segunda-feira, 7 de agosto de 2017

PEQUENAS LIVRARIAS VOLTAM A ABRIR PORTAS EM NOVA YORK


Um ditado favorito dos americanos para expressar ironia após triunfar sobre uma adversidade foi cunhado por Mark Twain: “Notícias da minha morte foram muito exageradas”, disse o autor de Huckleberry Finn, um humorista fino. Para os sofridos livreiros independentes, um pouco de triunfalismo será desculpado, neste ano em que o discurso público emanando de Washington reflete alergia a qualquer forma de prosa literária. Não é exagero: as livrarias independentes, além de não estar mortas, voltaram com força. Em 2009, havia 1.401 livrarias independentes nos Estados Unidos. Este ano, elas já somam 2.321. Nova York, onde caros aluguéis comerciais afugentam o varejo como não acontecia desde o crash de 2008, ganhou pelo menos cinco livrarias no último ano, como a aconchegante Books Are Magic, no Brooklyn. A livraria foi aberta em maio pela romancista Emma Straub, autora de Os Veranistas, que começou a escrever ficção enquanto trabalhava como vendedora na Book Court, no mesmo bairro. A Book Court fechou depois de 35 anos, em dezembro, porque o prédio foi vendido para um empreendimento imobiliário. O pesar entre leitores e escritores que lançavam seus livros na Book Court, como Junot Diaz e Don DeLillo, ilustrou como o papel das independentes cresceu com a debandada das cadeias sob o cerco da Amazon e do livro digital. 
O número de debates e eventos com autores em livrarias aumentou este ano, depois da vitória do presidente, que pede aos assessores relatórios de apenas uma página, de preferência com gráficos. E não é só por causa do renovado sucesso da ficção sobre distopias. Em cidades como Washington, Boston, São Francisco, Chicago e Nova York, é comum noites com mais de um autor debatendo temas além da literatura, como política de saúde e educação.
A explosão das cadeias dos anos 1990, como a Barnes & Noble, ainda sobrevivente da devastação digital do começo do milênio, colocou as independentes na defensiva, incapazes de competir com a venda de livros com desconto. Mas as cadeias de livrarias, além do assalto da Amazon, passaram a enfrentar outro fenômeno recente: a morte dos shoppings onde costumavam se instalar. É o que a mídia chama de “apocalipse do varejo”. Enquanto shoppings vão ficando desertos, a vida de pequenas cidades e subúrbios afluentes se volta ao comércio da rua principal e adjacências. É um estímulo à volta da livraria como ponto de encontro e conversa.
Há 20 anos, esta repórter estava filmando uma da melhores livrarias de ficção literária de Nova York, quando uma van despejou uma turma de alunos do segundo grau na Books & Company. O professor guiava a turma como se estivesse no Museu Metropolitan, destacando fotos de grandes romancistas nas paredes. Foi um momento doce e amargo. A sorte dela já estava selada pela alta exorbitante do aluguel do proprietário do prédio, o Museu Whitney. Mas os adolescentes percorreram com entusiasmo a livraria como a âncora de uma cultura literária pela qual estariam por se afeiçoar.
Novas pesquisas revelam que apenas 6% dos leitores de livros nos Estados Unidos consomem apenas livros digitais. A livraria física e os livros impressos continuam a atrair leitores de todas as idades. Para uma cidade de 8.5 milhões de habitantes, as cem livrarias independentes de Nova York não fazem frente à fartura de Paris. Mas a saúde das livrarias independentes mostra que é possível conviver com o e-livros sem abdicar dos prazeres do papel.

Fonte: Lúcia Guimarães. O Estado de S. Paulo (Domingo, 2 de julho de 2017)

POEMA ECOLÓGICO

Poema de Júlio Roberto, 1978, uma deliciosa lição-análise sobre este nosso cada vez mais agredido Ambiente, pela ganância ilimitada do mundo dos cifrões está a conduzir para a destruição.


