sábado, 19 de maio de 2007

Deu no Diário do Nordeste

A roupa nova de Lúcio

Impelido à oposição, o ex-governador Lúcio Alcântara (PR) está se adequando ao novo papel. Em seu blog (www.lucioalc.blogspot.com ) já escreveu dois posts dos quais pinga veneno. O mais recente espeta o sucessor e o Sindicato dos servidores estaduais: ´O Governo do Estado anualmente, por ocasião do aumento do salário mínimo, elevava o piso salarial geralmente no mesmo percentual de reajuste do mínimo, ainda que o piso já estivesse em um valor superior ao anunciado. Este ano até agora nada aconteceu. Onde andará o ´Mova-se´ que não se move?...´

Em três vias. E com carimbo

O primeiro post crítico do blog de Lúcio Alcântara preserva a sutileza que caracteriza o fazer político do ex-governador: ´Preocupante é a situação da indústria no Ceará. No primeiro trimestre deste ano o crescimento industrial médio do Brasil foi de 3,8%. Apenas dois estados apresentaram desempenho negativo, o Amazonas (-2,5%) e o Ceará (-4,2%). Os dados são do IBGE´. Mas é interessante notar que Lúcio mirou em três alvos bem diferentes: o funcionalismo, a esquerda - representada pelo sindicalismo, que não largou do pé de sua gestão - e o empresariado.

Leia a Coluna Comunicado na íntegra

sexta-feira, 18 de maio de 2007

A França de Sarkozy e Fillon

Nicolas Sarkozy assumiu quarta-feira (16) a Presidência da França no lugar de Jacques Chirac, no poder havia 12 anos. No discurso de posse, o novo chefe de Estado prometeu defender a identidade e a independência da França e trabalhar por uma Europa que proteja seus próprios cidadãos.

Afirmou que irá "trazer de volta valores como o trabalho, o esforço, o mérito e o respeito". Disse, ainda, que nunca houve uma necessidade tão grande de se opor à intolerância e ao racismo.

Ontem (17), Sarkozy nomeou François Fillon para o cargo de primeiro-ministro, apostando na capacidade de negociação desse conservador moderado para superar a resistência sindical às reformas que o novo governo propõe. O novo premier, 53 anos, é senador e já ocupou os ministérios de Ações Sociais e da Educação.

Na eleição francesa, chamou a atenção a taxa de participação, estimada entre 85% e 86%. Segundo todos os institutos de pesquisa, foi uma das mais altas já registradas na França, comprovando o interesse do francês nesta disputa.

Tanto a candidata socialista Ségolène Royal como o conservador Nicolas Sarkozy propunham mudanças. É como se a França estivesse rompendo com o status quo e desejasse um novo rumo para os franceses.

A vitória do Nicolas mostra que a tendência conservadora na França, embora esse conservadorismo dele, que se assume como um homem de direita, propusesse mudanças importantes na economia e outras áreas da política francesa, está inspirada nestes movimentos que vimos nos últimos anos na França, de imigrantes, de desempregados nos subúrbios das cidades francesas, na banlieue de Paris, com grandes perturbações na ordem pública, mostrando que há na França uma estagnação política e até da economia que requer um novo posicionamento do governo e dos franceses de modo geral.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Em busca de esclarecimento

Integrantes da CPI do Senado, instalada hoje, se reuniram com o comando da CPI da Câmara para trocar informações sobre as investigações em andamento pelos deputados. E pelo que li na internet, surgiram as primeiras divergências. O presidente da CPI da Câmara, deputado Marcelo Castro (PMDB-PI), e o relator da CPI no Senado, Demóstenes Torres (DEM-GO), demonstraram ter visões distintas sobre os relatórios finais a serem elaborados pelas CPIs.

Castro disse que seria um "escândalo" se as duas comissões chegarem a resultados diferentes ao final das investigações. Para Demóstenes, resultados diferentes podem naturalmente ocorrer em duas investigações distintas, mesmo quando abordam o mesmo tema.

Além da função legisladora, o Parlamento tem uma ação fiscalizadora. E a CPI é um instrumento importante de fiscalização, principalmente se não for manipulada. Nem pelo governo nem pela oposição. Ela deve buscar realmente esclarecer o assunto.

A desmilitarização do controle do tráfego aéreo é uma questão latente há muitos anos. Quando fui constituinte, já havia o desejo de separar o controle do tráfego aéreo. Eu e, acredito, todos os meus colegas constituintes fomos visitados por lobbys que defendiam as duas posições. Uma para manter o controle como ainda hoje é - dos militares da Força Aérea – e outra que queriam a separação.

O que se verifica é que essa separação é muito onerosa. Também não podemos esquecer que civil tem direito de reivindicar, de buscar melhores salários, melhores condições de trabalho.

No entanto, os controladores militares chegaram a um nível tal de irresponsabilidade, pela forma como conduziram a greve, que colocaram o tráfego aéreo em risco e milhares de pessoas em situação de desconforto, com atrasos e cancelamentos de vôos.

Foi uma atitude insana desses controladores, e que mostra que este é um problema sério a ser resolvido, vinculado até à discussão sobre o direito de greve em certas atividades, que exigem realmente um serviço contínuo e que não podem ser interrompidas, pois são de extrema necessidade e de grande interesse público.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

E o piso?

O Governo do Estado anualmente, por ocasião do aumento do salário mínimo, elevava o piso salarial geralmente no mesmo percentual de reajuste do mínimo, ainda que o piso já estivesse em um valor superior ao anunciado. Este ano até agora nada aconteceu. Onde andará o "Mova-se"que não se move...

terça-feira, 15 de maio de 2007

A retirada de Tony Blair

O primeiro ministro inglês, Tony Blair, anunciou sua renúncia abrindo a temporada de escolha de seu sucessor que, ao que tudo indica, será seu ministro da Fazenda, Gordon Brown. Ele foi o trabalhista a permanecer o maior tempo no posto. Foi o líder da renovação do trabalhismo inglês, pondo fim a anos seguidos de derrotas eleitorais.

Promoveu a reformulação do programa do partido e lançou a terceira via - uma versão repaginada da social democracia à inglesa. Modernizou o país, que desejava transformar em "farol do mundo"', levou a Inglaterra a anos seguidos de crescimento econômico e reformou o sistema educacional. Também incentivou a autonomia regional, instituindo, entre outras mudanças, os parlamentos regionais da Escócia e País de Gales. Foi responsável pela paz na Irlanda, levando protestantes e católicos à coalizão política na Irlanda do Norte.

