terça-feira, 20 de novembro de 2007

São Jerônimo e o Livro


Palestra ministrada em 20/11/07, na Academia Cearense de Letras (sede do Palácio da Luz – Rua do Rosário, 1), durante o Ciclo de Conferências.

Meu tormento é comigo. Eu mesmo sou meu perigo.

São Jerônimo

Instado pela nossa dinâmica secretária Regina Pamplona Fiúza a colaborar com este curso, promoção de nossa Academia, elegi como tema de minha palestra a figura de São Jerônimo e sua relação com o livro, de modo especial. Receio ter feito uma escolha além da minha capacidade, tal a riqueza da vida deste santo, teólogo, doutor da Igreja, amante dos livros, tradutor, escritor prolífico, polemista, que gastou sua longa vida entre o deserto e os mosteiros, Roma e o Oriente. Mesmo assim estou certo de que servirá de introdução aos que fascinados pelo personagem desejem aprofundar conhecimento sobre sua vida e obra, e o tempo em que viveu. É para despertar o interesse pelo vulto grandioso que irei falar-lhes de modo breve sobre as três fases em que se dividiu sua vida, o período no deserto, a permanência em Roma, e a longa temporada em Belém, até sua morte.

Jerônimo nasceu em Strídon, na Dalmácia, hoje território da Croácia em 340, e faleceu em Belém em 420. Filho de família católica deslocou-se jovem ainda, para Roma, onde iniciou estudos de grego e latim e conheceu os clássicos que marcariam suas preferências literárias, Plauto, Virgílio e Cícero, entre outros. Começa aí a formação latina do eslavo em meio às desordens da juventude e a sedução das mulheres. Faz passeios freqüentes ao Coliseu e as catacumbas, que muito o impressionaram. É batizado com mais de vinte anos de idade. Decide empreender longa viagem em companhia do seu amigo Bonoso, indo à Gália, e depois à Treves (Trier), na atual Alemanha, onde floresce sua vocação religiosa despertada pelo convívio com anacoretas e cenobitas. Prossegue viagem em direção ao Oriente, reduto do monaquismo onde iria viver sua experiência essencial de isolamento e flagelação no deserto. Passa por Aquileia e Antióquia onde conhece e se deixa impressionar por Molco o eremita em quem vê sua figura futura.

Estabelece-se por fim no deserto da Calcídia, na Síria, no ano 373, onde vive como um asceta, lutando contra tentações que afugenta com penitencias e mortificações. Jejua e padece, auto flagelando-se, sendo conhecida representação sua brandindo uma pedra contra o peito. É nesse tempo de meditação e flagelo que trava sua luta interior entre a carne e o espírito, a sensualidade e a sublimação. Paralelamente, debate-se entre o amor aos clássicos e à leitura profana e o respeito aos livros sagrados, cujo estilo considera pobre e sem ornato. É quando, combalido pela prática continuada de sacrifícios, extenuado, doente tem o sonho, que revela em carta à Santa Eustáquia, “Ad Eustoquium”, que iria orientar definitivamente seus esforços para o conhecimento, interpretação e tradução da Bíblia e textos correlatos.

Vê-se diante de um Tribunal presidido pelo Deus de Israel como juiz inflexível a lhe indagar: “Quem, és? Um cristão, respondeu. Mentes, és de Cícero e não de Cristo”. E mandou açoitar-lhe impiedosamente até atender às vozes que se juntaram ao pedido de perdão do réu, implorando clemência, considerada sua juventude e propósito de emendar-se. Promete nunca mais por os olhos em uma página profana. Falou o santo. O artista permaneceu mudo. Seu encantamento pela cultura clássica influiu em sua obra o que o levou a justificar-se assim: “Se a sabedoria profana me encanta, é que duma escrava e duma cativa quero fazer uma filha de Israel.” A partir daí, diz-nos o santo, “Desde aquela hora me entreguei com tanta atenção e diligência a ler as coisas divinas, como jamais havia lido nas humanas”. Era o conflito que vivia entre o profano e o sagrado a necessidade de optar entre Cícero e Cristo, como se um inevitavelmente excluísse o outro. O duelo íntimo de Jerônimo não “era ser ou não ser, mas ser e não ser, Cícero e Cristo, o não e o sim”, na expressão feliz de Teixeira de Pascoaes.

