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segunda-feira, 1 de março de 2010

Entrando nos trilhos


"Metrô do Cariri" - O VLT que anda nas linhas da RFFSA no Ceará: por fora, parece um trem europeu; por dentro, é igual a um ônibus

Leonardo Coutinho

Nos últimos 25 anos, grandes cidades brasileiras cogitaram adotar veículos leves sobre trilhos (VLTs) para resolver seus problemas de transporte coletivo. Netos dos velhos bondes, os VLTs são um misto de metrô e ônibus, com a diferença de que custam a metade do primeiro e transportam quatro vezes mais passageiros que o segundo. Há dois anos, os projetos de implantação do sistema começaram a sair do papel no Nordeste. Desde dezembro do ano passado, os VLTs trafegam no sertão cearense, nos 14 quilômetros que ligam Crato a Juazeiro do Norte. Recife, Fortaleza e Maceió estão adaptando suas malhas ferroviárias e têm VLTs já em linha de montagem. João Pessoa e Natal iniciarão as obras de seus sistemas ainda neste ano. No Nordeste, o custo de implantação do novo modelo de transporte é reduzido, porque os comboios vão circular sobre linhas que pertenciam à Rede Ferroviária Federal (RFFSA) e que estavam subutilizadas ou abandonadas. No litoral paulista, Santos construiu novas vias e deverá colocar o VLT para rodar ainda neste ano.

A Copa de 2014 deu o impulso que faltava ao VLT. Todas as doze cidades-sede incluíram esses veículos em seus planos para o campeonato. Em São Paulo, o novo sistema terá duas funções: ligar o Aeroporto de Congonhas ao Estádio do Morumbi e conectar algumas linhas do metrô, como ocorre em Paris. Até o início dos jogos, o Brasil investirá 23 bilhões de reais em trens urbanos - com o VLT à frente. As indústrias ferroviárias já receberam encomendas de 120 veículos e disputam licitações para montar outros 200. O mercado é tão promissor que o gigante francês Alstom, detentor de 26% do mercado mundial de trens, passou a cogitar abrir, no Brasil, uma unidade para fabricá-los. "Se as perspectivas se confirmarem, abriremos a nova planta", diz Philippe Delleur, presidente da Alstom no Brasil. Desde 2008, uma empresa nacional explora o setor: a cearense Bom Sinal. Foi ela a primeira a produzir VLTs próprios para as linhas da RFFSA. Seus vagões são uma versão mais barata dos similares europeus: por dentro, são idênticos a um ônibus urbano, mas custam 40% menos que um veículo importado. Por causa das condições vantajosas que oferece, a Bom Sinal já recebeu encomendas de 69 vagões e pedidos de orçamento de cinquenta prefeituras. Com os VLTs, o país poderá voltar aos trilhos de um transporte eficiente.


Matéria publicada na revista Veja, Edição 2153 / 24 de fevereiro de 2010

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Acidentes

A média de acidentes envolvendo a frota da polícia, motos e carros, é de três por dia.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Trem


O governador do Estado inaugura hoje o Trem do Cariri, que ligará as cidades de Juazeiro e Crato. Uma excelente notícia. Um grande avanço no transporte ferroviário urbano de passageiros no interior do Ceará.

O evento de hoje já poderia ter acontecido há mais tempo, não fora o atual Governo ter interrompido as obras, tão logo se instalou. A interrupção obedecia a uma estratégia para fazer esquecer a autoria da iniciativa e trocar o nome para Metrô do Cariri.

Com efeito, a ideia surgiu no meu Governo, tendo sido desenvolvida no âmbito da Secretaria de Infraestrutura, sob a coordenação dos engenheiros Luis Eduardo Barbosa de Morais e Rômulo Forte.

Concluído o projeto, fez-se a licitação para fabricação do trem e obras da via permanente.

Coube à empresa Bom Sinal, instalada em Barbalha, construir os trens, dando início ao embrião de um polo industrial ferroviário naquela cidade, capaz de atender demandas futuras a partir do êxito do projeto, que é funcional e tem baixo custo.

O interesse que despertou, desde o começo, entre os interessados na solução dos problemas de mobilidade urbana, prenuncia que nossa experiência possa servir a outras cidades.

Do ponto de vista institucional, cuidei de alterar a lei que instituiu a empresa responsável pelo Metrofor, para estender sua abrangência operacional ao interior do Estado. Determinei ainda, à época, realização de estudos para implantação de sistema semelhante no município de Sobral.

Alegro-me com a conquista da população das duas cidades, certo de haver dado contribuição fundamental para que o antigo sonho do retorno do trem de passageiros se convertesse em realidade. (Foto: DN/Antônio Vicelmo)

sábado, 10 de outubro de 2009

Caminhões

Afinal, uma medida eficaz em relação ao trânsito caótico de Fortaleza. Eficaz porque razoável e viável.

Falo da restrição à circulação de caminhões com o fito de desafogar o trânsito. A AMC vai proibir, em até 45 dias, a circulação de caminhões de carga e descarga em avenidas de grande movimento de 6 às 20h.

Depois de muito blá-blá sem pé nem cabeça, surge uma medida de bom senso que já deveria ter sido adotada há mais tempo.

Aliás, neste espaço havia elogiado projeto de lei apresentado pelo vereador Salmito, com indêntico objetivo. Coisa semlhante já acontece há tempos em outras cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo.

Saiba mais no Diário do Nordeste, edição de 09/10/09.

sábado, 4 de julho de 2009

Carro de Goela Abaixo? E Sem Calçada?


Abaixo, reproduzo o que o artista plástico Hélio Rôla chamou de "lamento sócio-ambiental", enviado por ele à Ouvidoria do DER, por conta do alargamento da Avenida Washington Soares na altura da Casa de José de Alencar.

Conforme externei minha intenção ao telefone, acho que no dia 22/06/09, estou a lhe enviar, para apreciação desta Ouvidoria, uma denúncia veemente contra a irrefletida e impensada remoção total de cerca de 50 metros de uma calçada para o alargamento da Av. Washington Soares. Isto em frente a um Kartódromo que não sei o nº mas que é visinho à Casa José de Alencar, de nº 6055, na dita Avenida. A remoção dessa calçada é um verdadeiro acinte à cidadania e à segurança de todos que por ali transitam, principalmente os alunos e alunas, todos eles crianças e adolescentes, de uma Escola Pública Iracema- próxima dali.

Não há atenuantes para esse atentado à segurança das pessoas nem explicação técnica que justifique que esses alunos e outros transeuntes, SEM CALÇADA, sejam forçados a caminharem no asfalto correndo o risco de serem atropelados pelos carros que em alta velocidade por ali trafegam. Deus nos livre! Até houve, da parte da Casa José de Alencar, me informei, quem ao perguntar sobre "a tal obra viária" ao engenheiro que se dizia responsável por ela e que foi mal atendido, pois, dizia ele, o "engenheiro", que não tinha satisfação nenhuma a dar a ninguém.

O que estava feito estava feito e pronto...Vejam só! É lastimável que um órgão Público como o DER tenha planejado e executado tal obra na "marra" e sem consultar a ninguém ou a qualquer instância da vizinhança. Não há explicação para tanto, pois a remoção arbitrária da dita calçada não passa, sem dúvida, de um ato criminoso atual e potencial. Lamentaremos nossas desditas em vão? Será que as leis que norteiam a segurança do viver humano, aqui na nossa cidade, não comovem nem movem o DER a visitar o local e, com juízo técnico e consideração pela vida humana, reconhecer que tem que devolver a calçada aos seus transeuntes?

Queremos a calçada de volta, para tanto faremos o que for devido...cuidaremos de uma movimentação da vizinhança para consubstanciarmos essa manifestação de desagrado com uma Abaixo-Assinado...a partir das pessoas atingidas e revoltadas com tal obra do DER. Se preciso for iremos aos jornais e às televisões, não é para menos...

Saudações da parte do Francisco Hélio Rôla
morador da Lagoa Redonda

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Buracos

As estradas e as rodovias de Fortaleza estão cheias de buracos.

De dimensões variadas e origens diversas, infernizam a vida dos que precisam se deslocar em transportes próprios ou públicos.

O buraco na via pública nivela a todos, sem distinção de condição econômica ou classe social.

Agora, fomos surpreendidos por uma forma nova de buraco: o buraco útil.

Pelo menos para os presos que escaparam de cela no prédio da Superintendência de Polícia Civil, localizado no centro da cidade.

domingo, 7 de junho de 2009

Tráfego

O vereador Salmito Filho (PT-CE), presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, vem de apresentar proposta relacionada ao trânsito urbano, merecedora de atenção.