“Amigo Chefe Seattle 
Li a tua carta escrita em 1854 ao grande Chefe Branco de Washington. 
Sou um homem de 1978 que vive, como tu previste, num mundo em decadência e destruição. Já não ouço o sussurrar do vento nem o diálogo nocturno das rãs nos charcos da selva. Já nem temos selva. 
As flores murcham, as árvores agonizam, os pássaros fogem e os insectos deixam de zumbir. Sei que sou um homem enjaulado numa cidade, enquanto outrora tu vivias nas pradarias, lá onde bisontes e búfalos te alimentavam o corpo e a alma. 
Os rios, para ti sagrados, são hoje para mim apenas uma miragem de infância. Neles, em vez de peixes a fazerem corridas e acrobacias, eu vejo o lixo da nossa civilização, os detritos deste mundo, as opulências mortas de uma humanidade que se afunda vertiginosamente na era do plástico. 
Olho para as estrelas e o luar. Parecem mais distantes do que são, e os meus olhos, desabituados já de os observar, cansam-se facilmente. Não tenho, como tu tinhas, esse poder de olhar de frente o sol, de receber – sem me cegar – a sua luz e o seu calor. 
As águias, vi uma ou outra, como se fossem já animais pré-históricos, aturdidos e se calhar confusos, sem perceberem o que fizemos desta Terra. 
E o mar, esse, sobretudo o que vinha dantes banhar as nossas praias e namorar a areia branca, vem agora sujá-las, com o lixo que lhe deitaram dentro. Tem um ar triste, de um mendigo que, às vezes, se revolta e destrói as grandes construções dos nossos engenheiros. 
Ah! Meu querido amigo selvagem! Como eu, que não vivi no teu tempo, nem nas tuas pradarias, tenho saudades da tua Terra sagrada! 
Sabes, agora temos frutos maiores, calibrados, estudados, enxertados, fertilizados e envenenados. Não sabem a nada, nem à frescura do néctar da flor que os gerou, nem ao perfume de que tu falas. 
A nossa sabedoria é outra. Transformámos tudo, progredimos, inventámos, criámos coisas que tu nem imaginas. Olha, substituímos o vento e o sol por uma coisa que se chama energia nuclear. 
Sabes, é que nós precisamos de mais energia. Criámos tantas coisas, somos seres tão exigentes, que a energia da Natureza não chega para os semideuses que nós somos.
Desviámos rios, irrigámos as terras, morreram muitos peixes, passámos fome; porém, temos coisas que tu nem sequer podias imaginar. 
Sabes o que é um arranha-céus com ar condicionado, elevadores que nos levam para cima e para baixo? Claro, não sabes. Tu não precisavas de morar para cima de ti próprio. Tinhas espaço e moravas para os lados. 
Nós vivemos a correr; tu contemplavas. Contentavas-te com pouco. Não admira, tu eras selvagem. Nós, não, temos necessidade de mais, cada vez mais, cada vez mais! 
É que nós não nos pertencemos. Pertencemos ao todo. Cada um é uma pequena peça que gira e roda sem saber porquê, e sem ter tempo para saber. 
Tu tinhas espaço, tinhas tempo e tinhas-te a ti. 
Como tu disseste, «Vocês morrerão afogados nos vossos próprios resíduos»”

Júlio Roberto (1929-2013) foi meu contemporâneo no Liceu. Na fase em que partilhei com ele e outros adolescentes com interesses intelectuais, ele era um curioso na biologia e na filosofia.
Professor, escritor, poeta, ecologista e editor (ITAU), foi conferencista em Portugal e no Estrangeiro, dissertando sobre a natureza, a qualidade de vida e o homem.
Convidado pelo Conselho da Europa para escrever um livro sobre os Direitos Humanos, aceitou o desafio, dando à estampa “Reconstruir o nosso mundo”, com ilustrações de Teresa Soller (ITAU, 1976), tido por um dos primeiros livros a alertar-nos para a destruição da biodiversidade pelo chamado progresso.
A. Galopim de Carvalho

Fonte: http://dererummundi.blogspot.com.br/2017/08/poema-ecologico.html

terça-feira, 25 de julho de 2017

segunda-feira, 24 de julho de 2017


Aquarela: Côca Torquato, Retalho de um limoeiro, 2007.
(Postais do Almocreve - Limoeiro do Norte/CE)

O grande "slogan" da educação mundial

Temos escolas do Século XIX, para ser simpático, 
porque algumas são do Século XVIII, 
com professores do Século XX, 
para alunos do Século XXI."