O amor aos clássicos o acompanharia por toda vida. O inimigo Rufino quando denunciava suas falhas acusava-o de guardar consigo um códice de Cícero, considerada falta grave em um meio marcado pelo radicalismo religioso e as querelas teológicas. Aproveita a temporada no deserto para aprender o hebraico com um rabino, o que lhe permitirá mais tarde traduzir a Bíblia diretamente do original para o latim, a “vulgata”, assim chamada por ser a versão mais acessível, sua obra mais conhecida.

Na primavera de 378 regressa a Antioquia onde é ordenado Padre. Não desejava a ordenação, e só a recebeu sob a condição de não abdicar de sua liberdade de monge e escritor. A liberdade da solidão como a denomina Pascoaes.

Esquecido, distante dos amigos, desgostoso com o ambiente da cidade, o comportamento reprovável do clero, e as disputas religiosas, vaga por diversos lugares, inclusive Jerusalém, até chegar a Constantinopla onde realiza estudos com São Gregório de Nazianzeno. Daí segue para Roma, atendendo chamado do Papa Damaso que convoca o concílio ecumênico no esforço para pacificar e unir a Igreja. Faz dele seu secretário, investindo-o da púrpura cardinalícia.
Em Roma, regurgitante de gente vinda de muitos lugares a religião é o assunto dominante. O concílio fracassa no propósito de unificar as igrejas do Ocidente e do Oriente, e Jerônimo se destaca pelos estudos e as traduções que realiza a pedido do Papa, o combate inclemente ao clero corrupto, os escândalos, o luxo cortesão e a devassidão. Prega obstinado em defesa da virgindade, e assiste a matronas patrícias, piedosas e sábias, ensinando a doutrina e fazendo o proselitismo da vida monacal no cenáculo do Aventino. É em torno dele que se reúnem entre outras, Paula, suas filhas Blesila e Eustáquia e Marcela, mais tarde suas companheiras na aventura de Belém, fundando mosteiros na reclusão santificadora.

O comportamento arrebatado e contundente de Jerônimo lhe vale muitas inimizades e o torna alvo de críticas e infâmias que se exacerbam com o falecimento do seu protetor o Papa Damaso. Seu sucessor, Síricio, assume em meio a contestações de adversários que busca serenar afastando Jerônimo. Este, acusado pelos inimigos, entre outras coisas, de manter relações amorosas com suas discípulas, resolve retornar ao Oriente. Rejubilam-se os desafetos com sua partida. Jerônimo deixa Roma, que rotula de Babilônia, e vai em busca do seu destino, pois afinal é em Belém que realiza a maior parte de sua obra. Algum tempo depois, Paula, Eustáquia e outras ilustres donzelas seguem ao seu encontro, e antes de se fixarem em Belém, em companhia dele, percorrem a via dos peregrinos, viajam à terra santa, a Fenícia e a Síria. Chegam até o Egito. Paula e Jerônimo visitam celas dos mosteiros e luras dos eremitas.