O projeto de lei complementar nº 006/09, restringe a circulação de veículos pesados na área urbana no período de 6h às 21h, durante a semana e aos sábados, no intervalo entre 10h e 14h.

Está aí uma contribuição importante para alimentar o debate em torno de ideias para minorar o caos em que se transformou o trânsito em nossa cidade.

Leis semelhantes já vigoram em cidades brasileiras como Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP).

Saiba mais no Diário do Nordeste, edição de 05/06/09.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Falta de senso

O congestionamento de veículos devido ao bloqueio do tráfego que ocorreu na BR 222, é o resultado da falta de bom senso da direção do Departamento de Estradas de Rodagem (DER).

Se não, vejamos:

Uma ponte da BR 222, cuja estrutura havia sido comprometida, se encontrava escorada para dar segurança ao trânsito dos carros até que fosse reparada. Com as fortes chuvas caídas na região de Itapajé, o escoramento foi arrastado, impondo-se como medida de segurança a interrupção do tráfego.

O DNIT local, responsável pela estrada, solicitou ao diretor do DER que autorizasse os veículos a transitarem pela rodovia estadual, para que o trânsito pudesse fluir.

Alegando norma que impede a passagem de veículos de grande tonelagem pelas rodovias estaduais, o DER negou a solicitação, embora o pedido fosse apenas por 24 horas.

A norma invocada data do meu governo, e tem por fim a proteção de nossas estradas, cujo pavimento não suporta caminhões de grande peso.

Mais tarde, com o caos instalado, foi autorizado o desvio para a rodovia estadual.

A realidade venceu a má vontade e a falta de senso, isso depois de longa espera e muito desconforto dos motoristas.

domingo, 29 de março de 2009

Rodízio

Diante do caos instalado no trânsito de Fortaleza, tem se falado ultimamente na implantação do rodízio de veículos, como meio de amenizar o problema.

O Ministério Público cogitou da medida e desencadeou o debate sobre sua adoção. A iniciativa, neste como em outros assuntos, encontra respaldo na lei e justifica-se face a omissão da Prefeita diante de questões que comprometem gravemente o funcionamento da cidade.

Pondero que o rodízio é medida extrema, cujo emprego só se justificaria se esgotadas outras medidas de engenharia e disciplina de tráfego.

Recorrer ao rodízio, de modo precipitado, em uma cidade sem um sistema adequado de transporte de massa, pode ser uma atitude temerária. A proposta tem o mérito de estimular o debate sobre o tema, despertando as autoridades responsáveis para sua importância.

Prudência parece ser a conduta mais recomendável diante da sensibilidade da solução apresentada.

Saiba mais no Diário do Nordeste, edição de 25/03/09.

terça-feira, 17 de março de 2009

Multas


A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC), da Câmara dos Deputados (CD), aprovou projeto de autoria do deputado Leo Alcântara (PR-CE), convertendo em advertência escrita as multas por infrações leves previstas no Código de Trânsito.

A medida só se aplica aos motoristas que não tiverem cometido nenhuma infração nos últimos doze meses.

O projeto segue agora para ser apreciado pelo Senado Federal (SF).

Para conhecer a matéria na íntegra, consulte o blog do deputado.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Lusas II

1. Carteiristas
Viajando nos transportes públicos de Lisboa, leio o aviso cuidado com os carteiristas! Enquanto não chego ao destino, fico pensando: se quase ninguém mais usa carteira de cédulas, que esta seja uma profissão em extinção.

2. Carmen Miranda
O dia 9 de fevereiro marcou o centenário de Carmen Miranda. Portuguesa de Marco de Canavezes, levada para o Brasil aos dezoito meses de nascida, foi a primeira artista latino- americana a fazer sucesso nos Estados Unidos. Diz-se ter sido, à época, a atriz mais bem remunerada naquele país.

Acusada no Brasil de americanização, sempre lembrou que continuava a cantar em português. Nunca se recusou a receber brasileiro ou português, contrariando ordens do seu empresário, que a procurasse em seu camarim.

Faleceu aos 46 anos devorada pela fama, barbitúricos, amores e as tensões da carreira. Deixou suas mãos impressas na calçada fama de Hollywood, e é nome de rua em Los Angeles. Além de Aurora, que também cantou e fez filmes, tinha outra irmã, Olinda.

Segundo Ruy Castro, biógrafo de Carmen, esta, com o mesmo espírito descontraído de Carmen, era mais bonita e tinha melhor voz. Tuberculosa, foi enviada para Portugal, onde veio a falecer no sanatório do Caramulo, aos 23 anos. Teria sido ela a ensinar a irmã, a música e a faceirice que a fizeram famosa.

Era o destino a traçar os caminhos de Carmen. Jornais e televisão portugueses deram grande espaço ao centenário de nascimento da artista. A Cinemateca vai promover um ciclo de exibição de seus filmes. E em sua terra natal, além das comemorações aniversárias, implanta-se um museu em sua memória.

Saiba mais no Diário de Notícias, edição de 07/02/09.

3. Goya
A tela O Colosso, exposta no Museu do Prado, em Madri, onde está desde 1931, atribuida à Goya, teve esta autoria descartada, a partir de pesquisas realizadas por peritos, desde junho do ano passado. Uma das descobertas, foi a presença das iniciais A J no canto inferior esquerdo do quadro. O autor poderia ser Asensio Juliá, principal discípulo de Goya.

O Prado insiste em não assegurar a identidade do pintor da obra, pintada entre 1808 e 1812. Ao chegar ao Prado, foi logo tida como expressão máxima do Goya moderno, embora diferisse, em termos, de estilo e tema do restante de sua obra.

Se você, caro leitor, teve a felicidade de ir ao Prado, e se deslumbrar diante dela, não deixe de admirá-la por se ignorar seu autor. O anonimato não lhe subtrai a beleza.

Saiba mais no Diário de Notícias, edição de 27/01/09.

4.Violência
O Brasil pode ter acrescentado mais um item à lista de produtos de exportação. A polícia portuguesa suspeita de que um dirigente da organização criminosa Primeiro Comando da Capital, foragido de uma prisão de São Paulo, esteja em Portugal para implantar o Primeiro Comando de Portugal.

Brasileiros ilegais têm sido detidos na busca de identificar-se o marginal. O alerta foi dado pela Interpol e Europol. As polícias dos dois paises trabalham em conjunto para esclarecer o caso.

Saiba mais no Diário de Notícias, edição de 10/02/09.

5. Universidades Portuguesas
Segundo o Ranking Web das Universidades do Mundo, feito pelo Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), da Espanha, as universidades do Porto e do Minho estão entre as 300 primeiras do mundo. Na 271ª e 300ª classificações, respectivamente.

O critério classificatório considera as atividades científicas e a visibilidade que cada instituição alcança em face delas.

Saiba mais no Diário de Notícias, edição de 10/02/09.

6. Automóveis
Desde que saiu da linha de montagem, em 1908, o primeiro Ford T, o automóvel se associou indissoluvelmente à cultura americana. O fascínio deste ícone do século expandiu-se daí para o mundo, mas foi na matriz que se infiltrou, definitivamente, na cultura contemporânea.

Personagem assídua nos filmes, na música, na literatura, cenário de colóquios amorosos de adolescentes sôfregos, o automóvel entranhou-se de tal forma na vida cotidiana, que já não queremos deixá-lo para ver filmes, comprar hamburgueres ou sacar dinheiro em caixas eletrônicos. Para isso, inventaram-se o drive-in e o drive thru.

Virou objeto do desejo, a ser cavalgado na vertigem da velocidade, condenada a imobilidade no trânsito enfartado das grandes cidades ou a ataúde dos espatifados em corridas alucinadas.
É a morte que imortaliza. Vide James Dean e Airton Sena.

Modelos famosos tornaram-se objetos de culto, símbolos de poder, beleza, exemplos de desenhos industriais marcantes.

Pela primeira vez, a pátria do automóvel perdeu o posto de maior mercado mundial de carros. Em janeiro deste ano, os chineses compraram mais carros que os americanos. Foram 650 mil contra 790 mil.

Saiba mais no Diário de Notícias, edição 10/02/09.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Marrocos II

Casablanca é uma grande metrópole, com mais de 5,0 milhões de habitantes, e um trânsito caótico que, no entanto, funciona.

Do ponto de vista turístico, pouco nos é mostrado. O foco está dirigido para as antigas cidades imperiais. O destaque vai para uma mesquita de construção recente, a Hassan II, que rivaliza em tamanho com a de Meca.

Assemelha-se, de modo geral, a qualquer grande cidade ocidental. Foi a Casa Branca dos Portugueses, a Casablanca dos espanhóis, e depois dos franceses, a influência européia mais presente no País. É o grande centro econômico do Marrocos.