No plano internacional, mostrou-se um firme aliado dos americanos, envolvendo seu país na guerra do Iraque a partir de mal explicadas evidências da existência de material nuclear naquele país, o que suscitou um escândalo que atingiu a tradicional BBC e os meios políticos ingleses. A participação na guerra do Iraque e a aliança visceral com Bush jogaram sua popularidade no chão e obrigaram-no a bater em retirada.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Preocupante...

...é a situação da indústria no Ceará.

No primeiro trimestre deste ano o crescimento industrial médio do Brasil foi de 3,8%. Apenas dois estados apresentaram desempenho negativo, o Amazonas (-2,5%) e o Ceará (-4,2%). Os dados são do IBGE.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Ceará - pioneiro

Matéria publicada na revista Veja, de 2 de maio, sob o título Governo de Resultados, motivou questionamento do deputado federal Leo Alcântara, em Brasília.

Merece reconhecimento o Governo do Estado de Minas Gerais pelo aprimoramento dos mecanismos de gestão pública. Mas a revista realmente cometeu um equívoco ao citar Minas como o primeiro estado do País a adotar como norma o compromisso com a definição de metas e avaliação de suas políticas a partir delas.

Em 2003, enquanto governador do Estado do Ceará, tornei público o Sistema de Metas Sociais, assunto amplamente divulgado por jornais de circulação local e nacional. Os principais pontos deste empreendimento estão reunidos no documento Ceará - a prática de uma gestão pública por resultados.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

João Paulo II e Bento XVI


Ao ver pela televisão a chegada do Papa Bento XVI a São Paulo, recordei de imediato o encontro que tive com seu antecessor João Paulo II, juntamente com Maria Beatriz, quando de sua visita ao Brasil iniciada por Fortaleza. Foi emoção forte e inesquecível e ainda que rápido o contacto foi suficiente para sentir o impacto de sua força espiritual. Era de fato um personagem cheio de carisma, capaz de transmitir a quem dele se aproximasse muito calor humano.

Enquanto o atual Papa é um intelectual, um teólogo, um homem de gabinete, vigilante na observância da doutrina, seu antecessor era jovem, esportista, ator de teatro na juventude, alpinista, combatente do nazismo e do comunismo num país onde a igreja católica sempre teve importante protagonismo político.

Junte-se a isso sua vocação midiática e simpatia natural, que lhe asseguravam sempre importantes espaços na imprensa. Basta recordar sua marca registrada de beijar o chão de cada lugar que visitava.

A grande sensibilidade, a habilidade política de João Paulo II e sua enorme disponibilidade para viagens aproximaram o Papa dos povos mais distantes de Roma, instaurando um novo tipo de papado. Além de tudo, o atentado de que foi alvo marcou dolorosamente seu pontificado o que contribui para atrair para si mais solidariedade.

Mas, pode se perguntar: do ponto de vista do governo da igreja, quais as semelhanças e diferenças entre os dois?

É importante lembrar que o atual Papa serviu a João Paulo em importante cargo na cúria, Congregação para Doutrina e a Fé, o Santo Ofício, a partir de onde se combateu duramente a teologia da libertação, vista como desvio doutrinário, culminando com a punição de alguns de seus maiores expoentes, como, por exemplo, Leonardo Boff.

Também no seu pontificado deu-se a substituição da hierarquia da igreja por prelados conservadores hostis ou desvinculados das chamadas idéias progressistas. Em relação aos dogmas e doutrina foi também sempre muito conservador, nunca abrindo a guarda.

A diferença seria então mais de estilo e desempenho pessoal? Devo dizer que ao encontrar em Roma o Papa, quando a convite de D.Fernando, Bispo do Crato, acompanhei-o para conduzir a documentação que pede a reabilitação do Padre Cícero pelo Vaticano, falei um pouco com ele, em inglês, sobre o Brasil e o motivo da viagem, tendo sentido nele uma afetividade que a distância não sugere.

São impressões que deixo ao exame de vocês, cuja opinião gostaria sinceramente de conhecer.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

O tema é cultura

Hoje é dia de cultura no blog do Lúcio Alcântara. O privilégio não é so nosso. Manchetes dos pricipais jornais europeus (entre eles o Público, de Portugal) anunciam o desaparecimento de mais de 70 obras do Instituto do Mundo Árabe, em Paris. É um dos mais importantes museus da capital francesa, inclusive pela sua curiosa arquitetura inspirada na arte islâmica e com um curioso sistema de arabescos de metal nas esquadrias que abrem e fecham dependendo da intensidade da luz solar.

Aqui no Brasil, nos últimos anos, são frequentes as notícias de desaparecimento de livros raros e obras de arte de nossos museus, bibliotecas e igrejas, sem pessoal e sistema de vigilância adequados à importância dos bens a serem protegidos.

Agora mesmo os funcionários das diversas instituições vinculadas ao Ministério da Cultura anunciam greve geral em busca de melhores salários, justamente quando se realizam no Rio os jogos Panamericanos que certemente atrairão muitos turistas. Mas, ao que parece, as dificuldades não estão apenas por aqui. Afinal, na capital dos grandes museus obras tambem andam desaparecendo...

Mostra em Lisboa revela potencial do brasileiro Cândido de Faria

Foto Diana Quintela/PÚBLICO (arquivo)


A exposição "Cartazes históricos do cinema mostram filmes vistos pelos nossos pais e nossos avós" a ocorrer entre l0 de maio e 24 de junho na Cordoaria Nacional, em Lisboa, exibe cartazes dos primórdios do cinema dando idéia da evolução desse importante instrumento publicitário.

Gostaria de estar lá para verificar a transformação do design gráfico e as primeiras peças produzidas para divulgar os filmes junto ao público. O que me chamou atenção nas informações sobre a mostra é o fato desses cartazes terem sido produzidos por um brasileiro em Paris, Cândido de Faria, o qual recebia encomenda de vários lugares do mundo.

Nunca ouvira antes falar dele apesar de meu interesse pelo design de um modo geral e em especial pelas artes gráficas. Temos aí mais um importante brasileiro desconhecido entre nós. Quem souber dele mande notícias. Minha nota é so aperitivo.

sábado, 28 de abril de 2007

Noite bem movimentada no Ideal Clube

Muito prestigiado o lançamento do livro-poema "O rio da minha infância", escrito por Lúcio Alcântara, com fotos de Joana França. O poeta, médico e diretor de Cultura do Ideal Clube, José Telles, foi o mestre de cerimônia.






O evento, que aconteceu na noite de quinta-feira (26), no Ideal Clube, além de reunir centenas de amigos do ex-governador, que fizeram questão de comparecer para adquirir a publicação, teve uma causa nobre.