Director de uma escola portuguesa, 2017 


A frase acima reproduzida constitui uma variante, diria eu, mais radical, daquele que se tornou e se afirmou como o grande slogan da educação mundial: "temos uma escola do século XIX, com professores do século XX, para alunos do século XXI".

As palavras que lhe dão formam centram-se na premência de construção, na escola, do (tal) "homem novo": o "homem" liberto dessa inutilidade que é o passado e projectado para um presente/futuro repleto de possibilidades.

Esta é, porém, a face mais visível do slogan, pois, à medida que se vai explorando, revela toda uma "filosofia" não sei se complexa se linear, mas marcadamente imbricada, redundante, quando não contraditória, e sobretudo, desconcertante sob o ponto de vista conceptual.

Discuti-lo daria um tratado e um blogue não permite tal. Permite, no entanto, deixar, um apontamento do professor espanhol Ricardo Moreno Castilho, publicado no seu recente livroLa conjura de los ignorantes, páginas 118 e seguintes.

"Por muito actuais que as teorias da relatividade e quântica sejam (e é certo que estão constantemente a ser feitas novas descobertas) continua a ser necessário conhecer a teoria de Newton. Em primeiro lugar, porque (...) continua a ter validade e, em segundo lugar, porque sem a entender bem é impossível entenderem-se as teorias posteriores. Por muito antiquada que possa parecer, não há razão para deixar de a estudar (...). 
Passemos às humanidades. Já não se devem ler as obras de Sófocles, de Shakespeare ou de Cervantes? E no caso de se lerem, devemos explicá-las à luz das mais modernas correntes da crítica literária, de modo a não nos mostrarmos antiquados ou levar os alunos a aprender a amá-las e a desfrutá-las, como se tem feito sempre? Os bons professores de literatura do século XX aprenderam a gostar de Dom Quixote, que mal tem (...) se transmitirem o mesmo gosto aos seus alunos, do século XXI? 
E quanto à história, já não é preciso estudá-la? Se a história é o conhecimento do passado, do que já é antigo, nunca pode tornar-se antiquada (...). 
Não podemos adaptar-nos, nem interpretar, nem mudar o mundo em que vivemos se não o conhecermos bem. E o nosso mundo é um palimpsesto escrito sobre o Romantismo, que foi escrito sobre o Iluminismo, que foi escrito sobre a Contra-reforma, que foi escrito sobre o Renascimento, que foi escrito sobre a Idade Média, que foi escrito sobre o mundo latino, que, por sua vez, foi escrito sobre a Grécia, cuja cultura é devedora da egípcia e da suméria. 
Só conhecendo o passado podemos conhecer-nos a nós mesmos e ao nosso presente, porque somos o resultado de tudo o que nos precedeu (...). 
Somos herdeiros de um imenso caudal de sabedoria que, desde há quase três mil anos, foi guardado com muitas dificuldades (...) e que não se torna obsoleto. 
A nós, professores, cabe-nos a difícil e bela tarefa de conservar e transmitir esse legado aos nossos alunos para que também eles possam conhecê-lo, amá-lo e desfrutá-lo. 
É um acto de barbárie interceptar esse legado apenas e só para não parecermos estar ancorados no passado e cultivarmos uma imagem de vanguardistas, inovadores e progressitas."
Fonte: http://dererummundi.blogspot.com.br/2017/07/o-slogan-da-educacao-mundial.html 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