Tornou-se conhecida e um tanto mítica, como um centro de espionagem durante a Segunda Guerra Mundial, além de ter sediado, neste período, uma conferência que reuniu Churchill e Roosevelt. Não esquecer que algumas das maiores batalhas travadas entre os alemães e os aliados tiveram por palco o norte da África.

O filme, que se tornou cult, Casablanca, com Humprhey Bogart e Ingrid Bergman, ajudou a divulgá-la no mundo, construindo uma imagem romântica em torno dela. No pouco tempo em que permanecemos na cidade, busquei vestígios do filme, tendo o porteiro do hotel me falado de um certo Rick Café, que fiquei de visitar no meu retorno da excursão.

Desisti da idéia após o guia me ter dito que ali nada havia de interessante, e que a película fora filmada inteiramente nos estúdios de Hollywood. De Casablanca mesmo, só havia o nome. Foi um choque e uma decepção para mim. Gostaria de confirmar a informação com algum cinéfilo, conhcedor do assunto.

A realidade chegou pela palavra burocrática do guia, que desfez, em minutos, um sonho de anos.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Degradação

Ontem à noite, domingo, 7 de dezembro, entre 19h30 e 20 horas, ao me deslocar para a Praça do Ferreira, com o objetivo de assistir ao show do lançamento do CD do Ricardo Alcântara, fui surpreendido com um mega congestionamento de trânsito em torno da Catedral Metropolitana de Fortaleza.

O tráfego não fluía de modo algum. E muitos veículos estacionavam, em fila dupla, obstruíndo completamente a circulação.

Só consegui chegar ao destino depois de muitas voltas, para escapar da enorme confusão que imobilizou ônibus e automóveis.

Enquanto aguardava o início do espetáculo, dei um passeio na citada Praça para admirar a decoração natalina.

Fiquei chocado com a imundície reinante e a degradação daquele tradicional espaço urbano, coração histórico de Fortaleza.

Se a nossa Prefeita der uma voltinha, de surpresa, ali, tenho certeza que irá se sensibilizar com a situação. E dará um jeito de melhorar o ambiente.

domingo, 28 de setembro de 2008

Flashes

- O Secretário de Cultura do Ceará, Auto Filho, anuncia campanha junto às empresas, para que instalem bibliotecas em suas dependências.

- O Itamaraty criticou as novas medidas adotadas pela União Européia (UE), para restringir a entrada de imigrantes nos 27 países que a integram. O ingresso fica condicionado às necessidades do mercado de trabalho. A proposta, aprovada por unanimidade, representa um aprofundamento de decisões anteriores sobre o assunto. O pacto deverá ser submetido à cúpula de líderes da União Européia, em 15 e 16 de outubro próximo.

- Mais três casos de morte por dengue, foram acrescentados à lista deste ano. No total, já foram 23 óbitos.

- O Hospital Universitário Walter Cantídio, da Universidade Federal do Ceará (UFC), realizou o primeiro transplante de medula no Estado. A expectativa é de realizar, daqui por diante, uma média de dois por mês.

- Um sistema de segurança, que une câmeras de vídeo e alto-falantes, funciona, em caráter pioneiro, há um ano e meio, no município de Piracicaba, no estado de São Paulo. O equipamento teria diminuído em 70%, os furtos de carro, devendo ser implantado proximamente em três outras cidades. As tagarelas, como são conhecidas popularmente, veiculam mensagens educativas, que não costumam ser dirigidas para uma única pessoa. Grande parte delas está relacionada a questões de trânsito.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Trânsito

O trânsito constitui um problema cada vez maior nas grandes cidades brasileiras.

A expansão da economia, associada à melhoria de renda dos brasileiros, aumenta o número de carros nas ruas. O Brasil ultrapassou a França, sendo o sexto maior produtor mundial de veículos.

Some-se a isso, o baixo investimento no sistema viário das cidades - e o descaso para com os transportes coletivos -, e se compreenderá o caos no tráfego urbano, que atinge tanto os donos de automóveis quanto os usuários do sistema público.

Os congestionamentos enormes, em São Paulo, já começam na saída das garagens dos prédios.

A poluição do ar, a lentidão do tráfego e a violência no trânsito, formam o cenário das metrópoles.

Medidas restritivas são aplicadas de forma progressiva. São Paulo já convive, há tempos, com o rodízio de circulação de veículos, de acordo com a terminação do número da placa, recentemente adotou a proibição de circulação de caminhões no centro da cidade, em determinados horários, e, agora, o Prefeito Gilberto Kassab (DEM) enviou mensagem à Câmara Municipal instituindo o pedágio urbano.

A medida se insere no conjunto de providências destinadas a cumprir metas da Política Municipal de Mudança do Clima, sob exame dos vereadores, que prevê a redução, até 2012, de 30% da emissão de gases do efeito estufa em relação à 2006.

O fato do Prefeito, candidato à reeleição, propor a medida às vésperas da eleição, denota a gravidade do problema do trânsito na Capital paulista. E isso não só acontece lá. Resta saber a reação dos eleitores, deslumbrados com seu carro novo, às limitações cada vez maiores ao seu uso diário.

Saiba mais no jornal O Estado de S. Paulo, edição de 14/08/08.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Lei Seca

A lei que pune os que dirigem após a ingestão de bebida alcóolica está produzindo resultados. A imprensa tem estampado estatísticas que apontam a redução do número de acidentes, nos fins de semana sobretudo.

Inspetores da Polícia Rodoviária Federal, em conversa comigo, me informaram que só nos Estados Unidos e na Colômbia a legislação é mais rigorosa que a nossa. O rigor se impunha, uma vez que os nossos índices de violência no trânsito são assustadores.

A lei acarreta uma grande mudança cultural e o abandono de hábitos arraigados na população. Haverá, portanto, um período de acomodação à nova situação, durante o qual será preciso resistir às pressões para mudança da lei, em função de razões econômicas ou lesão a direitos individuais. Acima desses, está o interesse público.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Aspectos médicos na obra de Machado de Assis

Comemora-se este ano o centenário de morte de Machado de Assis. A propósito da data organizam-se eventos, aqui e alhures, na intenção de refrescar nos interessados o conhecimento da vida e obra do grande escritor. Vida sofrida e obra extensa, já tendo demandado a atenção de muitos estudiosos cujas aproximações renderam qualificadas análises de sua trajetória pessoal e literária.

Convidado a colaborar com este ciclo de palestras oportunamente organizado pela Academia Cearense de Letras ocorreu-me dissertar sobre aspecto menos conhecido do autor, qual fosse sua doença, a provável influencia que teve em sua produção, bem assim a forma como abordou, nas diferentes expressões literárias que praticou, a medicina. Ou melhor, os médicos e os remédios, a doença e os doentes. Surpreendeu-me o número de trabalhos valiosos em torno do tema, uns incompletos, outros superados pelo tempo e o avanço da ciência, conflitantes alguns, ou ainda marcados pela subjetividade especulativa infiltrada nos diagnósticos retrospectivos amparados em material escasso e impreciso. Minha tarefa será mais a de ordenar essas apreciações, podando excessos, acrescidas, onde couber, de impressões pessoais.

Todo esforço para entendê-lo, e sua obra, depara-se com o pouco que se conhece de sua infância e adolescência, bem como as pistas labirínticas que semeou em seus escritos a desafiarem investigadores diligentes que sobre elas se debrucem.

Mestiço, filho de pais pobres, criado na periferia das casas grandes do morro do Livramento, valeu-lhe o zelo da segunda mãe para garantir-lhe o aprendizado básico sobre o qual ergueria um monumento de cultura e erudição, como autodidata que foi. Sobre esse início, que lhe marcaria a caminhada, deita véu de silêncio, corta amarras com o passado. Aos poucos ascende socialmente, freqüenta a livraria de Paula Brito, ponto de encontro de literatos e políticos, ingressa no serviço público, inicialmente como tipógrafo da Imprensa Nacional, começo de longa carreira na burocracia. Acerca-se das rodas literárias, aceito entre adultos de reputações estabelecidas, vislumbrado seu talento e interesse pelas letras. Estão dadas as condições para o início de uma brilhante carreira a ser feita com a superação de obstáculos derivados da origem humilde e de limitações físicas que fizeram seu tormento e alimentaram sua criação.

Claude Bernard disse que um dia o psicólogo o poeta, e o fisiólogo, falariam a mesma língua e todos se entenderiam. A frase sugere a conexão entre a escrita e a personalidade do autor. O fruto do seu trabalho, é o reflexo de sua formação (“o menino é o pai do homem”, diz Machado), inclinações, vivências, sofrimentos. E, claro, do estado mórbido do espírito. A esse estudo, deu-se o nome de patografia. Vários autores investigaram essas relações na tentativa de explicar a obra a partir da doença do autor. São conhecidos entre outros, os trabalhos de Moebius, W. Lange e Jaspers sobre Holderlin, Goethe, Van Gogh, Strindberg, Nietzsche.