Toda a verba arrecadada será destinada à Casa Vida, extensão do Instituto do Câncer, onde ficam os pacientes reconhecidamente pobres, que chegam do Interior e de estados vizinhos para fazer tratamento oncológico no Hospital.

Na mesa estavam Joana França, Murilo Martins, Adahil Barreto, Humberto Cavalcante, Lúcio Alcântara, Beatriz Alcântara, Sérgio Braga e Carlos Augusto Viana.






O deputado Leo Alcântara, entre Lúcio e o poeta Carlos Augusto Viana





Ao lado da esposa, Beatriz Alcântara










Antônio Albuquerque elogia o trabalho.








Na fila de autógrafos, Carol e Gustavo Barros de Oliveira, Augusto Alcântara e amigas.









Gerard Boris recebe autógrafo de Lúcio Alcântara
















Duarte Frota, Barros Pinho e o deputado estadual Adhail Barreto.




A infância revelada

Coluna Lêda Maria - Diário do Nordeste


Quem achou que Lúcio Alcântara havia esquecido da sua infância, vai encontrá-lo com boas e leves lembranças de sua cidade natal, São Gonçalo do Amarante, no livro que acabou de lançar, complementado por muitas fotos da sua sobrinha, a arquiteta Joana França.

Em solenidade concorridíssima, noite de quinta-feira, 26 no Ideal Clube, o governador do Ceará 2003/2006 entregou ´O Rio da Minha Infância´. A apresentação do autor e obra foram do jornalista Carlos Augusto Viana. Ricardo Guilherme leu o poema que intitula o livro e vários amigos discursaram. O ministro Ubiratan Aguiar mandou sua mensagem que foi lida pelo presidente da Casa, Humberto Cavalcante, na qual elogiava as poesias e as fotografias. A noite foi de muitos aplausos. Quase mil livros foram vendidos com renda para a Casa Vida.

Entre as mais de mil pessoas que prestigiaram Lúcio Alcântara estavam Murilo Martins, presidente da Academia Cearense de Letras; Ednilo Soárez, presidente da Academia Fortalezense de Letras; e Lurdinha Leite Barbosa, presidente da Academia de Letras e Artes do Nordeste. Constança Távora, Luiz Gastão, César Montenegro, Oto e Tales de Sá Cavalcante, Heloísa Juaçaba, Pedro Henrique Saraiva Leão, Juraci Magalhães, Thomaz Figueiredo, Estácio Brígido, Allan Aguiar, Gen. Théo Basto e Barros Pinho. Os velhos amigos, Iranildo Pereira e Leorne Belém, também marcaram presença. E mais as irmãs, os filhos e a amada, Beatriz, estavam ao lado de Lúcio Alcântara.

O coral Vozes de Outono brindou a noite com seu canto, cujo momento maior foi quando dedicou a música ´Se todos fossem iguais a você´, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, ao escritor e político Lúcio Alcântara.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

A visita de Bento XVI e a canonização de frei Galvão


A visita do papa Bento XVI ao Brasil, em maio, é muito importante para nossa Nação, que tem um grande contingente de católicos. O papa tem caracterizado seu pontificado por uma insistência nas normas, nos postulados, naquilo que constitui a essência da Igreja. É um chamado à responsabilidade dos católicos no sentido de que ninguém é obrigado a ser católico. Mas uma vez que é, evidentemente que com todas as falhas próprias do ser humano, deve procurar seguir aqueles postulados que orientam a ação e a atuação da Igreja.

O papa Bento XVI não tem o carisma da comunicação que tinha João Paulo II, mas tem uma solidez de conhecimento teológico muito grande. Acho que a Igreja Católica brasileira se ressente muito de que seus integrantes, principalmente o clero, tenha uma formação intelectual melhor, sejam mais preparados, inclusive para um debate, um diálogo, um pregação. E o papa, nesse sentido, tem sido um grande incentivador.


Outro ponto alto da visita do papa é a apresentação do primeiro santo brasileiro, que é frei Galvão. Não deixa de ser também uma glória para o Brasil. Normalmente, as canonizações são feitas pelo Papa, em Roma. Bento XVI abriu uma exceção e vai canonizar Frei Galvão em São Paulo, na Missa que celebrará no Campo de Marte, dia 11 de maio.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Discurso pronunciado no lançamento do livro o "Rio da minha infância"

Concluída minha missão à frente do governo do Estado, após breve período de descanso em Portugal, voltei-me para duas atividades com as quais tenho me envolvido ao longo de minha vida tanto quanto me permitiram honrosas e absorventes funções que vim a exercer. São elas, a literatura como fonte de prazer desfrutado com amigos em companhia dos livros, e a medicina como instrumento de prestação de serviços à comunidade. Com mais tempo disponível para o convívio com os intelectuais tenho aproveitado todas oportunidades surgidas para retomar projetos literários adormecidos, cuidar da biblioteca e por em dia leituras atrasadas. Tudo isso em um contexto de confortadora convivência familiar.

Afastado há muito da prática da medicina, nunca a esqueci, e a retomada de encargos administrativos em caráter voluntário à frente do Instituto do Câncer do Ceará, instituição filantrópica sexagenária presidida por meu pai até falecer, me reaproxima do meio médico ao mesmo tempo que enseja ocasião para que continue a prestar serviço à comunidade. Aliás esta festa, que se realiza por reiterada insistência de amigos, constitui uma síntese entre as duas áreas a que me dedico majoritariamente no momento, pois lanço uma publicação em conjunto com minha sobrinha Joana França destinando o produto da venda à Casa Vida da Rede Feminina de Combate ao Câncer meritória iniciativa voltada para o acolhimento de pessoas de fora em tratamento no Instituto.

Esta publicação, que casa texto e fotografia, está pronta há bastante tempo e não pretendia lança-la festivamente não fora persistência do meu amigo e grande poeta Carlos Augusto Viana acolitado entre outros por Sérgio Braga, Marcos Aurélio, Humberto Cavalcante, Erle Rodrigues. A estes e aos demais, meu comovido agradecimento.

O generoso interesse do Carlos Augusto não parou aí e fluiu nas palavras de encômio minha despretensiosa obra. Com ela dou seguimento à realização de um projeto editorial desenvolvido em parceria com a Joana iniciado com o livro “A casa da minha avó” e que une duas linguagens, o texto e as fotos. Ambas publicações vinculadas ao passado, à memória ou o que dela vem superfície.

Tudo começou após o imprimatur da Maria Beatriz a cujo rigor crítico submeti minhas primeiras produções. "O rio da minha infância” é uma pequena amostra de minhas lembranças e da minha relação com o rio que me banhou menino. Não é livro porque não fica de pé, não é poesia, dirão os inimigos do verso livre pois não há rima. Mas é, isso lhes garanto, fragmento da alma, retalho da memória, emoção, afetividade, evocação que certamente irá tocar a quantos tenham um dia mergulhado criança num rio inesquecível.