VIAJAR NÃO É PRECISO


Houve um tempo em que viajar de avião era uma experiência divina. Vem nos livros: assentos espaçosos, aeromoças civilizadas, refeições dignas de um casamento real.
Lamento. Nunca conheci esse tempo. Em quatro décadas de vida, foi sempre a piorar. Hoje, regressado de uma viagem de dez horas, pergunto: vale a pena o duplo investimento? Falo do dinheiro para ir e do dinheiro para voltar. "Voltar", aqui, é no sentido ortopédico do termo: haverá fisioterapia para eu voltar a caminhar sem dores.
Tudo começa antes da viagem propriamente dita. O mesmo mundo que conseguiu enfiar um desgraçado na Lua é incapaz de encurtar os tempos de espera. O dia começa cedo, obscenamente cedo, porque é preciso estar duas ou três horas antes no lugar de embarque.
Cumprimos a tortura (de despertar) e depois cumprimos a outra (de carregar): são malas de 20 kg, nunca menos, que arrastamos pela madrugada até o táxi chegar.
O aeroporto se ergue no horizonte. Entramos. O cenário é Ellis Island, nos idos de 1900: filas quilométricas que se mexem com velocidade paquidérmica.
Nós, ensonados, já cansados, vamos empurrando a mala a pontapés. Às vezes ela cai sobre o companheiro da frente. O companheiro nem reage. Somos como os animais que caminham para o matadouro sem a energia suficiente para fugir ou chorar.
Segue-se para o controle de segurança. Removo o laptop. Descalço os sapatos. Tiro o cinto. Baixo as calças. O segurança diz que as calças não são necessárias. Passamos pelo detector de metais. Algo apita.
Os guardas aproximam-se com cara de caso e revistam-nos como se fôssemos criminosos potenciais. Nada encontram e nós suspiramos de alívio. Temos a vaga impressão de que não cometemos nenhum crime, mas nunca se sabe: como dizem os médicos, um paciente saudável é alguém que não foi devidamente analisado.
Caminhamos para a porta de embarque. Nos aeroportos modernos, isso significa que, a meio do percurso, pensamos seriamente se não é preferível esquecer o voo e continuar a pé até ao destino. Desistimos. Felizmente, só faltam 50 quilômetros para a porta de embarque.
Na porta, ninguém embarca. Mas já existem filas de passageiros que preferem esperar em pé porque se esqueceram que o voo tem lugares marcados. Sempre contemplei esses infelizes com caridade cristã: duas horas no aeroporto e eles já não pensam; seguem o rebanho e torturam-se sem necessidade.
Entramos no avião. Ou melhor, eu entro, sempre em último, e os companheiros lançam-me olhares de desprezo, só porque eu tive a desfaçatez de esperar sentado.
O meu lugar está ocupado com bolsas, livros, comida, às vezes uma criança de colo. Quando informo que o lugar é meu, a luz que existia no olhar do parceiro do lado extingue-se de imediato. Como é fácil destruir a esperança de um ser humano.
Sento-me. Melhor: encaixo-me. E ali fico, um corpo embalsamado: se me jogassem numa vitrine do Museu Britânico, eu seria mais uma múmia esperando pelo seu retrato.
Vem a comida. É o melhor momento da viagem. Nunca entendi aqueles que reclamam do produto. Eu provo, aprovo e até peço para embrulhar: tenho dois cães em casa que esperam ansiosos pelo manjar.
Cansado, esfaimado e delirante, sonho com lugares paradisíacos. No meu caso, esse lugar é sempre o mesmo: a parte de trás de uma ambulância, onde vou finalmente deitado na maca.
Acordo na aterrissagem, levanto-me e uma estranha sensação invade o meu corpo. Por momentos, penso que é a alegria de ter sobrevivido. Afinal, é apenas a minha circulação sanguínea a regressar.
E no futuro? A coisa promete. Leio em algum lugar que a Boeing tem um novo modelo na praça: é o 737 MAX 10. Com 230 lugares (o primeiro Boeing 737 tinha 124 assentos), o avião tenciona transportar mais gente em menos espaço. Creio que isso só será possível quebrando as articulações dos passageiros, mas prometo investigar.
Quando partilhei a informação com um colega viajante, ele rosnou: "Melhor ir no porão".
Pobrezinho! Como é inocente! O porão! Será que ele não sabe que o porão não é para a gente? É para animais ou cadáveres, duas classes que estão ligeiramente acima dos passageiros regulares? Digo mais: na aviação comercial moderna, só viaja bem quem vai na jaula ou no caixão.
Razão tinha o poeta: quando viajar é preciso, viver não é preciso.
 (João Pereira Coutinho)

Fonte: Folha de S. Paulo, Ilustrada,  4/07/17.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Fonte: Ilustríssima / Folha de S. Paulo / 7.Maio.2017

Fonte: Ilustríssima / Folha de S. Paulo / 7.Maio.2017

terça-feira, 9 de maio de 2017

AOS MESTRES, COM CARINHO

A missão do professor é ensinar a pensar, não catequizar sobre o certo e o errado. Uma carta divulgada por 14 alunos do Colégio Santa Cruz, criticando a adesão de seus professores à greve geral, evidencia que eles aprenderam. O cerne da crítica: os professores apelam a "noções generalistas de justiça social" e pautam-se "em um maniqueísmo exacerbado", adotando uma "forma de pensar" que "simplifica e empobrece o debate" sobre a reforma previdenciária.

