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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Poesia

                                                                
                                                      NÃO HÁ DEUSES

Não há deuses e você pode fazer o que quiser:
Jogar uma partida de tênis, dar voltas de carro, fazer algumas compras

Ou sentar-se e conversar, conversar, conversar
Tendo nas mãos um cigarro que vai amarelando seus dedos.

Não há deuses e você pode fazer o que quiser...
Divertir-se à vontade

Mas deisxe-ma, deixe-me só comigo mesmo!
Mas, então de quem é esta presença no qaurto?
Que torna o ar tão calmo e agradável?

Quem, de cada lado, me aflora suavemente o peito
E toca-me sobre o coração
De modo que ele bate pacificado, pacificado?

Quem alisa os lençóis como alisa o oceano verdejante
Quando os peixes na orla estão imersos em sonhos?

Quem abraça e junta meus pés nus
Até que desabrochem - flores de lótus-
Até que tudo esteja bem, perfewitamente bem?

Eu lhes digo: não é mulher nem homem porque estou só
E adormeço com os deuses, com os deuses
Que não existem ou existem
De acordo com o que a alma deseja,
Como um lago em que mergulhamos ou não mergulhamos

D.H.LAWRENCE
Traduzido por César Luiz Paulini


sábado, 16 de junho de 2012

Poesia

                                               O NEGRO FALA DOS RIOS

Tenho conhecido rios
Tenho conhecido rios antigos como o mundo e mais velhos
do que o fluxo do sangue humano em veias humanas.
Minh'alma tem crescido profunda como os rios.
Tomei banho no Eufrates quando as auroras eram jovens.
Construi minha choupana perto do Congo e ela me embalou para dormir.
Observei o NIlo e ergui as pirâmides acime dele.
Ouvi o canto do MIssissipi quando Abrahão Lincoln foi para Nova Orleans
e vi seu leito lamacento tornar-se todo dourado ao por do sol.
Tenho conhecido rios :
Rios antigos,sombrios.
Minh'alma tem crescido profunda como os rios.

Langston Hugnes
no livro I've Known Rivers, de Sarah Lawrence Lightfoot - tradução de Agamenon Bezerra da Silva.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Poesia II

Mea Culpa

Em vez de te poupar,
Gastei-te sem saber o que fazia,
E não vivi.
Morri
Em cada hora cega que vivi.

Solidão

Pouco a pouco, vamos ficando sós
Esquecidos ou lembrados...
Mortos sem ter morrido,
Lúcidos defuntos,
Vemos a vida pertencer aos outros.

Miguel Torga
(trechos dos dois poemas)


Poesia I

Sou restos de um menino que passou
Sou rastos erradios num caminho
Que não segue, nem volta, que circunda
A escuridão como os braços de um moinho.

Paulo Mendes Campos



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Poesia II

"Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,/que não exista força humana alguma/que esta paixão embriagadora dome"

"E que eu por ti, se torturado for/possa feliz, indiferente à dor,/morrer sorrindo a mumurar teu nome".

O autor desses versos é Carlos Marighella que os escreveu num presídio em São Paulo, no ano de 1939.

Quando jovem o futuro revolucionário respondeu em versos, no Ginásio da Bahia, a uma prova de física que versava sobre a lei da reflexão dos espelhos.

Saiba mais na coluna de José Miguel Wisnik, sob o título A bolsa ou a vida, no jornal O Globo, edição de 05/11/11

Poesia

     Inluação

Aos inventores do protetor solar
peço que inventem o protetor lunar:

Sombra nenhuma da noite protege
a alma ardente exposta ao luar:

Carlos Nóbrega

in Corsário, nº 1 - julho/2011

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Poesia

Morreu aos 78 anos, há alguns dias, o poeta Mário Chamie. Lutou bravamente contra um câncer do pulmão sem deixar de escrever poemas a serem reunidos em livro que não alcançou publicar.

Foi secretário municipal de cultura (1979/1983) quando teve ensejo de realizar obra de que muito se orgulhava, o Centro Cultural São Paulo.

Abaixo um desses poemas nascidos no período do duro embate da vida com a morte.