Descrevem-nos como defuntos vivos sob a cruz, e ao lado de uma Bíblia sobre a pedra, e um leito no chão, de folhas secas. Emergem das cavernas feito bichos que encantam a Deus. Fixam-se definitivamente em Belém, onde graças aos recursos de Paula constroem dois mosteiros, uma torre para reclusão e uma hospedaria para peregrinos. Aí permanece até a morte, absorvido por seus estudos, escrevendo e traduzindo, ensinando aos jovens, assistido por Paula e Eustáquia, com quem dialoga e troca idéias. Concilia os dois amores, Cícero e Cristo. Fala aos rapazes, de Homero, Virgílio e Cícero, liberto do conflito da mocidade, por acreditar que a cultura clássica não prejudica a fé cristã. Descansa quando escreve, estuda, ora e medita, alimentado de ervas embebidas em leite e pão grosseiro. Discute, enquanto suas obras são lidas e comentadas, sobretudo em Roma. Longe de Roma Jerônimo manteve-se ligado à sede do império mediante intensa correspondência trocada com amigos. Preocupava-o a hegemonia de Roma sobre o mundo cristão e a integridade do império ameaçada pelos bárbaros. Chegou a indagar em uma de suas inúmeras cartas – “Quid salvum est si Roma perit”?, isto é “O que se salva se Roma perece”?. É taxado de pagão e herético, e de escrever só para mulheres. Procurado por muitos viajantes reclama dos visitantes que “obrigam-no a fechar a porta na cara, ou interromper meus estudos da escritura que nos manda abrir as portas.” Envolve-se em polêmicas e controvérsias religiosas, faz inimigos, trata com dureza os opositores, abusa da sátira “na frase ígnea que se abraça a um desgraçado e não o larga” (Pascoaes).

No fim da vida, quase cego, atormentado pelos perseguidores, viu o desfecho da polêmica que travou com o ex-amigo Rufino convergir numa onda de fanatismo pelagiano que incendiou mosteiros e interditou igrejas, levando-o a afirmar, “podem prender os pregadores da verdade mas a verdade não será vencida”. É a este homem, místico e combativo, dividido entre contemplação e ação, que orou na solidão do deserto e pregou no burburinho da cidade, que “aspirava o domínio universal da sua fé pela igreja romana, como aspirava à santidade fazendo de sua vida perpétuo ensaio da morte” (Pascoaes) a quem muito deve o cristianismo e a história do livro.

É da contribuição que deu para a confecção e difusão do livro que passarei a falar em seguida.
Trato em primeiro lugar do tradutor que foi, considerado por Douglas Robinson (in “Western Translation Theory), a propósito da carta número 57, “Ad Pammachium de optimo genere interpretandi” (A Pamáquio, o melhor método de tradução), ser este o documento fundador da teoria cristã da tradução. Considera-o ao lado de Cícero, Lutero, e Goethe, um dos mais influentes teóricos da tradição tradutora ocidental. E ainda o formulador de uma teoria pós ciceroniana da tradução que manda considerar o sentido do texto e não cada palavra de per si.
A carta de São Jerônimo a São Pamáquio é a resposta belicosa do autor, acusado por Rufino de haver deturpado o sentido e a forma de uma carta, que Epifânio, Bispo de Constancia (Chipre) enviara à João, Bispo de Jerusalém, buscando dissuadi-lo de uma heresia origenista. A pedido de Eusébio de Cremona, Jerônimo traduziu-a para uso exclusivo do solicitante. Dezoito meses depois, furtada, aparece publicada em Jerusalém desencadeando a acusação de Rufino, rival e ex-amigo. É na carta a Pamáquio que Jerônimo lança, defendendo-se dos ataques que sofria, chamado até de falsário, os fundamentos da sua teoria da tradução, resumidos na máxima “Non Verbum e Verbo Sed Sensu Exprimere de Sensu”.

É certo que admite exceção para o caso das sagradas escrituras, que devem a seu juízo ser traduzidas literalmente, pois a ordem das palavras configura um mistério. Reforça, com vários exemplos, a importância de captar o sentido das idéias, e não o sentido das palavras. “O que vós chamais de fidelidade, chamam-na os doutos mau gosto”, afirma categórico em certo trecho da mencionada carta. Desse dilema padeceram, e de certo modo ainda padecem, os tradutores, acusados com freqüência de traírem os originais (“tradutore traditori”, dizem os italianos). Pouco reconhecidos, sua divisa é servir, “sentam-se nos últimos lugares”, e que “seja Jerônimo aqui em baixo modelo deles e no céu seu protetor” (Larbaud).