Portinari pintou "Os Retirantes" em 1944, na trilha da criação do Dnocs e da Codevasf. A imagem pungente dos migrantes famélicos conferiu uma aura de santidade à captura de recursos federais pelas elites nordestinas. Na sua carta, os alunos explicam como a invocação ritual de direitos sociais oculta a defesa de privilégios corporativos: o regime especial do funcionalismo, as aposentadorias fidalgais do Judiciário. Eles aprenderam a identificar um truque clássico do discurso político –e confrontam a frase feita com o argumento.

Os pobres, álibi de sempre, não serviram para calar a boca desses 14, que oferecem uma aula a seus mestres. "Um direito ser garantido por lei não garante o orçamento necessário para cumpri-lo". Atrás do sistema de privilégios previdenciários, encontram-se os desastres no saneamento básico, na educação e na saúde públicas.

O deficit da Previdência, que cresce no compasso da dinâmica demográfica, só pode ser financiado pela reativação do tributo inflacionário, um imposto antidemocrático cobrado dos pobres. Quem ensina quem, nesse caso?

Os 14 refutam o manifesto grevista de seus professores, mas só desvendam parcialmente seu sentido político. A indagação crucial é: por que os mestres, "que nos possibilitaram desenvolver as competências necessárias para entrar no debate político", rejeitam a complexidade, retraindo-se à caverna do chavão sindical? Desconfio que as respostas a essa questão ajudem a iluminar a extensão da adesão à greve geral.

Na pré-história da nação brasileira, estão colonos empenhados em "fazer a América", capturando índios, buscando pedras preciosas, extraindo ouro. Prezamos, acima de tudo, a recompensa pecuniária pessoal. Na Istambul de 2013, uma onda de manifestações antigovernistas foi deflagrada pela defesa do parque Gezi, que se queria converter em shopping center.

Aqui, não fazemos isso. Escolas, hospitais, redes de esgoto, metrôs e trens, praças públicas, bibliotecas, museus, parques nacionais? Não: lutamos por repasses em moeda sonante, nas formas de aposentadorias precoces, pensões especiais, bolsas, multas rescisórias, passes livres, cestas básicas, uniformes escolares, faltas abonadas, cotas raciais, meia-entrada. Desprezamos os direitos sociais universais. Queremos nossa parte em dinheiro –e já!

A história política moderna do Brasil começa com Getúlio Vargas. O primeiro "pai do povo" ensinou-nos que o Estado funcionará como intermediador geral da disputa por rendas. Com ele, aprendemos a interpretar os "direitos" como notas promissórias emitidas pelo Tesouro em nome de indivíduos organizados em corporações.

Os empresários almejam subsídios do BNDES, os sindicalistas protegem o imposto sindical, os artistas cantam a glória de leis de incentivo financiadas por renúncia tributária. A nossa parte em dinheiro depende da qualidade da conexão política de nossa corporação. Séculos depois, os colonos ainda "fazem a América", mas por outros meios. A efígie de Vargas tremula na ponta dos mastros da greve geral.

Lula ensaiou uma reforma previdenciária, no primeiro mandato. Dilma falou sobre a necessidade de aumentar a idade de aposentadoria, no curto outono realista de seus últimos meses. De volta à oposição, o PT se esqueceu disso, investindo na canção antiga, que toca a alma da nação de colonos estatizados. Eis uma aula que os 14 não terão.

