino não encontrou eco entre os políticos bahianos e a oligarquia conservadora rural que não tardaram a intrigá-lo com Hermes da Fonseca, comandante da guarnição militar e irmão do Presidente Deodoro da Fonseca. Sem apoio para seu audacioso programa, lança um apelo patético “pela união do elemento político antigo e do elemento político novo”. Deixa o governo (abril, 1890), deposto, poucos meses depois de haver assumido, prometendo em carta a Rui “estar definitivamente retirado da política”.
Intenção desmentida dentro de pouco tempo. Depois de brevíssimo interregno, retorna à política para eleger-se sucessivamente deputado, senador estadual e senador federal, alçando-se ao plano da política nacional na qual seria figura de destaque como vice-presidente da república, tendo exercido em caráter interino a presidência, no impedimento de Prudente de Morais por motivo de doença. Na condição de vice-presidente participa da comissão instituída pelo prefeito Furquim Werneck para realizar estudos sobre o saneamento do Rio de Janeiro, tendo escrito a introdução do relatório apresentado pela comissão. A passagem lembra Virchow e o saneamento de Berlim. Desavindo-se com Prudente, experimentou o ostracismo e a perseguição política que injustamente o incriminou como um dos responsáveis pelo atentado sofrido por este quando do desembarque no Rio de Janeiro das tropas retornadas de Canudos. O atentado deflagrou o estado de sítio e medidas de exceção que ampliariam os poderes presidenciais e sufocariam a oposição na qual militava Manuel Vitorino. Fortalecia-se institucionalmente o presidencialismo brasileiro. O derradeiro golpe viria com o veto aposto por Campos Sales ao projeto aprovado pelo parlamento, prorrogando sua licença da cátedra na Faculdade de Medicina. A medida obrigava-o a retornar à Bahia. A política, por idealismo, o roubara à medicina; a política, por mesquinharia, o devolve à medicina. No curso dos preparativos para a viagem de volta, adoece e morre rápido. O corpo é transportado para Salvador no encouraçado Deodoro. A honra que lhe negam em vida oferecem-na morto.
O acesso dos médicos à política independe de autorização ou licença de qualquer órgão ou autoridade, salvo no que diga respeito à legislação eleitoral de caráter geral. A decisão é de natureza individual, implicando cada vez mais em uma opção entre as duas atividades crescentemente inconciliáveis. As exigências inerentes a cada uma delas impossibilita exercê-las simultaneamente, sob pena de mau desempenho ou frustração de expectativas, daí não ser rara a hesitação dos médicos atraídos pela política em abandonar o exercício da profissão. O contínuo progresso da medicina e a solicitação dos pacientes não admitem o médico em tempo parcial e desatualizado, assim como o político zeloso não dispõe de horas livres para se dedicar a outros misteres. Juscelino Kubitschek vacilou entre a carreira médica, que já se anunciava auspiciosa, e o convite para abraçar a política com seu fascínio e incertezas. Seu movimento foi no sentido de atender as duas vocações e aos poucos sentir afrouxar os laços com a medicina até afastar-se dela definitivamente com um gesto premeditado e algo teatral em 1944. São dele as palavras que transcrevo, reproduzidas do livro de Ronaldo Costa Couto – Brasília Kubitschek de Oliveira, páginas 58 e 59 :
“E à medida que me deixava absorver pelos assuntos submetidos à minha atenção, vi diluírem-se dentro de mim, os antigos valores que me absorveram: a medicina, o trabalho no hospital militar, os doentes da Santa Casa, a atividade no consultório. Era um universo – minúsculo, sem dúvida, mas construído com as próprias mãos – que começava a se esboroar. Mesmo a tese que, secretamente, e com tanto carinho estava elaborando para concorrer a uma cátedra na faculdade, acabou deixada numa gaveta e daí não sairia mais.”