Para ajudar os crentes no penoso ofício, propõe Valery Larbaud uma oração, fusão de palavras de Jerônimo, com parte da prece que lhe dedica a igreja a 30 de setembro data a ele consagrada. Eis o texto que invoca, o auxílio para o trabalho árduo do tradutor: “Doutor excelso, luz da santa Igreja, bem aventurado Jerônimo, vou empreender uma tarefa cheia de dificuldades, e desde já suplico-vos que me ajudeis por vossas preces, afim de que eu possa traduzir essa obra para o francês com o mesmo espírito no qual ela foi escrita.”
Em que pese a relevância da obra própria de São Jerônimo, como veremos adiante, o reconhecimento mais amplo viria da sua atividade como tradutor, particularmente da Bíblia, na versão conhecida como “vulgata”.

Fê-la por encomenda do Papa Damaso, para o latim, diretamente do hebraico. Isso facilitou sobremodo o acesso do povo ao texto sagrado, por mais compreensível, além de dar contribuição decisiva à unidade de Igreja, sob a hegemonia romana. De fato, dividida por querelas e controvérsias religiosas, alimentadas em parte por diferentes versões da Bíblia, a Igreja viria a se expandir e a construir a civilização ocidental cristã sobre o alicerce colocado por São Jerônimo. Roma que fizera o estado, fez a Igreja Contestada de início, a “vulgata” viria a se impor sobre as demais versões, particularmente a “itala, ou vetus romana”, e a chamada “septuaginta, ou dos setenta” traduzida do grego. Para a elaboração da chamada “vulgata”, cujo reconhecimento litúrgico deu-se no Concílio de Trento por decreto de 8 de abril de 1546 como a mais amplamente divulgada foi-lhe de grande valia a Hexapla compilação comparativa da Bíblia feita por Orígenes.

Tomando todas as versões Jerônimo terminou por renovar quase por completo o texto primitivo. Essas distintas versões provinham de fontes secundárias, geralmente gregas, contraditórias, focos de cismas e heresias doutrinárias. O mérito da “vulgata” ultrapassou os limites da religião, para influenciar de modo inquestionável a formação de todas línguas ocidentais. Curioso é que Lutero, muitos séculos depois, acusado de erros na tradução das escrituras para o alemão, defendeu-se afirmando ter se utilizado no trabalho do método de Jerônimo. Apesar de dizer, ser ele, entre todos, o que mais odiava.
Posto, creio de modo insofismável, a importância de Jerônimo ao estabelecer as bases da técnica da tradução é hora de debruçarmo-nos, ainda que de modo superficial sobre sua obra, não menos valiosa, o processo empregado na sua elaboração, e a maneira como se difundiu a partir

de Belém onde a produziu na maioria.

A obra de autoria de São Jerônimo está constituída por cartas, são conhecidas 154, que enviava a amigos e autoridades eclesiásticas, versando temas doutrinários e comentários bíblicos, biografias (A vida de São Paulo eremita, A vida de Malco) e prefácios a livros sagrados. Editorou 64 Homilias de Orígenes e a “Crônica” de Eusébio está organizada em três partes: tradução, notícias de outros autores e comentários dele próprio. Foi por certo o maior editor de texto de sua época (E.F. Sutcleffe – “The name of Vulgata in A construção do livro” – Emanuel Araújo).