DEMÉTRIO MAGNOLI

Fonte: PODER, 29.04.2017 - Folha de S. Paulo

Artes & Letras Atelier



ROMA - La Bocca della Verità



quarta-feira, 8 de março de 2017


É evidente que no jogo político é visto como natural um partido da oposição dificultar a vida a um partido no poder. É igualmente evidente que esta prática reiterada parece legitimar quem, tendo estado no poder, faz agora o que lhe fizeram no passado. A coerência das ideias não é vista como uma virtude, é mais valorizada a coerência na ação, dependendo do lugar em que os políticos se encontram em cada momento. Presos à maquiavélica ideia de que "os fins justificam os meios", na política caseira vale tudo.É legítimo que o PSD de Pedro Passos Coelho vote contra a descida da TSU para os patrões, que sustenta o acordo de concertação social para a subida do salário mínimo? Sim, mas não escapa à comparação com o passado recente, em que defendeu a descida desta taxa nas empresas. Pode o PS esperar que o PSD esteja sempre disponível para lhe dar a mão, quando falham os seus parceiros de esquerda? Não, mas não é nestas matérias que o PSD fará perigar a geringonça.Os social-democratas alegam que a descida da TSU que colocaram em anterior concertação social tinha outros pressupostos no valor da subida do salário mínimo, mas o que querem votar ao lado da esquerda é o mérito de reduzir a TSU às empresas. Sendo evidente, por isso, que a intenção de Passos Coelho é apenas afirmar a sua liderança e não discutir as virtudes do acordo de concertação social, o líder do PSD menoriza-se quando pretende agigantar-se. Não é no interior dos partidos que os líderes primeiro encontram o isolamento, ele começa fora. Passos terá medido as consequências de ter contra si as confederações patronais e a UGT? Não me parece!A pequena política, a que hipoteca convicções, procurando ganhos conjunturais, não assegura grandes futuros. Pedro Passos Coelho ainda tem escapatória. Demonstrada a fragilidade política da coligação que o PS fez com os seus "amigos da esquerda", o PSD não pode trocar de lugar com os socialistas nessa coligação. Precisa de viabilizar a descida da TSU, pela abstenção que seja, para ganhar espaço para outros combates. O sistema financeiro que continua por resolver e a dívida portuguesa que começa a regressar a juros proibitivos exigem uma oposição mais eficaz no escrutínio às políticas econômicas do governo. A política tem muitos caminhos, mas alguns não levam a lado nenhum.


Fonte: Dário de Notícias - Domingo, 15 de janeiro de 2017.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Entrevista Diego Rosselli

Todo paciente tem um preço, afirma farmacoeconomista

(Diego Rosselli em congresso na Costa Rica)