Interessa-nos aqui o caso de Machado de Assis. Epiléptico comprovado, ocultava sua doença numa referência vaga a “umas coisas esquisitas quando criança”. Até surgir o acesso público, em pleno Cais Pharoux, à espera de Anatole France, documentado em foto, para surpresa de Carolina, sua mulher, que então ignorava fosse portador do mal. Imagine quão vexado terá ficado Machado face à humilhação sofrida. O temor da irrupção das crises, frustras na forma das ausências, mencionadas em correspondência à Mario de Alencar, ou das manifestações clássicas convulsivas, precedidas por auras, induziram hábitos e traços do temperamento, determinantes do seu comportamento social. Arredio, taciturno, gago, com amigos, mas pouquíssimos íntimos (Mário de Alencar, Quintino Bocayuva, Magalhães de Azeredo, José Veríssimo, e mais uns poucos), não teve “amigo que fosse mais que simples relação intelectual”. A timidez, a tendência associativa manifestada pelo convívio nos grupos literários de que a Academia Brasileira de Letras é o maior exemplo, o retraimento, a impulsividade, compõem o temperamento gliscroide típico do portador de epilepsia. A que se associou um comportamento esquizóide, conforme Peregrino Junior.

É nítido nele o pudor da doença. Como Flaubert, igualmente acometido do mal comicial, não ousa dizer seu nome. Quando faz alguma referencia a ela menciona-a de forma indireta tal em cartas à Mário de Alencar e José Veríssimo. “O muito trabalhar nos últimos dias tem me trazido alguns fenômenos nervosos”, dirigindo-se à Mário, e para Veríssimo “...era ontem dia marcado e hoje também, mas ontem os destinos o não quiseram, estive doente e recolhi-me logo”. Uma única vez, relata Peregrino Junior, surpreende referencia direta a moléstia em missiva para seu grande amigo Mário de Alencar, colega de infortúnio, junto com Magalhães de Azeredo, os três autores das cartas tristes (Samantha Valério), cúmplices na doença: “A minha saúde não vai mal, exceto o que lhe direi adiante, e não é a ausência que senti ontem, esta foi rápida, mas tão completa que não me entendi ao tornar dela. Daí a pouco entendi tudo e deixei-me estar”. Em mais uma carta ao querido amigo Mário confidenciava: hoje à tarde reli uma página da biografia de Flaubert; achei a mesma solidão e tristeza, e até o mesmo mal, como sabe, o outro. Note-se datarem dos seus últimos anos de vida, quando o mal recrudesce, e se tornam freqüentes as crises. Dissimula os sinais da doença reportando-se às feridas na língua, decorrentes de mordeduras comuns nos ataques convulsivos, como aftas. Aliás, para evitá-las, Carolina costumava portar rolhas que introduzia na boca do marido por ocasião dos ataques.

Enquanto escondia a epilepsia falava em cartas, e mesmo em crônicas, de outros males que o perseguiam. Aos distúrbios intestinais chamava de mal acessório, e com eles se preocupava ao ponto de confessar melancólico em carta à Carlos Leopoldo de Almeida, “vou caminhando para uma tísica mesentérica”. Queixava-se pelos jornais de incômodos e enxaquecas que lhe abatiam o ânimo e subtraiam-lhe forças para o trabalho intelectual. Míope, temia perder a visão. Quando o mal ocular agravava-se era Carolina que lia os textos em voz alta. Aliás, no decantado soneto que lhe dedicou menciona os “olhos mal feridos”. Hermínio Brito Conde, em “A Tragédia Ocular de Machado de Assis”, atribue ao desajuste do pince-nez e seu uso incorreto, a causa das dores de cabeça e indisposições costumeiras. De fato, as lentes destinavam-se à visão próxima, todavia portava-as permanentemente o que de certo lhe turvava a vista. Teria carecido também de lentes corretoras para longe, mas nunca as teve.

Ao contrário de Dostoievski, que narrou em detalhes e com precisão clínica seus acessos epilépticos, também presentes em alguns de seus personagens (“Possessos”, “O Idiota”), Machado omite-os completamente de seus livros. Na primeira versão de Brás Cubas emprega a palavra epilepsia, para permuta-la em seguida por convulsão. Chega ao cúmulo de, ao traduzir do francês o livro “Notions d´hygiene à l´usage des instituteurs primaires”, do Professor T. Gallard, eliminar do texto a epilepsia e outras doenças. A omissão enojada não suprime as sensações que a moléstia desperta capazes de inspirar cenas memoráveis como a do delírio de Brás Cubas.

Basta ver que Dostoievsky, citado por Stefan Zweig, compara a delícia do instante que precede a crise epiléptica à visão do paraíso. Apesar da notória ojeriza a qualquer referência a doença há quem enxergue passagens em seus livros que signifiquem sinais da enfermidade. Cito o grito e a perda de consciência de Rubião ao assistir o enforcamento de um negro, e o conto “Um Cão de Lata ao Rabo” e o poema “Suave Mari Magno”. No conto narra um embate entre o cão e o furacão. Luta tremenda, entre o animal e a força da natureza, assistida pelo destino, cujo desfecho é um estrondo a assinalar a vitória do cão. O mínimo derrubara o máximo, na expressão do autor. O cão bem poderia ser o homem, a tormenta a doença inexorável. Na poesia, um cão, mais uma vez, ferido pela luz, debate-se na rua sob a indiferença dos transeuntes. A doença que lhe repugnava, teria transferido ao animal amigo para desabafar tragédia que era sua.

“Suave Mari Magno”

Lembra-me que, em certo dia,
Na rua, ao sol de verão,
Envenenado morria
Um pobre cão.

Arfava, espumava e ria,
De um riso espúrio e bufão,
Ventre e pernas sacudia
Na convulsão.

Nenhum, nenhum curioso
Passava, sem se deter,
Silencioso,

Junto ao cão que ia morrer,
Como se lhe desse gozo
Ver padecer.

(Ocidentais, in Poesias completas, 1901.)

Morrer e renascer esta é a dinâmica das crises que o aproxima da morte e o ensina a teme-la.
O automatismo ambulatório, peculiar aos epilépticos, também freqüenta a narrativa de Machado em vários de seus livros, de novo o hábito da repetição. Fiquemos com dois exemplos. “Quincas Borba”, Rubião: “deu por si na praça da constituição. Viera andando a toa”. E Brás Cubas, nas “Memórias Póstumas” – “...iam-me as pernas levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei a porta do hotel Pharoux. De costume jantava aí; mas, não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da ação me cabe, e sim às pernas que a fizeram”.

O Nicolau de “Verba Testamentária” apresenta traços bem sugestivos do epiléptico. É mais uma insinuação do autor sobre a ocorrência da moléstia sem nunca assumi-la de público. Cabe-nos agora examinar como a doença mudou seu comportamento e interferiu em seu estilo. A saber, o que deve seu estilo límpido, coloquial, polido (Amina di Munno) sem exacerbações eróticas, ou violências, a um temperamento moldado por uma doença incurável, sorrateira, que incidia sobre ele “como um raio em céu sereno” (Aloísio de Castro). Deriva daí seguramente muito do ceticismo, do pessimismo niilista induzido pela revolta do apenado pela natureza vazada de forma sutil, mas acre, nos seus textos, particularmente os mais famosos, de sua última fase.

Acrescente-se à essas expressões amarguradas de uma alma torturada pela pobreza o preconceito (lembre-se a oposição da família de Carolina ao casamento por ser mulato) e a doença, o humor fino burilado na leitura dos ingleses, Sterne e Swift, e ter-se-á o fundamento sobre o qual construiu seu incomparável estilo. A afetividade viscosa, a prolixidade, o gosto pelo detalhe, a minúcia, a reiteração continuada, uma certa misantropia, a depressão que segue às crises, traços do epiléptico, desenham o cotidiano de Machado de Assis e transbordam em sua criação literária. É ele quem confessa: “Eu gosto de catar o escondido. Onde ninguém mete o nariz, ai entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto (...) a vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam”. A ambivalência, a indecisão, a dúvida, a hesitação, o ciúme, assomam em seus livros a marcarem fortemente seus tipos humanos. Machado é isto e aquilo, e não isto ou aquilo, à maneira dos esquizóides, segundo Kretschmer, citado por Peregrino Júnior. Morre e assopra, fere delicado. Tem certo enjôo do homem, a descrença nele, confessada à Mário de Alencar ao explicar-lhe a motivação para escrever Brás Cubas, livro que assinala seu transito do romantismo para o naturalismo à sua feição. Contido, subjetivo, sem os excessos de Eça, que condenava, e sem a ciência de Zola. Retrato sutil das vilezas colhidas no recesso profundo das almas e dissecadas com perícia de anatomista.