LIVRO ABERTO

A rua é um livro aberto.
O olho minúsculo de um
pássaro
é um livro aberto.
A porta fechada de um
quarto
é um livro deserto.
Tenho escrito palavras
de muitos livros refeitos
que, surdos e quietos,
tecem límpidos e claros
os seus herméticos enredos.
Na rua leio o que soletro.
No minúsculo olho de um
pássaro
não leio o que vejo,
embora pássaros e ruas
me ensinem o que percebo.
Me ensinam, por exemplo,
o desterro aberto e refeito
de todo todo livro relido,
se atrás da porta fechada,
refaço o seu silêncio
desfeito,
releio o meu silêncio
perdido.

Saiba mais no jornal O Estado de S. Paulo, edição de 04/07/11
    

domingo, 24 de julho de 2011

Poesia

De Tomás Antonio Gonzaga para sua amada Joaquina Doroteia de Seixas, que permaneceu em Vila Rica até morrer solteira aos 82 anos, um pequeno trecho de Marília de Dirceu :

Minha bela Marília, tudo passa
A sorte deste mundo é mal segura
Se vem depois dos males a ventura
Vem depois dos prazeres a desgraça.

Saiba mais no suplemento C2 + Música do jornal O Estado de S. Paulo, edição de 22/07/11

domingo, 10 de julho de 2011

Musa

Escherichia coli é o nome da bactéria que a partir de brotos de feijões contaminados cultivados em uma determinada região da Alemanha causou um surto de diarreia com graves complicações renais e alguns óbitos.

Até se descobrir a fonte de contágio os serviços alemães de epidemiologia incorreram em equívocos que resultaram em sérios prejuizos financeiros para agricultores europeus.

Pois esta bactéria, de súbita notoriedade, que ceifou vidas e patrimônios na civilizada Europa, um dia foi musa, insólita, é verdade, do escritor português Vitorino Nemésio (1901-1978) conforme está em três dos poemas de sua última fase no livro Limite de Idade.

Com a saúde precária, acometido de achaques, fragilizado em sua humana condição, Vitorino Nemésio mistura em sua poética termos médicos, inquietações metafísicas e a literatura em geral.

E.coli é a feminil bactéria convertida em musa enquanto Beatriz (a de Dante), Daisy ( a de Pessoa, no Soneto já Antigo, de Álvaro de Campos) e Dolly (uma amiga de Nemésio) seriam no dizer de Vasco Graça Moura como as três Graças.

O primeiro desses poemas é um tríptico de nome Escherichia onde há passagens assim :
Escherichia ou Beatriz, que importa o nome/.../A prometida morte nos consome, acrescentando
Assim, tu Escherichia és meu tormento/E noturno . Beatriz funérea ! / Quem nasceu para casto fingimento / Afinal pode amar uma bactéria.

E ainda, na terceira parte lemos : ...feminil bactéria / Por ela todo estremeço / Em suor e ácido úrico.

Noutro poema, Tubo de Ensaio, patético, canta : Eu, que por causa da Escherichia coli, / Quase não sei (como se diz ? ) - meiar... A poesia é um louco laboratório, / E eu dispo a bata para não chorar.

No caso do poeta o mais provável é que seu tormento lírico, provocado pela  bactéria/musa, fosse uma perniciosa infecção urinária.

Como se vê a inspiração que move os poetas não escolhe objeto, anda por aí a espreita de uma alma sensível que a capture.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O tempo

Quando era criança
Gostava que o tempo apressasse
Para ingressar logo
No mundo dos adultos

Agora, gostava
Que o tempo retardasse
Para conviver com as
Promessas do futuro

Ele, nunca, nem ontem
Nem hoje, me obedeceu,
Rebelde aos meus desejos

Indomável, manteve
O ritmo de sempre
Indiferente às minhas
Vontades

Fico todavia a pensar
Que acelera a roda quando
A vida está madura.

domingo, 6 de junho de 2010

Reflexão do domingo

                       SONETO

Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque, quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido;
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmado na sacra história,

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

Gregório de Matos

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Poesia

                                                      NÓS DOIS E A CHUVA

                                                      Água escorre no beiral
                                                      dia sereno, aconchego
                                                      chuva fina no plantio
                                                      silêncio frio a escorrer
                                                      água doce na cisterna
                                                      rio cheio de brios e
                                                      tamanha seria a alegria
                                                      não fosse tua ausência
                                                      a encher tanto de vazio
                                                      o nosso tempo do hoje
                                                      não copiado no ontem
                                                      tão lindo era para todos
                                                      no verde da abundância

                                                           Beatriz Alcântara

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Camões

O escritor brasileiro Ferreira Gullar foi o ganhador do prêmio Camões deste ano. O anúncio foi feito hoje, em Lisboa, pela ministra da cultura de Portugal.