Seu último paciente foi o escritor Eduardo Frieiro, que operou de apendicite aguda:
“Hoje, vou dar duas altas, Dona Noêmia. Uma ao Frieiro, que já está bom e pode retornar a suas atividades. E outra a mim mesmo, pois encerro, com o caso do seu marido, minha atividade profissional. Dona Noêmia olhou-me estupefata. Tirei o avental branco e o guardei no armário da sala dos médicos. Vesti o paletó. Apanhei alguns livros que estavam sobre a escrivaninha. Estendi a mão a Dona Noêmia e saí. A opção, sob a qual eu havia hesitado durante tanto tempo, acabara de ser feita. Já não era médico. Mas político.”
Vivi o mesmo dilema, conciliei o quanto pude, até render-me exclusivo à política. Se não me arrependi da decisão, guardo a nostalgia da carreira.
Os insucessos eleitorais, precoces ou tardios, produzem idas e vindas entre o consultório e a tribuna num movimento pendular que condena o médico ao anacronismo profissional, quando possível instalado na burocracia estatal ou relegado ao esquecimento que fomenta a desilusão política.
Há os que vêem nos médicos celeiro de políticos potenciais, estimulando pretensões adormecidas, tentadas pelo mundo fascinante da política. Recrutados pelas lideranças locais, os médicos da zona rural e das cidades menores lançam-se com freqüência à aventura política na disputa das prefeituras municipais. Arthur Tibau, no livro Notas de um médico, publicado em 1932, no texto intitulado o “Médico e o Estadista”, estranha que nenhum esculápio tenha até então ascendido ao posto de Presidente da Nação, não obstante o preparo de muitos deles, alguns já provados na administração pública e no governo de estados. Argumenta com um paralelo entre a organização social e o corpo humano, as células e os indivíduos, analogia que recorda expressões de Virchow no seu texto clássico sobre a patologia celular. Para o autor, conhecer o funcionamento do organismo humano capacita o médico a ser um dirigente político.
O médico e senador da Nigéria, Olorunnimbe Mamora, em conferência pronunciada em fevereiro de 2005, em uma universidade daquele país, exorta os médicos a se tornarem políticos, por acreditar que possam contribuir para melhorar a qualidade da vida pública nigeriana. Afirma serem muitos os pontos comuns entre a medicina e a política, que considera irmãs siamesas, pelo que ambas exigem de seus integrantes em termos éticos e morais, prometidos em juramentos solenes, fundamentos do elo de confiança que deve existir entre o médico e o paciente, o político e a sociedade. Juramentos que, como declarações de princípios morais, não são mais fortes que a vontade dos que os respeitam e aceitam, como bem anotou Thomas Szasz em A Fabricação da Loucura. A violação deles é reflexo do conflito interno da sociedade. A erosão do individualismo médico e o compromisso de trabalhar pelo bem geral como funcionário de saúde do estado aproximam a medicina da política. A mudança de posição do médico no contexto social e profissional já era apontada pelo “Journal of the American Medical Association” a propósito da lei de seguro de Lloyd George, o primeiro programa de seguro compulsório para operários britânicos, ao afirmar que daquele diploma em diante o médico não seria mais “um profissional liberal particular ou um negociante” (A Fabricação da Loucura, Thomas Szasz). Confessa-se casado com a medicina e amante da política, inspirado no exemplo histórico de Virchow, de quem repete um pensamento: “Se a doença é a expressão de uma vida individual em circunstâncias desfavoráveis, as epidemias são indicadoras de distúrbios de massa.” Julga que a maior participação dos médicos na política da Nigéria seja o remédio para o tsunami político que banha o país na corrupção e no desleixo dos governos. Invoca Sêneca para atrair os médicos à política:
“A grande punição para os sábios que se recusam a governar é sofrer o governo dos idiotas”. A afinidade entre a política e a medicina estaria, segundo ele, na promessa dos médicos de, mesmo sob ameaça, respeitarem as leis da humanidade e no compromisso dos políticos de não usarem o poder em detrimento das pessoas e da sociedade como um todo. Exorta os médicos a se comportarem como “profissionais na política” e não “políticos profissionais”.
Jean Bernard, aqui já citado, considera que a medicina é ao mesmo tentada e tentadora.