Esses atributos de sua constituição, associados aos pródromos de sua existência fizeram-no um homem temeroso, com medo da vida, receioso de contrariar pessoas, avesso a polêmicas, com tédio a controvérsia, mas mordaz na crítica, irônico, conservador, disciplinado, amante da lei e da ordem. Obsequioso, quase servil, no auge da glória chegou a dizer de seu ímpeto em beijar os pés do ministro que o reintegrou ao serviço público. Temeroso, viveu com medo da vida.
O crítico literário Luiz Costa Lima crê estarem equivocados os que sustentam a análise da obra de Machado em aspectos exclusivamente biográficos do escritor, considerados insuficientes para explicá-la. Para desvelar o palimpsesto da escrita machadeana, ou seja, aflorar o universo psicológico da condição humana, disfarçado no estilo anódino, será preciso buscar outras vertentes explicativas. Identifica três linhas de investigação levantadas na tentativa de compreender o pessimismo que perpassa vida e obra do escritor. Segundo o crítico, Silvio Romero di-lo pessimista, por ser distante do povo; para os filiados à corrente psiquiátrica, explica-o a epilepsia; já Alfredo Pujol e Lúcia Miguel Pereira, creditam-no à descrença na vitória da moral. Arrisco pensar que não haja resposta única para a indagação. As três hipóteses convergem, não se excluem. Torna-se difícil aferir preponderâncias que justificassem dominâncias indutoras da atitude pessimista. Restrinjo-me aqui à natureza psiquiátrica do problema no âmbito da minha comunicação de hoje. Neste caso a doença foi indiscutivelmente ponto de partida.

Peregrino Júnior, em “Doença e Constituição de Machado de Assis” identificou marcas de sua personalidade atribuídas à epilepsia que despontam em passagens de sua vida e em seus textos. Aludo à algumas delas que me pareceram mais representativas da tese proposta.

Assim, quanto a afetividade untuosa com os poucos amigos, subjacente à conduta reservada aparente, a ironia constante a insuspeita meiguice epistolar (“vesícula de fel da sua filosofia social, mas suas cartas o traem”, em correspondência que lhe dirigiu Joaquim Nabuco) A amabilidade com que tratava os próximos, garantidora de assistência em caso de crise, convivia com impulsos explosivos próprios da ciclotimia dos epilépticos. Eles são, na imagem de Franco da Rocha como “plantas solanáceas, veludosas por cima, crivadas de espinhos por baixo”.

A ambivalência que já o identifica, ao mesmo tempo como modesto e ambicioso, ressurge em muitos episódios e tipos dos seus livros. Companheira da hesitação que comparece em seus romances junto à ambigüidade feminina. Nunca afirma taxativo o caráter do personagem. Pratica uma espécie de perversidade suave com suas crias como se deixasse ao leitor a tarefa de julgá-las. Prefere a nuance ao tom forte das cores bem definidas. O comportamento ambíguo de Capitu, a vacilação de Flora em Esaú e Jacó cujo coração balança entre os gêmeos; Brás Cubas, todo ambivalência, a hesitação quanto ao valor da recompensa no episódio do almocreve, são parcelas do vasto painel que traçou do grande enigma que é a natureza humana.

Hábitos sedimentados e o apego à rotina que parecem reduzir sua insegurança face à imprevisibilidade da doença, levam-no à restrição do território onde se movimenta e a repetição de itinerários, costume reproduzido no que escreveu. Está em “Ressurreição:” os meus dois pólos estão nas Laranjeiras e no Largo do Paço; nunca passei desses dois extremos do meu universo-confesso que é monótono, mas eu acho felicidade nesta monotonia.

A prolixidade, associada à iteração, encontradiças nos epilépticos, são também visíveis no estilo de Machado apontado por alguns como enfadonho e maçante. Responde aos críticos que condenam o cacoete da repetição dizendo que seu farnel é feito de três ou quatro assuntos que alimentam sua criação. Abusa das explicações em “Relíquias da Casa Velha” e estende-se discorrendo sobre a genealogia de Brás Cubas. Ao longo de sua obra repete nomes, cenas, episódios. O atropelamento da criança pelo carro está em “Trio em Lá Menor” e em “Quincas Borba”. Pouco afeito à natureza e à descrição de paisagens (“Deslocou da natureza para o homem o interesse intelectual”, bem o disse Alceu Amoroso Lima) fe-la por três vezes, em “Quincas Borba”, “Páginas recolhidas”, “Histórias sem Data”, do trecho da Praia Formosa e Saco dos Alferes, evoca constantemente o mestre escola; alude com freqüência ao sucesso das divas do teatro lírico; repisa o elogio do tolo e da tolice. O ciúme, filho do demônio da dúvida, incrusta, magistral, iterativo, na alma dos personagens, entre outros, os de “D. Casmurro”, “Ressurreição”, “Falenas”, “Memorial de Ayres”. A fixação em partes do corpo feminino repetida à exaustão, manifesta uma sensualidade fetichista sugestiva de complexo freudiano expresso na dificuldade que tem na abordagem feminina. Carolina foi, no sentido real, sua primeira e única mulher. Descartadas duas eventuais incursões platônicas. Braços, olhos, e cabelos, chamam atenção em suas heroínas numa atmosfera de delicada sensibilidade e sutil lascívia.

São os braços de Virgília, da Conceição da “Missa do Galo”, do conto “Uns braços”; os consagrados olhos de ressaca de Capitu e na mesma personagem outros menos famosos; de convite e de estrela em Virgília, e olhares intumescidos de volúpia.

Infidelidade e loucura, anotou Gustavo Corção, são temas recorrentes na obra de Machado de Assis. Cuidou da loucura de dois modos. Primeiro sem o clima trágico, com humor fino e ironia para desmitifica-la. Mais tarde, apresentou-a sob a forma cruel da decadência demencial que rebaixa e avilta o ser humano. Pertencem à esta fase Quincas Borba e Rubião. Nas duas abordagens utiliza a loucura para fazer a crítica da sociedade, denunciar imposturas e vilezas, a manipulação do poder, a hipocrisia, os dogmatismos, a presunção da ciência. Exala ceticismo, duvida dos sãos, desconfia dos médicos, desdenha dos remédios, é tolerante com a medicina popular, apóia a proposta gaúcha de dispensar de cursos oficiais os que pretendam praticar a medicina.

Nas crônicas não faltam assuntos médicos, inspirados na agenda do dia, comentados com saboroso sarcasmo. Discorre sobre o regime lácteo destinado aos marujos, a braços com a desnutrição dos embarcados, para atingir o cirurgião mor da armada. A propósito da inauguração de uma unidade de dosimetria em hospital do Rio de Janeiro brinca com as imagens para ridicularizar a tecnologia. Fala de curandeiros, e suas poções milagrosas, citando Plínio, o velho, para dizer que a sedução da esperança ignora o perigo e confia o paciente ao que promete a cura. Denuncia o erro de manipulação da fórmula que mata envenenadas duas meninas em Niterói com a afirmação cínica de que é preciso ter matado cincoenta para salvar mil criaturas. Critica neologismos, para escorado na semântica queixar-se do nasóculo que lhe aperta o nariz. Comenta a prisão do curandeiro Tobias com certa simpatia pela atividade, precursora da medicina.

Descreve, mordaz a genealogia que dá o curandeiro por pai de Hipócrates, logo avô de seu sobrinho que estuda medicina, portanto seu tio. Por último destaco a crônica que noticia a fuga dos loucos do hospício Pedro II para elogiar-lhes a indústria que tiveram para organizar a evasão ao tempo em que julga impossível distingui-los entre os passantes, tal a semelhança entre os que estão dentro e fora do manicômio. Acredita-se que o fato inspirou-lhe “O Alienista”. O episódio deu-lhe azo a expor o ponto de vista sobre a fluidez dos limites da razão e a fragilidade classificatória endeusada pelo entusiasmo com a ciência. Idéia a ser desenvolvida no conto consagrado que antecipa a antipsiquiatria, surgida quase cem anos mais tarde, vanguarda da psiquiatria no combate à opressão terapêutica confinadora e no compromisso com a humanização da loucura. Simão Bacamarte pesca almas e caça loucos, classifica e interna, desclassifica e solta, interpreta o poder absoluto da ciência, confronta e pondera, concilia com o poder político representado pelos vereadores liderados por Porfírio, impõe normas que estabelecem privilégios, financia seu desvario com o imposto instituído sobre os penachos dos féretros. Escolhida com base na ciência a esposa nega-lhe a prole planejada, mas a culpa do fracasso cabe à carne de porco de Itaguaí. “O Alienista”, mais que uma crítica ao tratamento reservado aos loucos, é uma forma de ver o mundo, encarar os limites da ciência, vasculhar a alma humana, compreender o comportamento das pessoas em sociedade. Bacamarte desconfia que a loucura seja um continente, e não uma ilha como imaginara a princípio, e o perfeito mentecapto o mais equilibrado e virtuoso dos homens. Isolado na Casa Verde vazia onde a vem a falecer Bacamarte é a síntese de sua teoria e da prática ao se descobrir o único alucinado. Arrebatara em sua carreira de cientista o troféu do nada.