Todos nós temos um preço, afirma o especialista em farmacoeconomia Diego Rosselli. Para o presidente da Sociedad Internacional de Farmacoeconomia e Investigación de Resultados, na Colômbia, "devemos saber que os recursos são limitados e ver o quanto podemos pagar por isso".
Para Rosselli, que palestrou no Roche Press Day, na Costa Rica, no último dia (7), tanto o governo quanto os usuários do sistema de saúde devem entender as dimensões econômicas de cada decisão na área.
Em outras palavras, é necessário entender o quanto vale investir em um ano a mais de vida de um paciente, em vez de observar apenas os custos do tratamento.
*
Folha - O que é preciso saber de farmacoeconomia pra não tomar decisões erradas?
Diego Rosselli - Uma das coisas que temos que colocar como objetivo é que cada um dos agentes que participam das decisões em saúde tenha conhecimento para negociar. E o paciente tem que conhecer as informações dos custos da enfermidade, os custos de não tratar a doença, os conceitos de custoefetividade para comparar uma doença à outra.
Todos nós, individual ou coletivamente, temos um preço?
Sim. Devemos saber que os recursos são limitados e ver o quanto podemos pagar por isso. Todos temos um preço.
O senhor fala de diferenciar os custos diretos, indiretos e intangíveis. Quais são eles?
O custo direto vem daquilo que tem preço, como um medicamento, uma diária em um hospital, o custo de deslocamento de levar um paciente de um lugar a outro.
Um custo indireto é o custo da produtividade de uma pessoa, de um dia em que não vai trabalhar ou do dia em que vai trabalhar mas não consegue trabalhar bem. Pode ser o caso de um cuidador, da pessoa que se aposenta cedo por invalidez.
Há um problema aí: os custos diretos podem ser parecidos para ricos e pobres, mas os custos indiretos são injustos com os pobres. Um escandinavo com artrite reumatoide que continua trabalhando consegue pagar um remédio que custa mil dólares todo mês. Agora, um trabalhador brasileiro dificilmente conseguiria isso com seu trabalho.
Já os custos intangíveis são mais difíceis de quantificar. São os custos da dor, da ansiedade. Se um médico pede um exame de sangue e constata que você tem HIV, e você está se sentindo bem, ainda assim há um custo pelo fato de você ter descoberto isso.
É mais difícil ainda se falarmos de morte. Perder um filho é uma experiência tão dolorosa que chega a ser difícil colocar um custo, e a sociedade valora isso de maneira diferente. Se alguém morre aos 12 anos, significa que algo de errado ocorreu.
Parece frio esse olhar matemático diante de uma doença. Ou mesmo uma política pública em que o governo tenha que dizer "então, a partir de 70 anos não vamos pagar tal remédio". Como chegar a um denominador comum?
Estávamos reunidos com um grupo de transplantados, falando sobre transplante de rim. Discutíamos uma situação em que há apenas um rim disponível e dois pacientes que precisam dele, um de 21 anos e outro de 70. A quem daríamos o rim? O Presidente da Associação Colombiana de Transplantados, que tem cerca de 70 anos, disse "isso não é justo, paguei meus impostos a vida inteira". Então, ele já teria pago por esse rim, e o de 21 anos, não. Com o envelhecimento das nações, esse é um problema que veremos cada vez mais.
Imagine que você tem 70 anos, dois filhos, seis netos. Vocês têm uma casa familiar, um carro, um capital de alguns milhares de dólares. Se você adoece e dizem que você tem que pagar US$ 50 mil pelo tratamento para que viva alguns anos a mais, é preciso refletir. Essa é uma reflexão que exige que aceitemos a morte, que é um passo importante na nossa cultura.
Então, mesmo o custo da cura deve ser sustentável?
Sim, penso que sim. Creio que um dia vamos chegar a estabelecer um valor a uma pessoa, como em casos de câncer de pulmão, que tem um custo alto.
E se a pessoa nunca fez esforço para deixar de fumar e isso culminou em um tumor? Com que direito ela quer que paguemos US$ 50 mil pelo seu tratamento? É um valor diferente de uma pessoa que fez esse esforço para parar de fumar. Devemos valorar isso um dia?
E como levar essa discussão para as políticas públicas?
Não há nenhum país que tenha conseguido isso. Quando falamos de PIB per capita do Brasil, há uma diferença entre Estados, entre o Rio Grande do Sul e o Amazonas. Não há país que tenha incorporado isso, essa forma de tratar as pessoas como se não valessem o mesmo. Mas há razões para imaginar que, um dia, isso pode mudar.
Quais as dificuldades para um país em crise como o Brasil?
O Brasil tem um grande problema, que é o seu tamanho. É grande em geografia, em diversidade. Se você pensar em Uruguai, em Costa Rica, fica mais fácil decidir para uns poucos milhões.
Uma coisa que está nascendo no Brasil e em outros países latino-americanos é o chamado "risco compartilhado" –quando um remédio entra no mercado, mas num regime condicionado.
Um novo mecanismo pode ser um sistema em que se paga pelo paciente que responde ao tratamento. Agora o Brasil tem problemas para resolver, como a crise e os Jogos Olímpicos do Rio. Depois, podemos voltar a conversar.
-
RAIO-X - DIEGO ROSSELLI
Formação
Médico pela Universidade de Rosario e mestrado em ciências pela London School of Economics e em educação em Harvard

Trajetória
Professor na Pontifícia Universidade Javeriana (Colômbia); diretor de desenvolvimento científico e tecnológico no Ministério da Saúde do país (1993-1996)

A jornalista viajou a convite da Roche e integrou o 4º Programa de Treinamento em Jornalismo de Ciência e Saúde. 