Identifica seis tentações que a assediam:
1 – Tentação administrativa – consiste na valorização excessiva da burocracia, da gestão e das normas. O predomínio dos meios sobre os fins. “A medicina moderna necessita da administração. A administração crê não necessitar da medicina” (Jean Bernard)
2 – Tentação psicológica – o reconhecimento dos transtornos afetivos, emocionais e sua importância para a saúde das pessoas não pode desprezar as causas orgânicas das doenças.
3 – Tentação sociológica – diz respeito à influência do meio sobre o surgimento de doenças e seu desenvolvimento. Considera a importância de fatores étnicos e dos costumes sobre a saúde das populações.
4 – Tentação humanista – cultivar o humanismo indispensável ao médico sem ceder ao beletrismo, a retórica sem conteúdo, a glória vã e vaidosa, que imobiliza a investigação científica e paralisa o progresso da medicina.
5 – Tentação científica – o risco de uma medicina sem médicos, desumanizada, com os pacientes assistidos só por aparelhos. A tecnologia substituindo o homem.
6 – Tentação política – a tentação política atua sobre a medicina, os médicos e os doentes. A percepção moderna da saúde como um direito de todos aguça o interesse dos políticos pela medicina, a qual ao mesmo tempo abusam e desprezam. A sabedoria está em buscar o equilíbrio que impeça o abuso e evite o desprezo. A interação entre as duas é proveitosa para a sociedade, desde que a medicina não se deixe corromper ou subordinar à política. Decisões políticas acarretam mais recursos para saúde, melhoram a assistência médica, ajudam a combater e controlar doenças. Campanhas saneadoras como a de Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro não se fazem sem verbas e sustentação política. Foi uma atitude política que acionou a propaganda maciça e a mobilização popular para uma campanha de combate aos ratos, moscas e mosquitos, sem o uso de produtos químicos, de que a China não dispunha. Em nove anos, entre 1949 e 1958, a higiene chinesa corrigiu um atraso de quatro séculos (Jean Bernard, em Grandeur et tentations de la médecine). Todavia a degeneração dessas relações deságua em atrocidades como as que tiveram lugar nos campos de concentração nazistas, nódoas da medicina alemã.
Para Jean Bernard são três as faces da tentação política. “A etapa inicial é um admirável sucesso da aliança entre a medicina e a política, a primeira reconhece os males que ameaçam o homem, a segunda oferece os meios de limitá-los; a segunda etapa que não nos concerne, é a exploração política desse sucesso; a terceira etapa, que nos concerne, é feita das conseqüências para a medicina de sua estreita aliança com a política”.
São diversas as vias pelas quais os médicos entram na política: pela tradição familiar; pelas relações profissionais com políticos ou seus familiares; pela cooptação por lideranças locais das pequenas cidades; pelo exercício altruístico da clínica junto à população carente que lhe desperta no peito a chama da política.
A forma de ingresso não importa, se motivado pelo ideal de servir, ampliando sua área de atuação, norteado pelos princípios que orientam a prática médica. Giovanni Berlinguer vê no estudante de medicina dos primeiros anos um idealista e, nos últimos, um cínico. Seria tão bom se conservássemos ao longo da vida a pureza das primícias médicas, as mesmas que devem ter impelido o médico Ernesto (Che) Guevara ao protagonismo revolucionário. No outro extremo está Adib Jatene, que nunca concorreu a eleições nem fez revoluções, mas prestou assinalados serviços, à política e à medicina, como secretário de saúde de São Paulo e ministro da saúde.
O número de médicos, no executivo e no parlamento, tem crescido no Brasil, e no Ceará não tem sido diferente. O que não tenho como avaliar é o impacto do fato sobre o nível da política brasileira e da saúde do povo. A maior participação dos médicos na política não é em si nenhum mal. Pelo contrário, poderá ser benéfica à sociedade. Há exemplos que engrandeceram as duas. Tudo depende da motivação de cada um e da forma como ascenderam à vida pública. Maus médicos, sem ética e sem pudor profissional, serão seguramente maus políticos.