A galeria de loucos de Machado se espalha por outros contos, integrada por perfis diversos de insensatos com manifestações muito específicas. É o caso do paciente do Dr. Jeremias Halma, no conto “O Lapso”, portador de amnésia seletiva que o faz esquecer de saldar dívidas. Curado, resta-lhe o médico como único credor; ou o doido de “Segunda Vida”, que renasce desconfiado e aprendido dos homens e das coisas; ou ainda o sádico de “Causa Secreta”, e “O Enfermeiro” torturado pelo remorso que aplaca com a herança de sua vítima. Que é a teoria de Jacobina, exposta em “O Espelho. Esboço sobre uma nova teoria da alma humana”, a propósito da existência de duas almas em um mesmo ser, uma que olha para fora, outra que olha para dentro, uma laranja e suas duas metades, metafisicamente falando, como diz, senão uma metáfora da esquizofrenia? Imagem que reitera em “As Academias de Sião” incumbidas de responderem à pergunta se a alma é neutra ou sexual e portanto se a alma de um, estando no corpo de outro, explica a conduta homossexual.

Na constelação de insanos construída por Machado há as estrelas de primeira grandeza. São seus loucos egrégios, Brás Cubas, Quincas Borba, Rubião, surgidos os três na fase endiabrada do escritor emerso do casulo de espírito recatado. Foi-se o romântico, sucede-o o naturalista. Muda o tratamento dados aos loucos e à loucura. Abandona a leveza de aparência, bem humorada, para encarar a face cruel da triste loucura de Quincas Borba, decaído e humilhado. Nos últimos anos de vida a doença se agrava, amiúdam as crises, acentuam-se o pessimismo e a melancolia. Data desta época o registro que fez das crises e perturbações psíquicas que sofria para submetê-lo à Miguel Couto, seu médico. Nem no canhenho, onde faz uma auto análise e transparece o instinto da morte escreve o nome da doença. Leme Lopes supõe, a partir desses relatos que Machado além das convulsões padecesse de manifestações oniroides paroxisticas e alucinações auditivas, turvação da vista e deformação de objetos compatíveis com o diagnóstico de epilepsia temporal. Seriam os “laivos de loucura” de Machado a que alude Gustavo Corção.

O delírio de Brás Cubas é pagina antológica da literatura mas não é desprezível seu aspecto médico. É o próprio doente a descrever suas sensações, certo de em assim procedendo dar grande contribuição à ciência. De fato precede experiências posteriores de psiquiatras que provaram da mescalina, da maconha e outros alucinógenos fazendo viagens de investigação da consciência. Com a fusão do sujeito e objeto aplica o método fenomenológico de Jaspers antes que exista. Convém assinalar que o delírio de Cubas surge na fase pré-agônica, no curso de processo infeccioso pulmonar caracterizando estado oniroide, uma psicose onírico confusional.

Curioso observar que Brás Cubas e Quincas Borba suspeitam reciprocamente de doença. O alienista chamado atesta a sanidade de Cubas. O doente é o outro, pois “moléstia e saúde são caroços do mesmo fruto” afinal, diz, “a loucura entra em todas as casas”, para concluir com erudição sentenciosa “jura falso, quem jurar não possuir dois ou três patachos” (alusão ao vesânico do Pireu, Trasilau, dono imaginário de todos os navios que, está em Camões, “Oitava redondilha-A D. Antonio de Noronha, sobre o desconcerto do mundo”).

O “grãozinho de sandice” surpreendido pelo alienista em Borba haveria de crescer e resultar em frutos amargos da insânia. Estávamos diante de uma personalidade anormal que desenvolve paranóia, acredita Leme Lopes. E mais tarde um paranóide que desenvolve uma filosofia, o humanitismo. Mistura alinhavada com idéias científicas, a morte que dá a vida (Bichat), a dor como predisposição, que antecipa a doutrina dos reflexos condicionados, e disparates intrigantes, tudo cozinhado junto às batatas do vencedor na teoria das bolhas ferventes. Em carta à Rubião julga-se Santo Agostinho e reconhece-se “louco não havia dúvida, estava doido mesmo”. Acelera na ladeira da decadência para as profundezas da alienação que isola e confina e o faz morrer antes de morrer até o ponto final do obituário lacônico: “já delirava antes de morrer”.

Rubião, seu epígono, herdou-lhe o dinheiro e o destino. Sem ser médico, Machado de Assis descreve em seus passos insanos a evolução dolorosa da paralisia geral, doença então causa freqüente das internações no manicômio do Rio de Janeiro. Os distúrbios, de atenção, a prodigalidade, o esbanjamento, a hesitação em decidir coisas triviais e mais adiante a megalomania desinibida manifestada aos convivas nas mesas fartas. Era Napoleão III, que ora desfilava pelas ruas conduzindo pelo braço a imperatriz Eugênia, ora comandava generais gauleses derrotados em batalhas reais, vitoriosos em sua ficção alucinada. Perde a autocrítica, a memória falha, o discernimento se reduz, a capacidade intelectual se deteriora. A doença avança.

Pede ao barbeiro corte à feição de Luis Napoleão enquanto mira o espelho que reflete a esquizofrenia, “era o outro; era ambos, era ele mesmo em suma”.

À penúria mental que divertia os circunstantes segue-se a miséria material e o abandono dos amigos. Da casinha modesta para a casa de saúde com a promessa de cura é um salto. A fuga, em companhia do cão, para Barbacena, é o apogeu do desatino, o encontro com a morte nos braços da comadre que guardara Quincas Borba, o cão, fiador de sua herança.
Despede-se da vida coroando-se, “pegou em nada, levantou nada, cingiu nada”. Estava assinada a abdicação, decretou Machado. É episódio de humorismo pungente (Corção), de doloroso ridículo, lágrima e riso, o trágico e o cômico, faces de Janos do estilo de Machado. Situação na qual o engraçado é desgraçado. À esse niilismo, machadeano que, impregna sua escrita, Lúcia Miguel Pereira chamou de obsessão do nada, a “voluptuosidade do nada” na expressão do autor. O nada que o seduz e atrai até o termo da existência figurada no Prometeu Acorrentado:


... frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;
Acabara o suplício e acabara o homem.
(O desfecho, em Ocidentais)

Da celeuma desencadeada pelos acontecimentos políticos da abolição e da república, Machado de Assis guardou cautelosa distância de zeloso burocrata. A conduta grangeou-lhe a fama de insensível social e alienado político. O século XIX foi marcado pelo progresso da ciência e fé sem limite em seus postulados. No Brasil, adeptos de Augusto Comte embalavam essa confiança ao propagar com êxito o positivismo junto aos militares e membros da elite do país. A teoria da evolução das espécies ganhava força a partir da divulgação dos trabalhos de Charles Darwin. Estava aí à sua disposição material farto a desafiar-lhe o senso crítico infenso aos atropelos da modernidade. Se nunca doutrinou é que não aderiu a credos ou filosofias. Talvez por isso criou a sua, que deu a conhecer pela boca de Quincas Borba, humanitas. O humanitismo seria machadismo, síntese da ironia psicológica e da resignação filosófica do escritor enxergado com vidros de aumento que ressaltam tópicos inverossímeis (Américo Valério, em A Psicanálise de Machado de Assis). Humanitismo é uma caricatura de Comte e da doutrina positivista. Segundo Eloy Pontes, por desconhecê-la, sai constrangida, superficial e confusa. Ao admitir a transferência dos caracteres adquiridos incorpora à sua filosofia a teoria de Darwin. Promete ainda dota-la de uma liturgia que a transforme na religião do futuro. É neste apostolado que se assemelham ainda mais humanitismo e positivismo. Insurge-se contra o dogmatismo, galgando o cérebro do cônego absorvido na tarefa de conciliar adjetivos e substantivos sediados em hemisférios cerebrais distintos para compor a prédica vazada em estilo metafísico (“O Cônego, ou A Metafísica do Estilo”). No conto “Evolução” faz crítica velada ao evolucionismo, de conteúdo político e social, na figura do deputado e no percurso das idéias que retornam “originais” ao ponto de partida.