Mais que acidente geográfico, acidente sentimental, já muito cantado em prosa e verso mas sempre disponível para quem deseje revelar essa relação única, pessoal, intransferível. Em decorrência de muitas viagens que fiz, a trabalho ou como turista, conheci rios famosos e até naveguei em alguns deles no Brasil e no exterior. Entre Koenigswinter e Colônia percorri o Reno em dia quente e ensolarado refrescado pelo vinho azul de tanta ma fama; naveguei nos canais de Amsterdam jantando à luz de vela nos barcos turísticos; vi o Nilo cortando o Cairo, bobo como todo turista, assistindo um espetáculo falso de dança do ventre; olhei incrédulo o Jordão, imaginando como possa aquele fio de água estar à altura dos cenários descritos nas sagradas escrituras; admirei o Sena poluído pelas horríveis barcaças de areia que me distanciavam da imagem romântica de Charles Trenet entoando “La Seine”:”elle coule, coule, elle roucoule, coule/elle chente le jour, la nuit”.

Vi o Tâmisa cruzado pela ponte do milênio, ícone de uma nova era. Mas gostaria de ter encontrado o “Ouse”, riozinho desconhecido no qual Virginia Woolf seu gênio e a alma atormentada. Singrei o Yang Tse na trepidante Shangai, congestionado de embarcações, que engurgitada de tudo vive a China, em cujas margens o colonizador perverso plantou um jardim interditado à chineses e cães. Encontrei o Tejo em Toledo, acanhado. Revi-o majestoso em sua foz de onde partiram intrépidos marinheiros que descobriram meio mundo.

Estive no choupal olhando por cima do Mondego para apreciar na margem oposta a “Quinta das Lágrimas” cenário do drama de Inês de Castro e em Amarante, também no querido Portugal atravessei a ponte romana sobre o Tâmega construída pelo santo do meu nome, Gonçalo. No Douro vi o prodígio de aço de Eiffel ligando as duas margens e os tradicionais rabelos flutuando para deleite dos turistas. Em Roma, passei sobre o Tibre por uma ponte monumental para encontrar o Papa no estado do Vaticano. Da ponte Vecchia , assediado por mercadores de jóias de seculares tradições, debrucei-me sobre o Arno para lembrar Dante, o florentino genial que não chegou a possuir como eu a sua Beatriz.

No Brasil, extasiei-me com o Amazonas, suas lendas, e o abraço com o Negro; o São Francisco, meu Rubicão, cujas margem atingi em Ibotirama transpondo-o para chegar a Brasília para a aventura definitiva da política investido no mandato de Deputado Federal. Não me cabe dizer se venci, mas afirmo ter muito pelejado. Maravilhado, contemplei o espetáculo das cataratas de Iguaçu por mais que seja apenas um rio que tomba no dizer de Eça de Queirós. E o que dizer dos nossos rios, cearenses, nordestinos? Irregulares, inconstantes, espasmódicos, feitos mais de pedra e areia que de água. O Jaguaribe, duas vezes pinçado para conter a hemorragia na denúncia lírica do poeta Demócrito Rocha. O Salgado e seu boqueirão famoso, o Acaraú, berço de nobrezas sertanejas, o Curu, testemunha de feroz batalha entre índios e espanhóis, ainda hoje motivo de controvérsia entre estudiosos. E o meu rio, meu modesto rio? Quase anônimo, minha afeição fluvial permanente, que nunca deixou de correr dentro de mim e hoje emerge neste despretensioso trabalho.

O que sei dele já o disse, mesmo que sem talento e graça. Diante de embarcações majestosas que encontrei mundo afora aflorava a lembrança daquelas canoas modestas calafetadas de alcatrão, e assim mesmo inundadas, sangradas por cuias manuseadas diligentemente. Cruzei meu rio, não para esquecer, pois não é o Lethes da mitologia, mas para lembrar. Fui barqueiro, não para levar os mortos como Caronte, mas para lembrar aos vivos que as águas do tempo não são profundas bastante para sepultar emoções e lembranças. Aos que aqui vieram desejo agradecer emocionado, pois revelam amizade com suas presenças carinhosas o que me sensibiliza definitivamente.

Caderno 3 - Memórias Fotográficas

Entrevista a JOSÉ ANDERSON SANDES - Editor do Caderno 3 - Diário do Nordeste

Lúcio Alcântara:
“Sempre me interessei pelo passado, pela memória, o que guardei ou recuperei olhando para trás” (Foto: Denise Mustafá)

Pequenos poemas, às vezes cortantes, outros amorosos. Lembranças de infância. Memórias nunca são fáceis, as marcas do passado doem, são repletas de perdas. Retratos pendurados numa parede. Ausências jamais preenchidas. Um mundo que se fechou nos jamais. A recordação tem seus mistérios. Lúcio Alcântara se enreda pelo discurso da memória. Ainda em pequenos poemas - ou talvez, nem poemas - frases criativas, mas repletas de saudades - lembrar não é viver. “Na mesa austera da casa da minha avó não havia madeleines, mas a coalhada no prato fundo é puro Proust”, escreveu em “A Casa da Minha Avó”, seu primeiro livro de ficção. Foi nesses pequenos retalhos, frestas de lembranças que Lúcio se “afogou” para escrever “A Casa da Minha Avó”. Agora, repete a fórmula em “O Rio da Minha Infância”, obra que lança hoje no Ideal Clube. A seguir, trechos da entrevista que Alcântara concedeu ao Diário.

O senhor sempre foi um homem ligado aos livros. Agora, não apenas escreve seus primeiros poemas, como funda uma editora, a Labirinto. Sonho antigo?

Sempre tive desejo de ter uma editora, uma livraria e um bar. Muito mais sonho do que projeto realizável. Tive várias experiências editoriais à frente dos Institutos Tancredo Neves e Teotônio Vilela, Conselho Editorial do Senado, que tive a honra de presidir, e a própria Fundação Waldemar Alcântara. No livro ´A Casa da Minha Avó´ apresentei a Editora Labirinto e sua linha de trabalho. Iniciativa sem fins comerciais, é apenas uma atividade da Fundação Waldemar Alcântara.Nestes dois livros, ´A Casa da Minha Avó´ e ´O Rio da Minha Infância´, o senhor percorre momentos da sua vida. No primeiro, são lembranças esparsas - móveis, relógio, chão da sala -, quase a memória involuntária proustiana. O segundo, ´O Rio da Minha Infância´, é repleto de contrastes, paradoxos.


