segunda-feira, 21 de abril de 2008

Civilidade política

É o título de artigo escrito pelo cineasta David Mamet, no jornal Folha de S. Paulo, edição de 6/4/08, no qual faz uma revisão de suas convicções, inspiradas nas ideologias dos anos 60, e critica o papel do governo nas sociedades.

Dele, pinçamos o trecho abaixo, no qual fala do tratamento que, na sua visão, a Constituição dá aos três poderes independentes, segundo ele, a única coisa de que se lembra dos doze anos de ensino fundamental e médio:

"Redigida por homens dotados de alguma experiência prática de governo, a Constituição parte da premissa de que o chefe do Executivo trabalhará para tornar-se rei, que o Parlamento vai conspirar para vender a prataria da casa e que o Judiciário vai considerar-se olímpico e fazer tudo o que puder para melhorar em muito (destruir) o trabalho dos dois outros ramos".

Brasil superpotência

A conceituada revista inglesa The Economist, na edição da semana passada, publicou editorial sob o título: Uma superpotência econômica, e agora em petróleo também.

A publicação destacou o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2007, de 5,4%, e nossa pujança como produtores de matéria-prima.

Considera um equívoco os que se impressionam com o nosso crescimento modesto, quando comparado com China e Índia.

Lembra que o Brasil cresceu a taxas chinesas nas décadas de 50 e 60, mas que é muito difícil para um País de classe média, como o nosso, crescer a taxas mais altas.

Atribui o crescimento brasileiro atual a três fatores:
- o controle da inflação
- o fim da dívida externa
- a democratização

Finalmente, a propósito das recentes descobertas de novas reservas de petróleo e gás, indaga: conseguiria o Brasil se tornar uma potência do petróleo assim como é um gigante agrícola?

domingo, 20 de abril de 2008

Bom Pastor

Domingo passado, foi o Dia do Bom Pastor. O evangelho de São João nos brindou com a bela parábola do pastor e suas ovelhas.

No dia anterior, 12 de abril, fora o aniversário de nascimento de meu pai, falecido há anos. Por alguma razão, associei a leitura bíblica a ele. Não tanto a seu pastoreio, que de algum modo ele foi pastor, enquanto pai, médico, professor e político. Mas a uma passagem breve de sua vida que aflorou à memória.

No início de sua atividade profissional, foi médico de um estabelecimento dirigido por religiosas, conhecido por Bom Pastor, localizado na Praça do Liceu. Cercado por muros altos, recuado da rua, destinava-se a abrigar mães solteiras. Acolhia aquelas que, no jargão moralista da época, haviam dado um mau passo. Discriminadas, sofriam rejeição da sociedade e da família. Envergonhadas, ficavam reclusas na instituição à cura das irmãs. O preconceito era maior que os elevados muros do convento.

Lembro-me de ter ido lá poucas vezes, quando criança, em companhia dos meus pais, certamente em dias festivos, para missa na capela, que me parecia, aos olhos infantis, tão distante do portão de entrada.

O que o mundo terá feito daquelas jovens, feridas pela sociedade preconceituosa da época? Não sei bem quando me dei conta da função daquela casa, mais tarde convertida em presídio feminino.

Confio que o Bom Pastor tenha velado por ovelhas tão carentes.

Filhos

Pesquisa Datafolha revela que quatro em cada dez filhos não foram planejados. Se pudessem voltar no tempo, 15% dos pais não teriam filhos.

Minha mulher e eu nos planejamos para termos dois filhos. Levamos em conta para isso, o fato de ela ter uma vida profissional intensa e minha atividade política, que é, por natureza, instável e cheia de incertezas.

Era aconselhável ter uma família menor, para dispensar a atenção devida aos filhos. Tivemos, ainda, a sorte de termos dois filhos maravilhosos, uma mulher e um homem.

Pensando hoje, retroativamente, talvez desempatássemos o jogo.

Saiba mais no jornal Folha de S. Paulo, edição de 20/04/08.

Curiosidade

O que ocorreu com os municípios que tinham sistema próprio de previdência para seus servidores e os prefeitos dilapidaram os fundos que a eles pertenciam?

O Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) gostaria de saber o que aconteceu.

A imprensa independente e investigativa do Ceará poderia buscar a resposta a essa pergunta.

Obituários

Acaba de sair, pela editora Companhia das Letras, O Livro das Vidas, coletânea de 57 obituários publicados pelo jornal New York Times.

Textos bons para sobreviverem ao tempo e a natureza perecível dos jornais, particularmente de uma seção pouco visitada. Por ela passaram grandes editores do jornal, garantia de qualidade dos textos. Aliás, cheios de ironias, recurso permitido em obituários de países do primeiro mundo.