O reconhecimento da importância dos fatores sociais na gênese das doenças instituiu nos anos vinte do século XIX os fundamentos da medicina social que arrebatou muitos médicos do consultório para o anfiteatro da política. Além das causas primárias das moléstias, microbianas, por exemplo, era preciso combater sua etiologia social, representada pela pobreza e a ignorância, e isso escapava ao domínio da medicina. Para enfrentar essas condições adversas à saúde humana, o médico havia que migrar para a política onde poderia encontrar a solução para problemas de tal magnitude.
O que fez de Virchow político foi o encontro com o atraso e a miséria dos habitantes da Silésia, a braços com uma epidemia de febre tifóide que lhe tocou investigar como um jovem médico. Se não tomou o caminho das armas como Guevara, despertado pela realidade com que se deparou ao longo de sua mítica viagem pela América do Sul, previu a revolução de 1848, quando afirmava que a aparente tranqüilidade seria negada pela eclosão dos conflitos sociais. Entre a revolução e a reforma escolheu a segunda; preferiu a cátedra, a imprensa e a tribuna do parlamento à guerrilha, para travar a luta contra a iniqüidade e a injustiça social.
Manuel Vitorino deixou claro em seu manifesto político de 1898 o que o decidiu a enveredar pelo caminho tortuoso e inseguro da militância política. São dele as palavras que se seguem:
“Uma circunstância, porém, faz-me político militante: a minha viagem à Europa deu-me a conhecer até que ponto nos culminavam, e como influía nesse conceito, que nos abatia, o fato de sermos um país que ainda tinha escravos. De volta, vinham meus sentimentos abolicionistas exigentes, intratáveis, e nesse terreno não cedia uma linha”.
Antonio José de Almeida, médico e Presidente de Portugal, em visita ao Brasil, ao agradecer a medalha com a qual o homenageava a Academia Nacional de Medicina, manifestou com clareza, no estilo elegante da época (1922), a forte influência da medicina na sua carreira política. Reproduzo seu pensamento no trecho que interessa a nossa exposição:
“Mas, como disse, nessa minha vida de prático, de médico de aldeia, de que tanto tenho orgulho e cuja rememoração faço com tanto prazer, ela fica como um símbolo supremo – é o único que tenho neste gênero pelo menos é o único que tenho e jamais terei outro.
E ela ficará então como o símbolo do que o homem deve ser sobre a terra; e junto, por ventura, a outros símbolos de que disponho, ela será, sob certo aspecto, o símbolo supremo, porque aquilo que lembra minha vida de médico lembra o que tenho sido, e que não é muito, a não ser a investidura oficial que ostento, porque esta é enorme, visto que representa a pátria. Tudo aquilo que sou o devo efetivamente à minha profissão de médico.
Exercendo-a, estudando a ciência, que me deu as faculdades para exercê-la, fiquei sabendo que na vida só há uma verdade – aquela que assenta na observação e na experiência.
Foi como médico e cultivando a medicina, que pude ter para mim esta filosofia suprema, de que o homem deve ser sempre bom, caritativo e agasalhador; que o homem deve olhar sempre para seu semelhante, ou seja branco ou preto, ou grande ou pequeno, ou homem ou mulher, ou celerado ou santo, abrigando-os, a todos, no manto da mesma ternura.
Se eu não tivesse sido médico, pouco mais, em qualquer caso, poderia ser do que tenho sido, poderia ser muito menos, mas, com certeza, seria uma coisa diferente, porque foi o exercício da minha profissão, foi o contacto com os meus doentes, foi o sentimento fraterno que me ligou sempre a eles, como de resto acontece a todos os médicos, que fez com que eu, na política da minha terra, tenha sido animado deste espírito de conciliação que me tem levado a querer concentrar todos os portugueses no laço da mesma disciplina, e ao mesmo tempo, conservá-los sob o mesmo amor carinhoso e fraterno.”