Poderia explicar melhor o contexto em que foi escrito estes dois livros, bem como o seu processo de criação?

Algumas pessoas que leram ´A Casa da Minha Avó´ se surpreenderam com o texto, que consideraram algo melancólico. Não imaginavam, me disseram, que eu fosse uma pessoa triste. Não acho que o seja, embora me considere reservado, tímido mesmo. Não é um comportamento que se espere de políticos, geralmente expansivos, conversadores, alguns até histriônicos. Sempre me interessei pelo passado, pela memória, o que guardei ou recuperei olhando para trás. As duas publicações foram concebidas e realizadas enquanto estava no governo, embora só agora esteja lançando ´O Rio da Minha Infância´. Talvez porque estando cercado de muitos, estivesse, de fato, sozinho. A parceria com a Joana obedece a um projeto gráfico que espero irá continuar. Buscamos uma sinergia entre imagem e texto, muito bem executada pela Expressão Gráfica.


Carlos Lacerda deixou um belo livro de depoimentos, bem como escreveu ´A Casa do Meu Avô´. Quer dizer, ele remexeu mais profundamente seu baú de memórias. O senhor pretende escrever as suas?

No momento não penso nisso, embora tenha muitas anotações. Alguém já escreveu que a descrição da vida não vale a sensação da vida. Por ora, prefiro guardar o meu olhar sobre os outros para o futuro.


Parece que o senhor está vivendo no espaço da saudade, tem muito a contar, a narrar. Estes dois pequenos livros seriam apenas o começo? Pedro Nava, também médico, escreveu suas memórias depois dos 60 anos. E, ao contrário de muitos memorialistas, revolveu seu baú de ossos sem meias palavras. Machucou amigos, inimigos e familiares. O senhor faria o mesmo?

A verdade pode não ser relativa, mas é múltipla. A de cada um, várias, e a verdadeira, muitas vezes desconhecida. Por mais que se tenha memória e critério, não é possível reproduzir integralmente o passado, são apenas retalhos vividos que ressurgem. Para mim Pedro Nava é incomparável como memorialista, pois falou de pessoas, cenários, costumes, com espantosa liberdade. Quem me dera chegar lá!


Quais os livros que mais lhe tocam?

Não tenho livro de cabeceira a não ser a Bíblia, que costumo ler aleatoriamente. Conforme o momento que esteja vivendo, ou o trabalho que realize, posso ter um ou mais livros à mão. No momento tenho três, um deles um livro policial.

A dobradinha política e literatura dá certo?
Comigo dá, porque sou mais leitor do que autor. Com freqüência fico pensando como certos políticos do passado construíram obras literárias extensas e de qualidade. Não creio que com as exigências da política contemporânea isso ainda fosse possível. De qualquer forma, a literatura me ajudou muito a conviver com as agruras da política.


A literatura tem seus códigos, máscaras, artifícios de linguagem. A linguagem está ligada às estruturas de poder. Como o senhor definiria a literatura?

Literatura é a metáfora. A vida em ficção. A ´Comédia Humana´, de Balzac, e ´Madame Bovary´, de Flaubert, são bons exemplos do que afirmo.


Tivemos a Semana de Arte de 22, a Geração de 45, enfim, nossa literatura do Romantismo (século XIX) até hoje parece buscar sua identidade. O senhor acha que, como a nossa República (ainda em construção), temos também, uma literatura em busca de sua identidade?

Cada época tem seus intérpretes. Esse período também terá os seus na ficção, na poesia e no ensaio. A globalização, o terrorismo, a cibernética, a integração econômica, a formação de blocos de países, a emigração maciça de pobres, são fenômenos que já estão e irão, cada vez mais, inspirar novos escritores. O cardápio é rico e aguarda talento e disposição para explorá-lo.O senhor seria um tradicionalista em meio a um mundo globalizado, pós-moderno?Não me considero um tradicionalista. Basta olhar detidamente para minha atuação no Parlamento e no Executivo, Prefeitura de Fortaleza e Governo do Estado do Ceará.Tivemos uma literatura bastante engajada durante a ditadura militar. Hoje nossos artistas se renderam à indústria cultural, de massa. Perdemos com essa opção mercadológica?Na presença da liberdade de expressão, manifestações ´marginais´ ou comprometidas politicamente tendem a desaparecer ou se reduzir significativamente. A indústria cultural é inevitável, não sendo em si mesmo um mal, enquanto oferta de produtos para uma sociedade de massa. Basta assegurar espaço para a cultura nacional, inclusive as manifestações locais e regionais. A cultura brasileira tem qualidade e consistência para resistir ao colonialismo cultural e até ser admirada por outros povos. O maior exemplo disso é a música popular brasileira.


A política deixou muitas marcas, mágoas?

Eu continuo na política. Marcas são sinais de luta. Mágoas, quem não as teve?


Serviço:
O Rio da Minha Infância, de Lúcio Alcântara. Fotos de Joana França. R$ 15,00. Lançamento hoje, às 20 horas, no Salão Nobre do Ideal Clube, com apresentação de Carlos Augusto Viana. Toda a renda será revertida para a Casa da Vida do Hospital do Câncer.



FIQUE POR DENTRO
- A escrita na solidão do poder -
Ricamente ilustrada por sua sobrinha, Joana França, O Rio da Minha Infância mostra um pouco do passado do ex-governador. Frases que apenas dão pistas de sua trajetória, revelam ainda muito pouco. Atualmente vivendo a experiência de estar sem mandato, pela primeira vez em décadas, depois de se desentender com colegas de partido e perder no primeiro turno a reeleição para o Governo do Estado, Lúcio não pensa em escrever suas memórias. Pelo menos por enquanto, atém-se ao lançamento da nova produção literária. ´As duas publicações foram concebidas e realizadas enquanto estava no governo, embora só agora esteja lançando ´O Rio da Minha Infância´. Talvez porque estando cercado de muitos, estivesse, de fato, sozinho´, reflete o autor, que diz realizar um antigo sonho, com a fundação de uma editora, a Labirinto.