Como já disse alguém, tudo existe para acabar em livro...

Saiba mais em O Globo, edição de 18/04/08.

Imperdível

O editorial do jornal O Estado de S. Paulo, edição de l8/04/08, sob o título É público? Esbanje-se.

Clique aqui para ler o texto na íntegra.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Defensoria

Ao Presidente da Associação Nacional dos Defensores Públicos (Anadep), Fernando Calmon


Desde que li a entrevista publicada no jornal O Povo, edição de 31 de março de 2008, com declarações a respeito do tratamento dado à Defensoria Pública pelo Governo do Estado do Ceará, durante a minha gestão, tento compreender o porquê de o senhor ter afirmado que não demonstramos disposição em negociar.

Talvez o senhor não esteja informado, mas, em nossa gestão, os defensores públicos do Ceará tiveram um aumento real de 61,08%, sem contar com a Gratificação de Titulação, de cunho pessoal, de 15% a 60% da remuneração básica. E mais. Essa conquista foi estendida a todos os defensores públicos aposentados.

Realizamos concurso público para o cargo de defensor público substituto. E já deixamos tudo preparado, com previsão orçamentária, para a realização de novo concurso público em 2007.

Também, em nossa gestão, apoiamos a descentralização e interiorização da Defensoria Pública. Ao final de nosso mandato, o número de comarcas atendidas, que antes era de apenas 21 – com 26 defensores públicos, aumentou para 84, com um total de 95 defensores públicos, um acréscimo de 45% na interiorização da Defensoria Pública.

Não vou aqui entrar em detalhes do apoio dado à Defensoria com relação à capacitação do seu quadro de profissionais, entre outras ações. Mas, acredito ter deixado claro que o Governo do Estado, durante a minha gestão, não apenas demonstrou interesse em melhorar o desempenho da Defensoria como implementou medidas para tal.

A situação agora é bem diferente da minha época. A própria imprensa registra que as lideranças da categoria tentam, há um ano e dois meses, uma audiência com o Governador do Estado (O Povo, Coluna Política, 11/4/08). Cansados, os defensores do Ceará estão em estado de greve.

Espero que as conquistas da categoria continuem nesta administração. E seus intentos sejam alcançados.

Economia

Deu no jornal O Estado, edição de 16/04/08:

Vendas no varejo cearense tem pior resultado do NE em fevereiro

A variação de volume de vendas do comércio varejista no Ceará fechou em 4,9%, no mês de fevereiro, em relação ao mês de janeiro, o índice mais baixo do Nordeste. O dado reflete na variação da receita nominal do comércio, também a pior da região, com 8,5% ao mês. Os resultados são da Pesquisa Mensal de Comércio, divulgada ontem pelo IBGE.

Em relação ao País, o Ceará teve o quinto pior desempenho entre os 26 estados e o Distrito Federal.

Praxe

Havia a praxe de todos os meses de janeiro se divulgar a estatística da violência do ano anterior. Este ano, a praxe foi quebrada. Nada foi divulgado. Por quê?

Fala-se que há um lobby dos secretários de segurança junto à Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) para suspender a divulgação dos números da violência.

A imprensa independente e investigativa do Ceará poderia procurar esta resposta.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Negligência

A posição do Governo do Estado do Ceará em dispensar licitação para a construção de dois presídios, no valor de R$ 26 milhões, merece uma reflexão mais cuidadosa.

É certo que a situação dos presídios e das delegacias de polícia, cheias de presos, configuram um quadro de calamidade. Mas, é preciso lembrar como se chegou a isso.

Entreguei o Governo com as delegacias vazias de presos. Um feito histórico e inédito. Reconheceu o fato, em entrevistas, o atual Secretário Estadual de Segurança. As penitenciárias construídas para abrigar os egressos das delegacias, o foram sob o regime de concorrência pública, como manda a lei.

Com o descaso do novo Governo em relação ao problema, as delegacias ficaram, novamente, superlotadas. E por que digo descaso? Porque não houve investimento no sistema penal, apesar do Governo, todos os dias, jactar-se de estar com os cofres abarrotados de dinheiro.

Mais grave, investimentos e programas em andamento foram suspensos. Exemplos: o programa Janela da Liberdade, em execução pela Secretaria de Justiça, que visava acelerar a libertação de presos em condições de serem soltos, criando, assim, vagas nos presídios; interrupção da obra do novo presídio, em adiantado estágio de construção; abandono de pavilhões destruídos em rebeliões no Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS), comprometendo sua capacidade operacional.