Da crítica velada embebida no ácido do humor não fizeram exceção a medicina e os médicos. Descria dos dois, assim da lucidez. Era leniente com a medicina popular enquanto fustigava os doutores com suavidade cáustica. Os médicos são charlatães ou parvos. Como o de Barbacena que desaconselhou a viagem de Quincas Borba ao Rio e assistiu, supérfluo, a agonia final de Rubião, fechando um ciclo de insânia de mestre e discípulo. As vezes são estrangeiros ou egressos de escolas européias mantidos os vínculos que lhes emprestam brilho e reputação. Jeremias Halma, que tem nome curioso, sugestivo das lamentações do espírito, é holandês, dado como meio charlatão, no estilo ambíguo de Machado. Simão Bacamarte estudara em Coimbra e Pádua e correspondia-se com as sumidades do outro lado do mar. Era a constatação do colonialismo cultural e científico e da falta de um centro intelectual nacional (Luis Costa Lima, em “O Palimpsesto de Itaguaí”). Insinua engodo e falta de ética no médico que assiste Rubião e apraza cura “de seis a oito meses”, e, quando da fuga do doente “faltavam dois meses”. O mercenário fixa prazos enquanto dure o que resta da fortuna dissipada.

Avesso a médicos, deles suspeita e afasta-se, desanca-lhes a sapiência e as prescrições. Imita Montaigne, que aprecia. Escreve comédia com o título “Não Consultes Médico” derivado do provérbio grego, “Não Consultes Médico. Consulta alguém que tenha estado doente”. O enfermo execra os médicos em particular os que à guisa de cura mandam-no para a China. Da moléstia grave, “loucura, espírito romanesco e muitos outros”; louco de amor é o que alguns dizem. Os autores divergem. Sara graças ao conselho do provérbio que se revelou mais eficaz que a ciência médica.

A frase de José Dias, o agregado de D. Casmurro, “em todas escolas se morre”, é a crítica as discordâncias médicas e às teorias divergentes, todas impotentes diante da morte. Consegue enfiar a mesma crítica aos doutores ao citar Antonio José da Silva, o Judeu – “ É assim que eu gosto dos médicos especulativos”, numa crônica que tratava do fechamento do comércio aos domingos.

Alfineta José Pereira Rego, Barão do Lavradio, médico da família imperial, Presidente Perpétuo da Academia Imperial de Medicina, autor de trabalhos sobre a febre amarela, tomando por base a freqüência de óbitos causados por “acesso pernicioso fulminante”. Suspeita-se fosse pseudônimo da febre amarela, e a troca, costume dos médicos de atenuar a gravidade mórbida dos fatos.

Falou das escolas, mas ilustrou-as ao distinguir a conduta médica de Simão Bacamarte e Jeremias Halma diante de seus pacientes. Bacamarte segrega os loucos, açula os políticos, excita a comunidade. Jeremias pacifica os credores, estreita o convívio social, concentra-se na reaprendizagem dos rituais, apoiado no uso de remédio. São práticas terapêuticas divergentes que se confrontam lançando luz uma sobre a outra. Um é médico, o outro alienista. Em um caso prepondera o viés psicológico, no outro o psiquiátrico. São as antinomias de Machado, a estratégia da dialética.

Sobre as epidemias discorreu com humor cínico entre as idéias que fazem o conteúdo do humanitismo. Expressou-se assim seu intérprete: duplamente benéfica porque deixa sobreviver o maior número e dá aos sobreviventes a satisfação de serem poupados. Isso rescende a Swift que, “piedoso”, recomendou assarem as crianças para matar fome aos irlandeses.

Desdenha dos remédios, ridicularizando em crônicas as panacéias anunciadas, com seus efeitos universais e resultados infalíveis. Invoca Plínio, o Velho, para justificar a crença nas drogas oferecidas fundada na esperança que consola. O emplasto imaginado por Brás Cubas visa a cura da melancolia mas é sobretudo promessa de fama e fortuna. Um bom pecúlio narra em crônica, fez o farmacêutico de barbas de sua infância que vendia a retalho segundo as posses de cada um remédio líquido e escuro, certamente inócuo, não sabe se preventivo, ou curativo, durante epidemia de cólera. Em seguida indaga irônico: “por que levou o segredo para a sepultura? Por que não imprimiu e distribuiu a fórmula? Agora se tal moléstia cá voltar, teremos de inventar outra coisa, que terá a novidade por si é verdade, mas a velhice também recomenda.”
Descrê do hipnotismo em alta, adotado por Charcot no tratamento da histeria para com fina ironia recomendar aos gatunos o emprego do método nos furtos às pessoas sob a chancela da ciência.

Doente e só, triste, isolado, pressentindo o fim, cede às instâncias de Mário de Alencar, amigo fiel, e consome poções inócuas, elixires e xaropes inofensivos, entre eles a “maravilha curativa”. São lances do último combate à morte que sempre o atraíra e temera como nos dão conta sua obra e as anotações do caderno íntimo. Doente como seus personagens que padecem de enfermidades longas, vagarosas, fatais, sofre em silêncio sem queixar-se ou importunar os amigos. O câncer instalado na língua lembra a frase impiedosa que está em Brás Cubas: “indiferente às virtudes do sujeito o cancro quando rói, rói; roer é o seu ofício.”

É chegado o momento de indagar por que Machado não sendo doutor escrevia como médico. Que conhecimento tinha de psiquiatria? E de saber o que além de sua sofrida vida terá influenciado sua literatura. Um bom caminho para desvendar a questão é conhecer seus autores prediletos e os livros que compunham sua biblioteca. Tem-se como certo ter tido preferências pelos ingleses, Poe, Sterne, Swift, Dickens; Eça de Queirós; os franceses Maupassant, Flaubert, Stendhal, Renan, Merimée, Xavier de Maistre, e mais Schopenhauer que revela em carta estar lendo, mesmo doente e próximo ao fim.

Sua biblioteca foi adquirida aos herdeiros, pela Academia Brasileira de Letras e para lá removida decorrido certo intervalo até a concretização do negócio. Nesse ínterim ocorreram baixas que não foram registradas. Assim é quase certo que o acervo negociado não corresponda integralmente ao existente em vida do proprietário. Por outro lado é conhecido o hábito que mantinha na juventude de freqüentar com assiduidade bibliotecas públicas. Seria equívoco admitir ficassem suas leituras restritas à livraria que reuniu ao longo da existência. Feita a ressalva quanto aos títulos remanescentes no conjunto sob a guarda da academia resta identificar os que de algum modo poderiam ter contribuído para subsidiar a investida do autor contra o cientificismo dogmático então vigente. Original, Machado de Assis criticou com humor e ironia as novas idéias apresentadas sob o patrocínio inquestionável da ciência. Sem abdicar da compostura pintou de ridículo coisa séria. Converteu ciência em extravagância, questionou divertindo. Respirou o oxigênio da controvérsia através da ficção evitando o confronto direto que sempre o incomodou. A estratégia revelou-se bem sucedida. Enquanto polêmicas apaixonadas sumiram na poeira do tempo a leitura de Machado continua prazeirosa e encantadora. A ficção venceu o ensaio, o universal o local, e o humor a rabugem.

No livro sobre a Biblioteca de Machado de Assis organizado por José Luis Jobim foram identificados apenas cinco volumes que poderiam ter contribuído para informá-lo sobre assuntos relacionados à doença mental, tema de que cuidou com freqüência nosso grande escritor. A relação é algo decepcionante, considerada a importância que deu ao assunto. Não está lá, por exemplo, o livro de Charles Lamb “Essays of Elia” que contém o ensaio “Two Races of Man” onde está a citação transcrita no original no conto “O Lapso”. O rastreamento das leituras de Machado a partir de sua biblioteca conhecida será, pelas razões demonstradas, insuficiente para identificar com precisão as influencias que terá sofrido.

Foram estes os livros encontrados na biblioteca que versam sobre a saúde mental e a psiquiatria:
- Philosophie de I’inconscient, de Édouard von Hartmannn, 1877.
- Prolégomènes à la psichogénie moderne, de Pierre Siciliani, 1880.
- L’Homme selon la science e La vie psychique des bêtes, ambos da autoria do Dr. Louis Bûchner, e ambos editados em 1881.
- Les maladies de la mémoire, de Th. Ribot, 1881.
- Physiographie, de Th. H. Huxley, 1882.