O valor do prêmio é de 100.000 euros, repartidos igualmente entre os governos português e brasileiro.

A distinção foi concedida por ter o juri distinguido  na obra do poeta uma "nota pessoal de lirismo" e a presença de "valores universais".

terça-feira, 25 de maio de 2010

Poesia

Eu pisava de tábua em tábua
Um caminho lento e cauteloso
Sentia as estrelas perto da cabeça
O mar perto dos pés.

Eu não sabia se o próximo
Seria meu último centímetro -
Isso me dava aquele passo precário
Que alguns chamam de experiência.

                               Emily Dickinson

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Poesia

A mente é seu próprio lugar e em si própria
Pode fazer do inferno um paraiso, do paraíso um inferno
                                              
                                                                   John Milton

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Caipirinha

A caipirinha inspirou o escritor chileno Antonio Skarmeta, aquele cujo livro serviu de argumento ao filme O Carteiro e o Poeta, a escrever um poema em louvor da bebida.

O mundo inteiro te bebe com satisfação
Me fazes perder a razão
Mas encontrar a vida
Viva a maravilha, viva o limão
Viva o gelo e a emoção

Da coluna Gente Boa, jornal O Globo, edição de 04/04/10

quinta-feira, 11 de março de 2010

Poesia

Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que tudo é vão
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.

Fernando Pessoa

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Poesia

As Aranhas

Que belas aranhas!
Tão belas, tão ternas!
Pois caem do teto
E não quebram as pernas!

Um Adeus

Cesso a vida de -- compor;
Cesso a vida d'escritor;
Passo a rever minhas obras
Passo a cortar-lhe as sobras;
Passo a examinar-lhe os erros
A decepa-los passo a ferros!

De José Joaquim de Campos Leão, que se alcunhou Qorpo Santo, textos extraídos do livro Os Homens Precários, de Flávio Aguiar, sobre a obra do poeta e escritor gaúcho.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Ladainha

Litania dos Paradoxos

Dos padres sem fé
livrai-nos, Senhor

Da insensatez dos sensatos
livrai-nos, Senhor

Da pressa dos lentos
livrai-nos, Senhor

Dos drogados sem droga
livrai-nos, Senhor

Do ruido do silêncio
livrai-nos, Senhor

Dos pintores daltônicos
livrai-nos, Senhor

Da compaixão dos brutos
livrai-nos, Senhor

Da verdade dos falsos
livrai-nos, Senhor

Da lucidez dos insanos
livrai-nos, Senhor

Da injustiça dos justos
livrai-nos, Senhor

Da insanidade dos sãos
livrai-nos, Senhor

Da fé dos ateus
livrai-nos, Senhor

Da presunção dos humildes
livrai-nos, Senhor

Da alegria dos tristes
livrai-nos, Senhor

Da paixão dos frígidos
livrai-nos, Senhor

Da imperfeição dos perfeitos
livrai-nos, Senhor

Da mentira dos sinceros
livrai-nos, Senhor

Da coragem dos covardes
livrai-nos, Senhor

Da ignorância dos sábios
livrai-nos, Senhor

Do brilho das trevas
livrai-nos, Senhor

Da fama que difama
livrai-nos, Senhor.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Poesia

Podem zombar de nós aqueles que não gritam
nem choram nem imploram à vida a fé que já perderam.
Podem inventar teorias sobre a sorte
e rezar a um Deus qualquer como autômatos
da fria engrenagem desse tempo.
Podem ostentar nos dedos os anéis da indiferença
e usar em pleno peito os adereços inúteis da bondade.
Podem zombar de nós.
Trazemos a transgressão perto do sangue e um vendaval
na voz a bradar o sonho desmedido dos poetas

Graça Pires, Inútil, nº 1, Outubro de 2009- Lisboa.