Nem se diga que o problema surgiu em decorrência do início do Ronda, que teria aumentado o número de prisões. A ação teve início no mês de dezembro, e o problema já existia. E era grave. O Secretário de Segurança referia-se a ele, em entrevistas, alertando o Governo, que insistia em fazer de conta que não era com ele.

Numa palavra: o Governo do Ceará foi negligente. Deixou que o caos se instalasse, para agora buscar apoio e dispensar licitação, em montante vultoso, destinada a atender urgência plantada por ele mesmo, e não fruto de intempérie ou imprevisto qualquer. O precedente é perigoso, pois, pelo andar das coisas, poderá ser invocado no futuro em outras situações. As estradas, por exemplo, até aqui sem manutenção preventiva formalmente contratada.

A manobra para envolver outros poderes e instituições, numa decisão que é do Poder Executivo, e só dele, para aparentar transparência, compromete órgãos cuja função é de caráter fiscalizador.

Por último, onde andam os que, no Governo anterior, militando na oposição, ostensiva ou infiltrada, a propósito de tudo deblateravam contra dispensas de licitação?

Revista da Uece


Acaba de ser lançado o primeiro número da Uece Revista. Nela, são mostradas, entre outras realizações, grandes obras construídas no campus do Itaperi. É o caso do Centro de Administração Superior Paulo Petrola, inaugurado em 2006.
Na página 8 da mencionada publicação, há uma afirmação de Oto Soares de Oliveira, coordenador das obras de estrutura física do Departamento de Engenharia da Uece, que reproduzo na íntegra: "com certeza, a Universidade nunca recebeu tanto investimento como nos últimos anos".
Ainda que não haja menção ao meu nome, ou mesmo ao meu período de Governo, fica clara a atenção que dispensei à Universidade Estadual do Ceará (Uece), inclusive promovendo o maior concurso público para recrutamento de professores de sua história.

Faltou, ainda, a publicação registrar as obras da biblioteca, do restaurante universitário, do hospital veterinário e do ginásio de esportes, iniciadas no meu Governo e paralisadas pelo meu sucessor.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Dengue

Manchete de primeira página do jornal O Povo, edição de 12/04/08:

109 casos
Dengue hemorrágica cresce 319% no Ceará
Primeiro trimestre - Boletim da Secretaria de Saúde do Estado (Sesa) registra 109 casos de dengue hemorrágica este ano, contra 26 no mesmo período de 2007, o que corresponde a um aumento de 319%. Os casos estão espalhados por 19 municípios, enquanto que, no ano passado, a doença se concentrou em sete cidades.

Medidas Provisórias

Quem tem medo de medidas provisórias?

Cuidado, elas podem estar vindo por aí...

A frase do dia

O arrogante desfia certezas. O petulante as desafia.

Daniel Piza

Curiosidade

O sistema penal está um caos.

Como está a lotação dos grandes presídios? E suas condições físicas, como estão?

Será que os pavilhões do Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS), destruídos há vários meses, já foram recuperados?

A imprensa independente e investigativa do Ceará poderia responder a essas perguntas.

Zapatero

Com 169 votos, todos do seu partido, José Luis Zapatero teve confirmada sua eleição pelo parlamento espanhol, para Presidente do Governo. Para obter a maioria absoluta, necessitava ter 176 votos.

A promessa é que Governo e oposição possam se entender, em torno de quatro temas importantes.

A saber: combate ao ETA, a relação com as comunidades autônomas, a Presidência da União Européia e a renovação do Judiciário no País.

sábado, 12 de abril de 2008

Fleugma


A fleugma britânica e o instinto comercial fizeram os ingleses suportar, olímpicos, os bombardeios alemães sobre Londres.

Barrado

Nos sistemas parlamentaristas de governo, os partidos que vencem as eleições submetem o nome do seu líder ao parlamento, para exercer o cargo de Chefe do Governo.

O Partido Socialista Espanhol (PSOE) venceu as últimas eleições na Espanha. O nome do atual Primeiro-Ministro, José Luis Zapatero, foi indicado para presidir um novo Governo.

Pela primeira vez na história democrática do País, o Presidente eleito nas urnas, não foi aprovado pelos parlamentares na primeira votação. Conseguiu 168 votos, quando seriam necessários 176, em um Congresso de 350 deputados. Espera-se sua eleição na segunda votação.

Situação semelhante ocorreu com Leopoldo Calvo Sotelo, que não fora eleito pelo povo, só logrando aprovação no segundo escrutínio. Ele substituía Adolfo Suárez, que renunciara em 1981.

Saiba mais em O Globo, edição de 10/04/08.

Maioria

O islamismo superou o catolicismo no mundo.