Todos surgidos no período em que mais se ocupou do tema tratado de forma genial nos celebrados romances “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Quincas Borba” e “D. Casmurro”.
Além da influência difusa dos autores prediletos de Machado espalhada em toda sua obra há situações particulares em que a inspiração guardaria vinculação direta com o trabalho de outrem. É o caso de “O Alienista” motivado pelo episódio real da fuga dos alienados do hospício Pedro II aliás comentado por ele em uma de suas crônicas. Há quem acredite estar embutida na sátira remissão crítica ao médico e senador José da Cruz Jobim, diretor da Escola de Medicina, primeiro, e durante muito tempo o único médico clínico do manicômio, político monarquista, conservador e proprietário em Itaguaí. Com ele se desaviera, travando polêmica pela imprensa, na defesa dos estudantes paulistas acusados de boêmia e esbórnias. O argumento do senador servia-lhe de pretexto para opor-se à criação de uma escola médica em São Paulo. Com Jobim, já morto, assim como em relação a Silvio Romero, levara tempo mas não renunciara ajustar contas.
Parece razoável supor que na raiz de o Alienista, além do fato acima mencionado esteja ensaio de Jonathan Swift “A serious and useful scheme to make a hospital for insanes” de 1733. Eloy Pontes e Antonio Austregésilo sugerem Poe, e Dumas, pai, também como fontes inspiradoras para a elaboração do conto. Citam “O Sistema do Dr. Goudron” de autoria do americano e “Os Doudos do Dr. Miraglia”, de Dumas, traduzido e publicado na Gazeta Mercantil em 1863, como evidências de suas assertivas.

Luis Costa Lima assinala que a partir de Alcides Maya e Eugênio Gomes foi possível identificar no humor de Machado uma forma de expressão transcendental, superior, que mistura e confunde.

Influências são inevitáveis em quem lê e pesquisa mas não podem ser vistas como dependência ou imitação. Na órbita da ciência, teorias despertam interesse e podem contribuir para a ficção incitando a criatividade do escritor. Terá sido o caso de Machado no conto “O Lapso”, no qual o personagem Tomé Gonçalves desenvolve uma espécie de amnésia seletiva, uma patologia do calote. A história está calcada claramente no livro de Th. Ribot “Les Maladies de La Memoire”, 1822, encontrado em sua biblioteca sobretudo no capítulo III, - “Les Amnésies Partíelles” e documenta como Machado manipula os textos e as informações emprestando-lhes fisionomia nova marcada pelo ridículo e o remoque finos.

A doença de Machado de Assis não foi determinante mas um ingrediente na construção de sua obra. Retraído, expandiu-se ao retratar seus personagens deixando nos livros a porta aberta para compreendê-lo. Alcides Maya admite em seu estudo ter Machado se autofografado no funcionário público Luis Garcia, no conselheiro Ayres e no Dom Casmurro. Augusto Meyer entretanto sugere que ainda aí o bruxo não se expõe. São imagens virtuais do introvertido que é, pescadas de sua pseudo personalidade. Foi um mestre do romance psicológico desnudando a alma humana, penetrando fundo no coração das pessoas para expor com a sutileza do estilo a negação das virtudes, a complexidade dos espíritos. Autopsiou o inconsciente, preocupou-se com as análises individuais sem retirar ilações coletivas.

Viveu na fronteira da loucura que tanto temia e tratou dela com constância sintomática. A aplicação do conhecimento psiquiátrico à exegese de textos literários é controversa, adverte Leme Lopes. Todavia a patografia já comprovou sua importância, e o estudo psicológico e psicopatológico, desenvolvido como se fora uma perícia psiquiátrica, pode ser útil para melhor decifrar autor e texto. Se a vida do escritor é o comentário de sua obra como quer Carrell o autor explica seus personagens.

Assumindo postura crítica em relação à modernidade científica e o mimetismo cultural acabou pela via da ficção por tornar-se precursor no campo da psiquiatria. Colocou limites à pretensão de pureza e neutralidade da ciência para admitir a atuação de outras formas de poder, religioso, político, econômico e social sobre ela. Antecipou-se a Freud no desvelar do inconsciente, a Laing e seus colegas antipsiquiatras na compreensão humana e social da loucura, e a Jaspers no emprego fenomenológico da investigação psiquiátrica.

Os últimos dias de vida passa-os na casa do Cosme Velho sucumbindo aos poucos ao mal inevitável rumo à morte que sempre esteve em seu instinto. Contido diante da dor e do sofrimento era visto murmurando o soneto “Mal Secreto” que muito apreciava de Raimundo Correia:

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;
Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!
Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!
Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Antes que Guimarães Rosa dissesse “ninguém é louco ou então todos”, já o descobria o alienista da Casa Verde oscilando no pêndulo da ciência, preso à ortodoxia dos conceitos. Com essa porosidade do juízo, que é na verdade uma hipótese, com implicações sociais e jurídicas, o tema da loucura comparece na literatura de forma assídua, denotando íntima relação ao ponto de Foucault afirmar que “por trás de todo escritor esconde-se a sombra do louco que o sustenta, o doutrina e o recobre. Poder-se-ia dizer que, no momento em que o escritor escreve, o que ele conta, o que ele produz no próprio ato de escrever, não é outra coisa senão a loucura."
Se o dito é verdade não espanta que as paredes amarelas desta Academia que nos acolhe encerrem, ao cabo, não mais que uma Casa de Orates. Destino melhor que a obtusidade normal dos integrantes das Academias Sião.

sábado, 5 de julho de 2008

Roda Viva

Hoje, o comunicador Paulo Oliveira, em seu programa, comentava a deterioração das rodovias estaduais, em decorrência do tráfego de caminhões de grande tonelagem.

Durante boa parte do meu Governo, as rodovias federais estiveram em péssimas condições, levando motoristas a optarem pelas estradas do Estado, que eram inadequadas ao trânsito pesado.

Foi, então, que decidimos implantar o Programa Roda Viva, que vedou, na malha rodoviária estadual, o trânsito de veículos de grande peso, a não ser nos casos em que não houvesse alternativa de acesso ao destino final.

O Programa venceu as naturais resistências iniciais, transformando-se em caso de sucesso, que atraiu, até, a atenção de outros estados do Brasil.

As estradas mantiveram-se bem conservadas. E economizou-se dinheiro público.

É lamentável que o referido Programa tenha sido desativado.

A descontinuidade administrativa gera o atraso e o desperdício.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Trânsito


O trânsito nas grandes cidades brasileiras anda infernal. Fortaleza não é exceção.

Ruas estreitas, o traçado em xadrez, estacionamento nas duas margens e fluxo nos dois sentidos. Enxurrada de novos carros, transporte público precário, falta de investimento no sistema viário, órgãos técnicos desaparelhados e com pouco pessoal compõem um cenário desanimador.

Em São Paulo e no Rio de Janeiro estão sendo postas em prática medidas drásticas de proibição da circulação de caminhões em determinadas áreas e em certos horários.

E aqui em Fortaleza, faz-se algo nesse sentido?

(foto DN - Kid Júnior)

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Trânsito

O trânsito de Fortaleza é um caos. O daqui e o das grandes cidades brasileiras. Entre outras razões pelo baixo investimento na melhoria do sistema viário e no sistema de transportes públicos.

Para agravar o problema, um número cada vez maior de pessoas, graças à facilidade de crédito, aquire automóveis, que vêm congestionar, ainda mais, as ruas já entupidas de veículos.

Providências ao alcance das autoridades locais de trânsito são paliativas, mas úteis, enquanto não se resolvem questões estruturais.

Em Fortaleza, por exemplo, carros estacionam em ruas estreitas dos dois lados, como na faixa de rolamento livre, veículos trafegam nos dois sentidos. O resultado é um engarrafamento permanente. Para piorar, serviços de carga e descarga, nessas mesmas ruas, ocorrem sem controle. Até em horários de pico!

E os motoristas, como se comportam? Falta civismo, como se diz em Portugal!

A Revista que circula aos domingos junto com o jornal O Globo, edição de 06/04/08, listou Os Dez Pecados Mais Comuns Ao Volante:

1- Fechar os cruzamentos
2- Avançar sinais
3- Andar devagar na faixa da esquerda
4- Correr na faixa da direita
5- Buzinar a qualquer hora do dia
6- Estacionar nas calçadas
7- Avançar sobre os pedestres que ainda atravessam
8- Mudar de faixa sem dar seta
9- Ficar parado quando abre o sinal... até que o carro de trás dê uma buzinada
10- Buzinar para o carro da frente no segundo em que o sinal abre

Faça seu exame de consciência, evitando pecar tanto.