Fonte: Folha de S. Paulo (Saúde+Ciência) - 23/07/2016

Desperdício nababesco

Nas faculdades de medicina o preço dos tratamentos é ignorado

É nababesco o desperdício de exames no Brasil. No consultório, canso de ouvir a frase: "Doutor, já que vou colher sangue, pede todos os exames, tenho plano de saúde". Nos atendimentos na Penitenciária Feminina de São Paulo, a mesma solicitação, com a justificativa: "Tenho direito, é o SUS que paga".
Fico impressionado com o número de exames inúteis que os pacientes trazem nas consultas. Chegam com sacolas abarrotadas de radiografias, tomografias computadorizadas, ressonâncias magnéticas e uma infinidade de provas laboratoriais que pouco ou nada contribuíram para ajudá-los.
Num dos grandes laboratórios da cidade, mais de 90% dos resultados caem dentro da faixa de normalidade. Numa das operadoras da Saúde Suplementar, pelo menos um terço das imagens realizadas junta pó nas prateleiras, sem que ninguém se dê ao trabalho de retirá-las.


São múltiplas as causas dessas distorções. Nas consultas-relâmpago em ambulatórios do serviço público e dos convênios, os médicos se defendem pedindo exames que poderiam ser evitados caso dispusessem de mais tempo para ouvir as queixas, o histórico da doença e examinar os pacientes.
Para solicitar ultrassom ou tomografia para alguém que se queixa de dores abdominais, basta preencher o pedido. Dá menos trabalho do que avaliar as características e a intensidade da dor, os fatores de melhora e piora, e palpar o abdômen com atenção.
Como regra, o paciente sai da consulta confiante de que as imagens revelarão o que se passa no interior de seu organismo com muito mais precisão do que o médico seria capaz de fazê-lo.
O problema é que muitas vezes o exame será marcado para semanas ou meses mais tarde, porque os serviços de imagem ficam sobrecarregados com o excesso de demanda. A demora prejudicará sobretudo aqueles em que há urgência para chegar ao diagnóstico, deixados para trás pela enxurrada de pedidos desnecessários.
As operadoras de saúde, que hoje se queixam da infinidade de exames subsidiários que encarecem as contas a pagar, esquecem que até há pouco faziam comerciais na TV que mostravam resgates por helicóptero e exibiam aparelhos de ressonância para convencer os usuários de que ofereciam serviços de qualidade.
Nós, médicos, colaboramos decisivamente para aumentar o custo da medicina: é de nossos receituários que partem as solicitações. Fazemos a vontade dos que nos pedem "todos os exames", pedimos provas laboratoriais sem pensar na relevância para o caso e nos damos ao luxo de solicitar exames e prescrever medicamentos sem ter noção de quanto custam.
Nas faculdades de medicina ninguém fala de dinheiro. Os estudantes não recebem noções elementares de economia e o preço dos tratamentos é ignorado como se vivêssemos em outro planeta.
Nos hospitais-escola, o descompromisso com a realidade econômica é universal. Com o argumento de que os internos e residentes precisam aprender, ficam justificadas as imagens mais exóticas e a repetição diária de dosagens de íons, provas de função renal e hepática, hemogramas, glicemias e o que mais passar pela cabeça dos plantonistas das UTIs e das unidades semi-intensivas.
É preciso entender o óbvio: os recursos públicos destinados à saúde são insuficientes. Eles não vêm do governo, saem dos impostos pagos por nós. Cada vez que somos atendidos pelo SUS, fazemos uso de uma parte do dinheiro que é de todos, e se o gasto for exagerado muitos ficarão em desvantagem. É bem provável que sejam os mais necessitados.
Nos planos de saúde acontece o mesmo, com uma diferença: o preço da mensalidade aumenta para todos. É simples assim. Hoje, os gastos com saúde das empresas constituem a segunda despesa mais alta do orçamento anual, só perdem para a folha de pagamento.
O SUS e a Saúde Suplementar estão diante do mesmo desafio: como reduzir os custos. Sem fazê-lo, ambos sistemas se tornarão inviáveis antes do que imaginamos.
A viabilidade do SUS e da Saúde Suplementar não será alcançada por meio de ideologias, mas com medidas práticas que reduzam os custos da assistência médica e com intervenções preventivas para evitar que as pessoas fiquem doentes.

Fonte: Folha de São Paulo (Ilustrada / Drauzio Varella) 26/11/2016