A informação foi divulgada pelo Monsenhor Vittorio Formenti, que coordenou o mais novo anuário de estatísticas do Vaticano.

Segundo o levantamento, 19,2% da população é muçulmana. E 17,4% católica.

É a primeira vez que os católicos não estão em primeiro lugar.

Somadas todas as religiões cristãs, incluíndo anglicanos, ortodoxos e protestantes, os cristãos representam 33% da população mundial.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A verdade da metáfora

A apresentação de livros em sessões públicas compõe o ritual de lançamento de novas obras. É hábito já integrado aos nossos costumes literários. Não fora isso, seria dispensável, ainda mais quando se trata de autor consagrado, tal Carlos Augusto Viana, autor de vários livros (“Primavera empalhada”, “Inscrição dos lábios”, “A báscula do desejo”, todos de poesia, e o ensaio, “Drummond, a insone arquitetura”, sua tese de mestrado) e é dono de vasta fortuna crítica. “Côdeas”, com o qual venceu o Prêmio Unifor de Literatura é a reafirmação de um talento poético que se refina com o tempo e não carece de apresentação. Convidado pelo escritor para apresentar sua laureada produção, aceitei o encargo honrado pela escolha, mas sobretudo por haver gostado do livro. Resta-me procurar traduzir bem esse gosto pessoal. Isto é, dizer porque gostei.

Poesia é sentimento, emoção. Mesmo quando abstrata como em grande medida o é a de Carlos Augusto Viana. Atributo assinalado com justeza por Paulo de Tarso Pardal na introdução do livro. É certo que o crítico detecta também na obra poemas com manifestações confessionais, e outros nos quais a descrição das coisas os torna mais próximos do real. De todo modo, há um predomínio do hermetismo, tendência visível na evolução da produção poética do autor. Ainda assim, não tenho como comentar sua poesia, para cumprir minha missão, a não ser com emoção, esse ingrediente essencial do fazer poético. Ferreira Gullar, falando sobre a racionalidade na poesia, tão defendida por João Cabral de Melo Neto, disciplinador de emoções, conclue que mesmo o pernambucano, se escapou delas na elaboração do poema, não as escondeu no texto final. Adianta que “Cão sem plumas”, e sobretudo “Morte e vida Severina”, confirmam essa impressão. O duelo emoção/razão, administrado com competência, resulta numa poesia bela e densa ao mesmo tempo. Creio ser o caso do poeta Carlos Augusto. Reservo aos doutos o método, e a linguagem dos especialistas, que considero tentativas de tecnificação dos sentimentos, elaboração científica da literatura. Se nem a poesia dos racionalistas se desvencilha das emoções, não tenho porque escoima-la da minha crítica, feita de sensações que captei.

O livro está dividido em duas partes. Na primeira, a mais extensa, em versos soltos, e alguns sonetos, o poeta escava na memória imagens recorrentes do pai, da casa, do mar, dos navios, em um cenário rural evocado com sintética elegância, característica de sua poesia: “só o mar permanece (e bem o desejaste) diante de ti (Meu pai); “meu pai havia cadernos” (Itinerário das sombras); “meu pai com seu terno de areia, / percorre todos os mitos do mar” (O caminheiro); “A casa já não mais vadeia as espumas da tarde” (Notícias); “Caminho, assim, por estrada nenhuma, e suspiro algum não vem daquela casa” (Sub tegmine fagi); “Reergo a casa / as vértebras da solidão” (A Casa); “E o mar alteia a espinha de suas espumas” (Degraus); “A noite se contorce, e o mar se inflama./ As ruas são navios; e os ventos, rotas. (Soneto com folhas e navios); “A casa é um navio, e assim navega /nas águas insepultas do verão (Soneto com canários e alpendres). Está aí pequena amostra da recorrência temática em sugestivas imagens. A economia de vocábulos não prejudica a percepção da idéia, mas aguça a imaginação do leitor, levado a se aproximar do texto pela subjetividade das sensações induzidas pelo ritmo das palavras.

É o livro da angústia, da dor, do silêncio (“O silêncio maduro inclina as horas, / cujo pêndulo se cobre de espumas.” (“Soneto com silêncio e sal”).

A segunda parte, “Cantares”, tecida com os fios da paixão, dedica à Laéria. O ambiente agora é urbano. Ao poeta não basta amar, é preciso proclamar o seu amor. A cidade admira sua musa, “A cidade se contorce à tua passagem / janelas e portas se abrem a teus pés”, a quem convida repetidas vezes, enunciando o bordão – “És formosa amiga minha, vem ...” sob auspícios delicadamente sensuais, “e como arde o rio que corre em tua língua... Entrega teus olhos aos azuis, para que teu corpo em chamas, se cubra desses lençóis que a noite estende sobre os escombros”, numa atmosfera levantina onde não faltam os cedros, incenso, mirra, aloés, o Líbano, atávicas referências amorosas. É o livro de Eros.