Saudou-o na ocasião Miguel Couto, para muitos, á época, o maior médico do Brasil, que teve rápida passagem pela política na condição de constituinte em 1934. Reportando-se ao homenageado, disse que nele foi o médico que traiu o político. “Não tivesse dilatados anos, em terras de África e lusitanas terras, convivido com o sofrimento, vendo-o todos os dias abater os presunçosos no seu orgulho e os nivelar aos pequeninos na sua humildade, e acompanhando tantas vezes, com aquela angustia que só nós conhecemos, o desengano dos recursos mais heróicos contra a inexorabilidade de tantos males, e evidentemente a certeza na fragilidade das cousas humanas não teria naquele ambiente de fausto e poderio lhe ocorrido ao pensamento.
O médico, continua, leva para todas as oportunidades da existência as características da sua profissão: a fé, a bondade, a ternura, o compadecimento, a simplicidade, a tolerância.”
A notícia da morte de Miguel Couto, tal como está em “Medicina e Cultura” – volume I, descreve-o como uma inteligência superior, cujo talento estendeu-se além da medicina para iluminar a política com o entusiasmo cívico que o caracterizou, tendo porfiado na constituinte em defesa da educação e da raça.
O Senador Mamora, anteriormente mencionado, prescreve aos médicos carregarem consigo para a política os honrosos princípios que lastreiam o exercício da medicina. Infelizmente não tem sido assim. Muitos tem se orientado para a política movidos pela ambição, a sede de poder e o desejo de se tornarem ricos. A maneira como buscam o voto, em colisão com a lei e o código de ética médica, não engrandece a profissão. São procedimentos assistencialistas, típicos de um coronelismo contemporâneo que não conhece limites na corrida eleitoral. Na ausência do estado, a medicina no passado, sobretudo nas aldeias, era um misto de clínica privada pobre e filantropia. Hoje a ação do estado alargou substancialmente a assistência à população embora os serviços estejam congestionados por uma demanda infindável. Isso tornou a benemerência na aparência, pois estes, não raro, são remunerados pelo Estado.
A lei eleitoral veda a captação de sufrágios em troca de bens ou favores pessoais. Nosso código de ética, em seu artigo 65, proíbe-nos de “obter da relação com o paciente vantagens física emocional, financeira ou política”. A laqueadura indiscriminada de trompas, os atendimentos favorecidos na cronologia e nos meios, a concessão de atestados médicos graciosos, em troca de votos, configuram infrações cometidas de modo abusivo ignoradas pelo costume, o uso tolerado e a leniência fiscalizatória. Está em estudo no âmbito do Conselho Federal de Medicina nova versão do código de ética que adapte a disciplina profissional às condições atuais nas quais o médico trabalha. Espero que seja mais incisivo ao tratar dos impedimentos éticos na barganha das eleições.
Necessário se faz que o médico sopese a decisão de tornar-se político, face o custo moral e a exigência da opção, que não traga a amargura do arrependimento tardio. Os percalços da vida pública afetam aos que a professam, em intensidade variável, mas a nenhum poupa. O travo desses acontecidos aflora escolhas pretéritas que surgem em desabafos como o de Manuel Vitorino quando atingido por ato injusto do desafeto no poder. É sua esta dorida anamnese: “o novo regime foi desgraçadamente buscar-me entre os meus livros e meus alunos. Relutei em deixá-los. Acreditei ou fizeram-me acreditar que poderia ser útil aos meus compatriotas. Triste ilusão!”
O antídoto contra as decepções políticas só pode ser o ideal que nos levou a exercê-la. A consciência do dever cumprido é que tranqüiliza a alma e faz suportar as adversidades. Por isso, que ninguém, médico ou não, se aventure na política a não ser impulsionado por um forte ideal. Aos médicos seduzidos pela política digo-lhes que atentem para o conselho de Virchow no fecho de seu histórico relatório sobre a epidemia de febre tifóide na Silésia: “A medicina imperceptivelmente nos levou para a área social e nos colocou em uma posição de confrontar os grandes problemas de nosso tempo.” Então valerá a pena pelejar na política por uma nobre causa, mesmo ao custo de padecer dos dissabores que ela acarreta.
* Palestra proferida por Lúcio Alcântara na abertura do XIII Congresso Brasileiro de História da Medicina, dia 12/11/2008, em Fortaleza.
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