quarta-feira, 3 de março de 2010

Mindlin

Perdi um grande amigo. E os livros também. Hoje eles choram letras de saudade.

Os livros esquecidos, os livros mortos, aos quais devolveu a vida para alojá-los nas prateleiras de confortáveis bibliotecas.

Os recém natos, que acolheu em preciosas coleções, preservando-os para o futuro.

José Mindlin foi um leitor precoce, um jornalista em trânsito, um advogado competente, um industrial avançado, um político sem mandato, que formou no pelotão de frente de um pequeno grupo de grandes empresários que lutaram pela redemocratização do país.

Um administrador da cultura e da tecnologia que se demitiu quando a orientação do Governo colidiu com os princípios da liberdade de expressão que sempre defendeu.

Com atuação marcante em campos tão diversos, será sempre lembrado por seus muitos feitos. Mas, irá prevalecer a imagem afável e bem humorada do bibliófilo ímpar, convertido à  loucura mansa (gentle madness) de que costumava falar.

Foi ainda autor tardio, que revelou numa prosa agradável episódios deliciosos de sua prolongada e íntima convivência com os livros.

Suspeito que tenha partido levando na algibeira sua última aquisição, a ser ressuscitada pelas mãos habilidosas de Guita, sua companheira no longo e frutuoso percurso aqui na terra.

4 comentários:

Célio Ferreira Facó disse...

Eis o milagre dos livros: conservar, imortalizar.

Tempos, épocas, cortes, reinados, povos, culturas, espíritos de época, homens, idéias, pugnas, batalhas, pensamentos. Ficam ali, entre capas, gravados e vivos. Para sempre.

Um passar de páginas e ressurgem, respiram, pulsam, correm, dão-se outra vez personagens e fatos e homens.

Infinitamente sucedem-se e voltam a suceder-se.

Retome-se, por exemplo, um volume de Cartas do Padre Antônio Vieira. Maranhão. Meados de século 17. Monarquia em Portugal, o rei D. João IV. É rever, escutar, sentir os índios atormentados, acossados, escravizados pelos portugueses. Vieira a impugnar os governantes locais, escrever ao Rei, pedir providências. Entradas tomam o caminho dos sertões. As preocupações da Coroa claudicante, ávida de celebrar a paz com Castela, que resiste. Eis tudo ressurge, retoma-se por uma página.

Abra-se, outro exemplo, Rumo à Estação Finlândia. Está ali, para sempre, Edmund Wilson a compor a gênese da tradição revolucionária na França e no Leste. Desde os utopista até a realização hercúlea, algo equivocada, de Lênin.

Fica um mundo em cada livro. Um homem, uma alma.

Que felicidade se se guardam livros. É como guardar, conservar idiomas, livrando-os do ocaso.

A biblioteca de Alexandria a arder é crime de lesa-humanidade, depois só ombreado com as guerras longas, o fascismo, o nazismo, a escravidão.

Fabio disse...

A literatura brasileira ficou mais pobre.
O Brasileiro ler pouco, é um péssimo hábito do nosso povo, Mindlin dedicou sua a vida na busca pela mudança dessa situação.
Abraço Dr. Lucio
Fábio Tajra

Lula disse...

Muito bom! Esse é o Dr. Lúcio que conhecemos, e que esperamos volte ao nosso convívio político, para contrapor aos terroristas de plantão e fortalecer os parcos quadros nacionais. Abraço, Lula.

Fernando Flexa disse...

"Lê" pouco mesmo,Fábio. Percebe-se.