Vida & Arte - Contrastes da memória

Entrevista ao Jornal O Povo - Caderno Vida & Arte (Foto: Evilázio Bezerra)

O ex-governador Lúcio Alcântara lança, hoje à noite, o livro-poema O rio da minha infância, pelo selo próprio Labirinto. Em entrevista, por email, Lúcio fala de poesia, livros e nas entrelinhas, de política



Lúcio Alcântara, o político, é um homem do consenso e do silêncio. Consegue calar quando todos esperam a resposta, a polêmica, o confronto. Mergulhado em si mesmo, voltado para a infância, tornou-se poeta, embora negue de pronto o título. "No máximo, escreve textos poéticos", aponta. A indisciplina confessa com o gênero, porém, não impediu o ex-governador de compor versos e transformá-los no livro poema que será lançado hoje à noite no Ideal Clube, O rio da minha vida. A estréia na poesia se deu com o livro A casa da minha avó. Nos dois, a memória da infância é latente. O sabor dos "biscoistos de madeilenes" invoca o menino de São Gonçalo, o lugar de nascença e da criancice, a mobília de casa e das redondezas. Na entrevista a seguir, Lúcio, conversa por email, com a discrição e poucas palavras que marcam sua história, dos livros, dos autores, da literatura. E, nas entrelinhas, os silêncios das respostas contidas




O Povo - No novo livro do Alberto Manguel (A Biblioteca à Noite), ele narra sobre o que vê na sua biblioteca à noite, construída numa espécie de castelo abandonado numa aldeia francesa. Como sei que o senhor tem uma bela biblioteca particular, queria então saber, como o senhor passeia por ela. Que memória o senhor guarda da sua construção. Que livros lhe são mais caros?

Lúcio Alcântara - A biblioteca é minha toca onde nada me atinge. A leitura ou fato de olhar, manusear os livros, me causam enorme bem estar. É uma blindagem contra tudo que me preocupa ou aborrece. Como diz Ina D. Coolbrith no poema “Na Biblioteca” – “aqui estão os amigos que nunca traem, o companheirismo que nunca se cansa”. Minha biblioteca é muito eclética, mas me agradam sobretudo os que herdei de meu Pai, os que tratam de alguma forma da relação medicina/literatura/ arte e os livros sobre livros. Ali também, “entre os livros da minha biblioteca há alguns que já não tornarei a abrir”, Borges, no poema “Limites”.

O Povo - Como o senhor começou a ser leitor? E que livros marcaram sua vida de forma definitiva?

Lúcio Alcântara - Comecei pela biblioteca do meu Pai, passava horas lá. Foi quando li Machado de Assis, José de Alencar, Cronin, “As Memórias de Casanova” , e o “Tesouro da Juventude” entre outros livros. Era o tempo das coleções da Jackson e da José Olympio. De Machado li os 31 volumes da coleção. Muita coisa não guardei, mas acho que devo a essas leituras poder ler e escrever razoavelmente mesmo sem lembrar as regras da gramática. Surgiu daí meu gosto pela leitura e os livros. É difícil falar de livros que me marcaram, mas citaria entre muitos: “Cazuza”; “Os Meninos da Rua Paulo”; “Angústia”; “O Tempo e o Vento”; “A Pele”; “A Tragédia do Homem”; “Lições de Abismo”; “O Arco do Triunfo”; a obra de José Lins do Rego e os cânones da Literatura Universal que consegui ler.


O Povo - Quando o senhor descobriu-se poeta? Quais os poetas que têm sido seus companheiros de vida?

Lúcio Alcântara - Não me considero poeta. Não tenho dimensão para tanto. No máximo escrevo alguns textos poéticos. Coisa recente, de uns oito anos para cá. É a lira tardia que só vai para o papel quando já não posso conte-la dentro de mim. A poesia é minha companheira esporádica. Leio-a de forma indisciplinada, sem nenhum planejamento.


O Povo -
No seu primeiro livro-poema (A Casa da Minhã Avó) são as imagens da infância que “pendem” nos versos. Estão nos objetos as lembranças que compõem o poema. No segundo livro, este que será lançado agora, mais uma vez o senhor percorre o rio da infância e navega pelo “contraste de lembranças”. Por que a infância se tornou tão presente agora, quando o senhor decidiu-se pela poesia? E como imagens e palavras vão se juntando ao longo do livro?

Lúcio Alcântara - Falo da minha infância porque ela foi feliz. E como disse Erico Veríssimo, ninguém se livra do menino que foi. O paradoxo das imagens corresponde à variação caudal dos rios nordestinos e as distintas visões da criança e do adulto. O que era longo, hoje é curto, o que foi largo, agora é estreito e assim por diante. A fusão de imagens e palavras corresponde a um projeto gráfico desenvolvido fotograficamente por minha sobrinha Joana a partir do meu texto. “O Rio da Minha Infância” é o segundo produto da dupla.


O Povo - Literatura e política são duas artes. O senhor lida com as duas. Onde está a interseção delas na sua vida?

Lúcio Alcântara - A Literatura para mim é fundamental pois sobre ela tenho autonomia. Isto é, leio o que, e quando quero. Escrevo se estou inspirado. Já a política...depende de muitas circunstâncias e vontades, é exigente e confortadora porque nos permite contribuir para o bem comum, sendo, não raro, ingrata. Da harmonia entre as duas, tiro meu equilíbrio mental.

O Povo - A literatura e a política são construídas por meio de personagens. No caso da literatura, alguns deles parecem saltar da página para a realidade. No caso da política, algumas vezes de tão inverossímeis, parecem ficção. Que personagens na política mais lhe surpreenderam?

Lúcio Alcântara - Toda proximidade surpreende. Não há ídolos vistos de perto.

O Povo - O tempo não foi dos mais fáceis durante o seu último mandato como governador. Que livros o senhor leu nesse período? E durante o processo eleitoral, quando a tempestade chegou, qual ou quais autores estavam na sua cabeceira?

Lúcio Alcântara - Li pouco durante meu governo. Sobrava pouco tempo para o lazer. Gosto muito de livros policial com certo requinte dos personagens e do ambiente onde se desenrola a trama. Aprecio, sobretudo, os autores ingleses mestres no gênero. No governo como na campanha fizeram-me excelente companhia.


O Povo - “Cruzar a passo a vida é o heroísmo de uma existência”, diz um dos versos do livro “O Rio da minha infância”. Que ocasião da sua vida política o senhor sentiu que “cruzava a passo a vida”?

Lúcio Alcântara - Acho que viver é sempre um ato de heroísmo por mais simples ou exitosa seja a vida da pessoa. Afinal disse o poeta Manuel Bandeira “que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu”.

O Povo - Na apresentação do seu primeiro livro de poesia, o senhor fala de sonhos. O livro inteiro parece que é um sonho que lhe desperta as lembranças. Ou a saudade que ocupa o lugar das madeleines. Nesse último livro, o senhor torna a falar do lugar onde deixou seus sonhos de menino. Quais sonhos o senhor tem agora para a política e para a literatura?

Lúcio Alcântara - Se for verdade que o passado nunca termina de ser construído, vou continuar a trabalhá-lo. Quanto aos sonhos, na Literatura, é ler o mais que puder. Na política, é operar e esperar.