As cartas, aliás, epístolas, pois carta era termo reservado ao suporte, e epistola ao conteúdo, são a parte mais importante do seu trabalho. É impressionante constatar como em condições tão precárias, foi possível produzir tantos textos, e difundi-los de tal modo tenham sobrevivido até hoje. Isso só se conseguiu graças a uma estrutura de colaboradores formada por auxiliares, na fase de elaboração do livro, e na sua difusão a partir dos amigos situados em posições hierárquicas e geográficas estratégicas. Nesse aspecto é bom lembrar a inexistência de livreiros e processos de comercialização. A reprodução de cópias pelos interessados nos assuntos tratados, aliada a preocupação dele em municiar Roma com seus escritos, ajudou a consolidar textos canônicos que garantiram unidade doutrinária, instituíram dogmas e fizeram a igreja crescer sob a égide romana. Está ai um exemplo de eficácia do anacronismo. A tese de D. Paulo Evaristo Arns defendida junto a Sorbonne, em Paris, sob o título, “A técnica do livro segundo São Jerônimo”, recentemente publicada em segunda edição pela editora Cosac Naify traz minucioso estudo sobre a história do livro na antiguidade (séculos IV e V) e a participação do santo no contexto de sua elaboração, vistas as diferentes etapas do processo. Tudo se iniciava quando ele ditava aos taquígrafos, chamados notarius, que anotavam tudo, usando os “puncta”, um sistema arbitrário de sinais, úteis para captar adequadamente sua fala. A preferência pela oralidade deve-se a pressa com que trabalha e a sobrecarga de tarefas de que se incumbe. Ainda que reconheça “a diferença entre a audácia repentina do ditado, e o esforço meditado da redação, como está no prólogo do “Comentário a São Mateus”. Tem-se como certo que raramente escrevesse, ele próprio, seus textos. Sucedem na faina, aos taquígrafos, os copistas, responsáveis, após correções, pelo produto final. Natural, que num processo tão artesanal não faltassem erros. Para que se tenha idéia da possibilidade de interferência do copista no processo de elaboração dos textos reproduzo anedota ilustrativa do assunto. Conta-se que Maomé ouvia a palavra de Deus e ditava aos seus escribas.

Um dia, quando ditava a Abdullah, hesitou, interrompendo a frase ao meio: instintivamente, o escriba sugeriu-lhe o final da frase e Maomé, distraído, aceitou a emenda como sendo a palavra divina. Este fato escandalizou Abdullah, que abandonou o profeta e perdeu a fé. Sobre o episódio o escritor Ítalo Calvino diz ter faltado ao escriba a fé não em Deus, mas na escrita, e em si mesmo, como operador da escrita. Advertindo-os chega a ameaça-los com o juízo final. “Tu que transcreverás este livro, eu te conjuro em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, e de sua volta gloriosa, na qual virá julgar os vivos e os mortos: confronta o que tiveres copiado, e corrige com muito cuidado no exemplar em que tiveres escrito.”

Sobre o estilo de Jerônimo propriamente, cumpre destacar a veemência, o sarcasmo, a palavra implacável, o uso de opiniões alheias em apoio à sua, às vezes indistinguíveis de seu texto pessoal, o que o levou a ser considerado um grande plagiário que preservou do esquecimento autores e obras. Lembra Cícero nas Catilinárias, na contundência e no furor personalistas, mas enquanto este se conduz com superior isenção o que lhe confere grandeza moral no cumprimento dos deveres, Jerônimo, ao contrário, na polêmica com Rufino não se dirige diretamente a ele, mas o faz através de Pamáquio e Marcela. Cícero esmaga com a força política, e do cargo, que lhe garante segurança e autoridade frente ao seu oponente Catilina. O outro, em posição mais vulnerável, busca se firmar como o defensor da ortodoxia católica, das verdades da fé cristã.

Terminada a obra, cumpria editá-la, o que deve ser entendido como divulgá-la. O que significa expô-la a adulterações por lapsos de copistas, ou intencionais, para atender a propósitos ideológicos. Preocupado com a fidelidade dos textos, Jerônimo, adota o comportamento cauteloso de enviá-los a amigos e irmãos, nos quais confia, para a propaganda e disseminação. Mostra-se intolerante com seus algozes que o inquinam de pagão, herético, e maliciosamente, de escrever só para mulheres, alusão às suas seguidoras, focos de irradiação de suas idéias a partir de Roma e Belém. Pede aos amigos, “Lede-me, mas salvai-me do público. Não suporto a censura dos impotentes”.

É conhecida a importância que empresta aos prefácios, em geral elaborados após concluído o trabalho, espaço para suas justificações e a descrição do processo por ele utilizado na feitura da obra. Já no encerramento do livro, “in fine librorum”, era costume dos judeus aporem “sela”, ou “salom”, que quer dizer a paz, ou pacífico. E os latinos fecharem o texto com “explicuit” ou “feliciter”. Naquela época como hoje, o momento de dar graças a Deus por ter concluído a tarefa. O amém, que entrou nos costumes cristãos, pode figurar em qualquer parte em toda obra.