SERVIÇO O rio da minha infância. Será lançado hoje, 26, a partir das 20h, no Ideal Clube. O livro vai custar R$ 15 e o dinheiro será destinado à causa social .

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Revisão constituinte na Assembléia


Merece aplausos a iniciativa da Assembléia Legislativa de fazer uma revisão constitucional. É um trabalho que deve ser feito com cautela, com rigor, profissionalismo e espírito público, com atenção ao que está acontecendo no mundo.

Os deputados estaduais devem aproveitar este momento para corrigir os excessos que a Constituição tenha, e mesmo que o objetivo seja ampliar os poderes dos parlamentares para legislar, além de abrir espaço para participação popular, não é o caso de se estabelecer um cabo de guerra entre o Executivo e o Legislativo. É sim o momento de buscar sinergias, cada qual com sua autonomia, sua independência, mas compreendendo que a governabilidade, na verdade, não é só do Poder Executivo. Isso precisa ficar claro.

Quando se fala em governo são os três poderes, cada qual com sua competência, sua independência. Há uma interdependência que não deve ser perdida de vista. Todos os poderes têm que ter a consciência de que a governabilidade não é uma responsabilidade só do Executivo. Governo são os três poderes.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Sudene - ainda no papel

Embora esteja muito longe daquilo que se gostaria, eu espero que a nova Sudene saia do papel. Será uma Sudene fraca, sem recursos. Uma Sudene distante do que os nordestinos precisam para alavancar o desenvolvimento da Região. Mas já que foi algo prometido, e anunciado várias vezes, tem que ser recriada a fim de conceber projetos que nos levem a superar as diferenças entre os estados e as regiões brasileiras.

Mais comentários sobre este assunto:

A importância da Sudene para o desenvolvimento da Região Nordeste

Comemoração do 40° aniversário da criação da Sudene

Críticas aos escassos recursos destinados à Sudene

Liberação de recursos para conclusão de importantes projetos na Região Nordeste

Reivindicações dos governos e das bancadas nordestinas para o período de 1996/2010

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Fim da reeleição com mandato de cinco anos

Eu sempre achei que se houver um mandato de cinco anos não há necessidade de reeleição. Cinco anos é um período razoável. Já dá para concretizar algumas coisas do plano de governo. Quatro é pouco. Se for para acabar com a reeleição e der cinco anos de mandato eu sou a favor, em todos os níveis.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Siderúrgica sem gás

É lamentável este imbróglio em torno do fornecimento de gás para a Siderúrgica Ceará Stell, a ser construída no Complexo do Pecém. Como Governador, fiz um esforço enorme no sentido de criar as condições para que o empreendimento acontecesse.

Na imprensa, há inúmeras declarações, não só de representantes da Petrobrás, mas do próprio Governo, confirmando que o Estado do Ceará realmente tinha cumprido todas as exigências e satisfeito todas as condições. Acho que o problema agora só será resolvido na alçada do Presidente da República. Não acredito em solução da Petrobrás. O presidente se comprometeu comigo mesmo várias vezes. Aqui já veio e reafirmou sua promessa de campanha. Parlamentares também disseram ter ouvido isso dele. Então, agora é resolver.

domingo, 15 de abril de 2007

Notícias do PR no Ceará

Enquanto aguardamos que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-CE) emita o registro do PR – a fim de que a nova Executiva Estadual do Partido seja válida legalmente – o trabalho não para. Comissões provisórias estão sendo formadas em diversos municípios cearenses, sob a coordenação do segundo vice-presidente, Iranildo Pereira. A orientação é conseguir novas adesões.
Não queremos tirar ninguém de onde está, mas evidente que se vier pessoas com expressão eleitoral serão bem-vindas. O deputado Marcelo Teixeira, secretário-geral do PR estadual, já está em contato com os demais deputados federais (Leo Alcântara, Vicente Arruda e Gorete Pereira) e com o deputado estadual Adahil Barreto para saber quais as áreas de interesses dos parlamentares em relação aos diversos municípios cearenses.
Tudo está sendo feito com o objetivo principal de colaborar para que o Partido da República amplie a sua militância e a sua representatividade institucional. Também queremos contribuir para que o nosso partido defina uma linha programática coerente e projete para a sociedade brasileira a imagem de uma sigla que honra efetivamente os ideais republicanos que colocam o princípio democrático e a defesa do interesse comum como à causa primordial de sua atuação.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

O semi-árido nordestino precisa das águas do São Francisco

Muita coisa tem sido dita a respeito do projeto de transposição das águas do São Francisco. No fim de março, a notícia de que a licença de instalação concedida pelo Ibama para que o Ministério da Integração Nacional inicie as obras estava ligada ao cumprimento de 51 condicionantes. Este fato nos deixou preocupados. Sei que todos querem revitalizar o rio, criando medidas que facilitem a vida do São Francisco. Mas o problema é que, mesmo tendo feito um grande esforço em torno da questão hídrica, tanto no meu governo quanto nos anteriores, se não vier água para o Ceará nós sempre vamos ficar na iminência de termos problemas graves – de água para o consumo humano.

O apoio do presidente Lula neste momento é fundamental para a realização deste grande projeto. E acredito que o ministro da Integração, o baiano Gedel Vieira Lima, está no cargo para cumprir a determinação do Presidente da República, que é o chefe de Estado. Se ele aceitou ser Ministro e o Presidente Lula já declarou que essa é uma prioridade, cabe a Gedel concretizar esta promessa de campanha. Será muito ruim para o Governo do Lula se o Ministro não realizar o projeto de transposição. Aliás, será péssimo, e criará uma situação muito difícil para o Presidente.

Questão polêmica

Integrantes do Movimento em Defesa da Vida, contrários a legalização do aborto, realizaram protesto, durante lançamento, em Fortaleza, do Dia Mundial da Saúde pelo ministro José Gomes Temporão. Esta é uma questão polêmica, que encerra muitas avaliações de caráter moral, religioso, ético. É uma discussão controversa. Dificilmente teria uma lei aprovada pelo Congresso. Acredito que a melhor solução para este assunto é submetê-lo a um plebiscito popular.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Ética na política

Vivemos uma crise geral, uma crise ética. Não sei se de comportamento. As pessoas não estão se conscientizando das funções que exercem e aí a população não distingue quem realmente está cumprindo seu dever e quem não cumpre, colocando todos na mesma situação. Isso reflete um enfraquecimento institucional, o que é lamentável. É muito ruim que tenhamos um País com instituições políticas, democráticas, poderes constituídos tão mal avaliados. É verdade que não é uma coisa restrita ao Brasil. Há uma crise da democracia representativa no mundo todo. E a mídia tem um papel fundamental com a forma de avaliar ou enfocar o papel desses poderes.