Exemplo disso são os evangelhos. O termo “líber” parece corresponder a uma unidade de extensão indeterminada mas tanto para Santo Agostinho como São Jerônimo podia designar uma obra inteira que exigia vários rolos. Neste sentido afirma que o “livro permanece quando os homens já passaram”. Recomenda ao monge “para escrever livros”, e adverte: “que o livro jamais se afaste de tuas mãos e de teus olhos”, para evitar erros e omissões. A autenticidade da obra era dada pela assinatura, muitas vezes ausente nos textos de Jerônimo, fosse pela pressa com que trabalha, ou esquecimento dos copistas, era dada ao término do livro por final autógrafo, “após o ditado o amanuense relia a carta, voz alta, e depois o autor, de próprio punho, acrescentava um final” (Bruyne, em “São Jerônimo e a técnica do livro”, D. Paulo Evaristo Arns, 2ª edição, Editora Cosacnaify p. 170). Outra forma de autenticar o texto era o uso do “anulus signatorius” empregado por Jerônimo, técnica que lhe era familiar desde Roma.

Se no Brasil pouco se tem publicado sobre São Jerônimo no mundo a bibliografia sobre ele não para de crescer. Erasmo de Rotterdam (1469 – 1536) organizou a primeira grande edição de sua obra em nove volumes in folio, Basiléia, 1516-1520, falha quanto à cronologia, útil porque ajudou a distinguir obras autênticas de apócrifas. Dele chegou a dizer quanto extensa era sua erudição a propósito do seu valor como humanista. (in “A incrível atualidade de São Jerônimo”. Jornal da Tarde, 10/04/97, José Mário Pereira). Sua personalidade fascinante inspirou poetas, escritores e estudiosos tendo sido ainda um dos santos mais retratados. Pintaram-no entre outros, Lorenzo Lotto, Guido Reni, Caravaggio, Tintoretto, Piero de La Francesca, Leonardo da Vinci, Botticelli, Dürer, Rembrandt, Zurbaran e Ribera, imortalizando-o com sua arte, no deserto ou no estúdio, junto aos livros e a caveira, símbolo da efemeridade da vida, e o leão domesticado, o anacoreta semi-nu, ou o doutor máximo da igreja em trajes cardinalícios.

Dezesseis séculos depois, o estudo da vida e da obra desse homem notável, bem assim das circunstâncias em que viveu, permite-nos conhecer a implantação dos fundamentos da civilização ocidental cristã e etapa importante da evolução da escrita, do livro, e da leitura. Este místico enlevado e asceta torturado, como o chamou Teixeira de Pascoaes, que viveu entre a sensualidade acesa pelo corpo e a excitação dos sentidos, e a imolação pela penitência, como oferenda a Deus em remissão dos pecados e fortalecimento da fé, deu-nos o exemplo da conciliação entre a cultura clássica, leiga, e os estudos sacros. A vida em Roma, entre palácios e dignatários da cúria, e a solidão do deserto, fonte de inspiração, seu “paraíso de luz” como o chamava. Foi aí onde se encontrou “fora dele, ou no mar alto como Camões, ou no deserto como João, ou na estepe nevada, como Tolstoi, e até no meio do caminho como Paulo”. Sim, “o nosso espírito alimenta-se nas coisas do ausente e do abstrato, e divaga no último distanciamento, tocado dum esplendor divino”. Assim concebeu Teixeira de Pascoaes, “a imaginação, essa mulher, tocando-o para iluminá-lo”.

Tradutor da “vulgata”, obra de mestre, fonte da unidade do cristianismo, até então dilacerado por heresias e controvérsias nutridas por fontes diversas de doutrina, dividido pela disputa entre ocidente e oriente, Roma e Constantinopla, por mil anos sua leitura orientou a consolidação e expansão da Igreja.

Desempenhou papel importante na evolução da escrita, na transição do estilete para o cálamo, do papiro para o pergaminho, do livro de rolo para o “códice”, tornando mais cômoda a leitura, e menos penosa a tarefa sem fim de fazer livros, prevista no eclesiastes. O “códice” substituiu o “volumen”, que sendo a forma pobre do livro é bem aceita, colabora para a recepção do povo à Bíblia, tornando-se a forma preferida para leitura de padres, bispos e monges, o que explica o desenvolvimento da literatura cristã.

Desta personalidade multifacetada de teólogo, escritor polemista, gramático, filólogo, retórico, ressalta para a posteridade a contribuição fundadora para a teoria da tradução, preocupada com a fidelidade às idéias, sem incorrer na tentação literal, que fustigou reiteradamente com o látego do verbo de fogo, filho do seu temperamento indomável. Por todos esses atributos foi feito patrono dos bibliófilos, livreiros, editores, tradutores, bibliotecários, ou como sugere Larbaud, de todos os homens de letra, ou ainda em síntese, de todos os humanistas.

Sem perder a atualidade, São Jerônimo nos lega a lição do amor aos livros, do estudioso incansável, da prospecção e estudo comparado. Dos textos para a construção da doutrina canônica, da busca da verdade, da harmonização entre o saber profano e a cultura cristã, a conciliação entre intelectual sofisticado e o asceta, o mundanismo da Roma corrompida e a solidão do deserto na companhia de bestas e escorpiões. Por fim nos ensina a hermenêutica da tradução, o método do ofício, que até o século vinte subsistiu como tema de continuada discussão.

Ao entreabrir-lhes a porta para o conhecimento deste homem extraordinário, na sua tríplice dimensão de santo, tradutor e escritor, ensejo-lhes a ocasião de descobrirem nele, na conclusão feliz do jornalista João Batista Natali (“Folha de S. Paulo”, 23/11/93) bem “mais que um pretexto que o cristianismo fornece na antiguidade para se compreender a palavra escrita e a técnica para sua difusão”.

3 comentários:

Célio Ferreira Facó disse...

Grandes CONSTRUTORES, empreendedores pragmáticos são os HOMENS DE FÉ. Jamais abandonam o esforço terreno e a labuta diuturna pela simples expectativa do milagre. De ver, entre tantos, o exemplo de Madre Teresa de Calcutá, a agir mesmo quando a assaltava a dúvida, a interrogação filosófica. É o que se entende de uns escritos seus, agora publicados. Surpresa, quase espanto têm sentido muitos ante a leitura deles. Porém não faltaram jamais a Madre Teresa a responsabilidade social e a ação benévola. Além da virtude da fé. A Razão a fazia refletir, questionar. Tal só a engrandece! Estes escrutínios filosóficos, contudo, não a afastaram nem uma vez do amor do próximo e da ação beneficente, benfazeja. Não se negou jamais ao grande rebanho da humanidade. Sua dedicação permanente não vacilou ante o pensamento livre, antes contribuiu para afastar de muitos a solidão, mitigar-lhes a dor. São assim os grandes espíritos. O mesmo exemplo dá-nos São Jerônimo. A par da fé, dedicou-se a intensíssima vida literária, cujos frutos cedo colaboraram para a erudição, os estudos, as artes. E numa época em que ainda era preciso inventá-los. Vendo-o agora, à distância histórica, em meio aos muitos recursos novíssimos das comunicações atuais, espanta-nos que tudo conseguisse a partir da precariedade daqueles tempos. Já se disse, porém, que os gênios, pelo labor incansável, transformam as adversidades em possibilidades, vitórias.

Barros disse...

Infelizmente, perdi a palestra que o senhor proferiu na Academia Cearense de Letras. Felizmente temos a oportunidade de lê-la neste blog. Parabéns pela lucidez da abordagem.
Barros Alves

Rick Steindorfer disse...

Os grandes estudiosos das coisas da alma, sabem o poder que tem o sentimento e a sua expressão. O homem, muito mais que o santo, sofre por tremular diante das incertezas da vida. São Jerônimo, o grande entusiasta das causas religiosas, o estudioso do universo das leis sacrossantas, conhecia também a força e o poder do espírito que liberta, alcança no pensamento a ciência e nos mostra a verdade. Muito boa a sua explanação sobre o tema Santo de São Jeronimo!