A forma de fazer campanha é outra coisa importante. Se faz campanha prometendo o que não se pode cumprir. E daí resulta nisso. Desprestígio, desconfiança, descrédito. Isso é perigoso, porque não há alternativas melhores.

Temos que continuar investindo em educação política, vigilância em relação às pessoas que ocupam esses cargos. Sem incorrer em injustiças e excessos da mídia. As pessoas precisam se educar politicamente. Os próprios agentes políticos têm que se educarem, compreenderem a importância e a relevância das funções que exercem, e a expectativa que as pessoas têm em relação a elas.

domingo, 1 de abril de 2007

SUDENE*

Este momento oferece, para nós nordestinos em particular e brasileiros em geral, a mesma dimensão histórica daquele dia em que o Presidente Juscelino Kubitschek oficializou a criação da SUDENE, em 15 de dezembro de 1959, há quase quarenta e quatro anos atrás. Nessa iniciativa que nasceu politicamente ambiciosa, Juscelino teve a colaboração intelectual do economista Celso Furtado, um ilustre filho do sertão paraibano.
As propostas criadas por Furtado para a SUDENE ajudaram a mudar o Nordeste, que em alguns momentos provou ter uma economia mais dinâmica que a do Brasil, embora os avanços na área social sempre tenham se mantido longe do que aspiramos e merecemos. Com a participação da SUDENE, a agricultura e a indústria nordestina foram contempladas com projetos modernizadores e, sem ela, dificilmente tais projetos iram adiante.
Após décadas de atuação, a SUDENE foi extinta, em maio de 2001, e substituída pela ADENE, que permaneceu apenas uma sigla, sem existência de fato. Agora, a retomada da SUDENE, com o seu nome original, chega como um acontecimento de poderosa carga simbólica, e é também um gesto de reconhecimento do Presidente Lula aos serviços de um órgão que foi um marco referencial no planejamento regional brasileiro.

Com a recriação da SUDENE, o Presidente cumpre um de seus compromissos de campanha, que é o de apoiar, como faz a União Européia e tantos outros blocos e países do mundo, as suas regiões mais vulneráveis.
A SUDENE nasceu com o ideal de contrabalançar, através da coordenação dos investimentos federais e com o auxílio dos incentivos fiscais, a escandalosa situação de desequilíbrio existente entre as várias regiões do País. Para isso, chegou a coordenar os vários órgãos do Governo Federal operando no Nordeste, comandando recursos consideráveis, administrando o FINOR e participando das decisões sobre o FNE.
Um conjunto de fatores levou a SUDENE a perder gradualmente o poder de coordenação de iniciativas inovadoras, capazes de contribuir para o desenvolvimento do Nordeste. A falta de fiscalização adequada; os desvios de verbas; a criação de sucessivos programas especiais, sem continuidade e sem consulta aos governadores; e a escassez de recursos e de pessoal qualificado formaram um quadro desfavorável que levou ao esvaziamento da SUDENE. Evitar a repetição de tropeços e equívocos passados, daqui para frente, é uma prerrogativa básica, para que as providências e decisões não fujam do controle da Superintendência e das lideranças locais.
Como cidadão e como governador do Ceará, eu tenho acompanhado de perto os debates sobre a recriação da SUDENE, conduzidos nesse momento pelo Ministério da Integração Nacional e liderados pelo Ministro Ciro Gomes. O que está se propondo, portanto, é fruto de um trabalho coletivo entre as lideranças regionais e o Governo Lula.

Nessa discussão, ficou comprovado que as causas do desequilíbrio espacial e social entre regiões e estados, meio rural e urbano, o centro e a periferia, são velhos conhecidos de todos nós. A questão não mais reside na busca de uma explicação para o fenômeno, mas em intervenções deliberadas que permitam minimizar os efeitos das profundas diferenças.
Qual deve ser a atitude do Estado frente ao problema regional, quando algumas tradicionais formas de atuação se mostram ultrapassadas? Como ordenar as ações do setor público no contexto democrático de uma economia aberta e competitiva? A proposta hoje apresentada poderá equacionar essas questões, com o apoio político decisivo e continuado do Presidente da República em parceria com os governadores da Região.
Acredito que as desigualdades econômico-sociais do Brasil são também advindas do fato de que, durante anos, o País não cultivou uma visão de longo prazo e grande alcance. Infelizmente, os assuntos emergenciais absorvem muito das nossas energias, enquanto os problemas estruturais se acumulam, agravando-se. A SUDENE, portanto, tem de pensar o Nordeste do futuro.
O Presidente Lula está iniciando um processo de alteração do modelo de desenvolvimento. De um lado, é preciso criar condições para o livre funcionamento do mercado, estimulando os investimentos privados e públicos que produzem bens e serviços, criam empregos e geram renda. De outro, é preciso motivar as iniciativas locais e os empreendimentos da comunidade, para promover a cidadania e o lugar onde se vive.

No Ceará, direcionado por essa visão, o Governo atual criou a Secretaria de Desenvolvimento Local e Regional, que trabalhará em íntimo contato com a nova SUDENE, buscando atenuar as enormes disparidades que existem entre a Região Metropolitana de Fortaleza e o restante do Estado. Como exemplo, Fortaleza e seu entorno concentram 40% da população do Ceará e participam com 62% do seu PIB.
Acredito que um dos papéis da nova SUDENE seja recuperar sua dívida para com o semi-árido nordestino. O apoio à produção de grãos, à fruticultura irrigada e às explorações tradicionais do sertão, deve ser incondicionalmente reforçado, para que essas atividades atinjam o nível ideal de auto-suficiência, contando, inclusive, com o projeto de transposição das águas do rio São Francisco, devidamente revitalizado. E aqui queria destacar a criação pelo Presidente Lula de um Grupo de Trabalho, no último dia 15, que levará adiante essa questão, outra promessa de campanha.
Por último, gostaria de agradecer a presença honrosa dos governadores e demais autoridades, registrando a grande esperança que deposito nessa nova proposta política de desenvolvimento regional, com dimensão e origem verdadeiramente nacionais, e que, ao invés de apenas parcialmente contemplar as regiões mais atrasadas como áreas-problema, vislumbra o conjunto de todas as regiões brasileiras, com as suas peculiaridades, diferenciações, potencialidades e demandas próprias, sob a perspectiva histórica de um Brasil em um novo tempo.

* Solenidade de Recriação da SUDENE. Auditório do Banco do Nordeste. Fortaleza (CE) em 28/07/2003
** Governador do Estado do Ceará (2003-2007)