Se côdea é a casca rija da madeira, ou do pão de cada dia, como ensinam os dicionários, deparamo-nos já no título do livro com a primeira de muitas metáforas. Pois o que faz, é remover revestimento e camadas para extrair sofridamente dos armazéns da memória, recolhidos na intimidade da alma, a matéria que reconcilia seu espírito, “cimitarra do vento a triturar as côdeas da memória”, expressão do poeta em “Itinerário da sombra”. A dor, insumo das recordações, mesmo das felizes, alimenta o fluxo criador, espontâneo, que confere ao autor a autenticidade a que se refere Vargas Llosa em seu livro “Cartas a um jovem escritor”. Ainda quando prepondere o abstracionismo que oculta o real em imagens sofisticadas. Na verdade, a linguagem elíptica do poeta, tecida de metáforas estranhas e belas (“o barro do vazio”; “grãos do mar” (qualquer um diria gotas); “singra os cílios da solidão”; “grãos dos cílios”; “o alfabeto aceso das jangadas”; “pétalas de vinho”; “os mortos espantam borboletas com seu chapéu de areia”; “nesta terra sem cartilha”, indiferentes ao real, convida o leitor, sob o acorde melodioso das palavras, a que se refere Maria Beatriz Alcântara na orelha do livro, a completar imagens insinuadas com talentosa criatividade. É a palavra trabalhada com precisão semântica, força sugestiva, e a potencialidade da comoção. Percebe-se na obra do poeta o esforço, bem sucedido, de domar a corrente criadora que emerge da memória que não morre, e reata convívios interditos. Sob o fogo “dos gravetos do remorso”, empenha-se em conter palavras que no dizer dele se apoderam do poema (“navio, por exemplo, é uma dessas” em “Navio”), semeadas em remotas estufas, independem dos olhos e das mãos. Acontece como disse José Lins do Rego a propósito do alagoano Jorge de Lima, “o poema entra dentro do poeta e o domina, ou ele escreve ou perde o poema”.

O diálogo que trava com a folha em branco é a elegia da palavra, “pira, pátina, pórtico” (em “Anotações a lápis”), arquitetura do poema, feita de texturas diversas e às vezes do nome do silêncio. “Idéias e imagens ajustam-se ora no ritmo métrico, ora no ritmo psicológico” conforme comentou Linhares Filho em estudo sobre o autor. Prova disso é a destreza com que maneja verso livre e soneto, sem que a rima aprisione o vigor da palavra empalidecendo a força das imagens. A forma não constrange a criação. A poesia de Carlos Augusto, sem descartar o lirismo imanente a essa linguagem, é desidratada, lipoaspirada. Dispensa os atavios barrocos para se expressar numa beleza máscula e singular, feita de ossos e músculos. Ossos, são palavras dispostas num arranjo que suporta os músculos, metáforas comprometidas só com o mistério contido na harmonia dos vocábulos. A sensação que tenho ao ler os poemas é que o primado da palavra, indiscutível, não suprime a emoção nem envereda por uma criação cerebral, fria, que abafe a essência estética do verso ou anule seu conteúdo misterioso. A metáfora é o cerne da poesia, ensinou Neruda ao carteiro aprendiz de poeta junto ao jardim de sua casa à beira-mar.

Vargas Llosa, no livro a que me referi antes, afirma que o romance é uma fraude, uma mentira que parece verdade. A poesia, exceção das epopéias e do cordel, no geral não tem trama explícita, mas possui metáforas sensíveis, que ao contrário, são verdades que sugerem mentiras, por serem irreais ao exame objetivo das coisas. Essas metáforas são construções poéticas, e não meras analogias elegantes, que valorizam as dissemelhanças, e produzem tensão e interação de sentidos diferentes desprezando a similitude empírica. Alicerçam-se sobre a vontade da imaginação (“La terra est bleue comme une orange”, Paul Éluard). Operam para redescrever realidades e não para descobrir semelhanças, como ensina Paul Ricoeur.

Esses são os conceitos anotados por Clara Crabbe Rocha em ensaio constante na obra “Medicina e outras artes”. Ao adotá-los Carlos Augusto palmilha caminho hermético que instiga o leitor a interagir com a obra através da porta entreaberta da imaginação. Otávio Paz já disse que “a poesia não compara, não indica semelhanças, mas revela, mais ainda, provoca a identidade última de objetos que nos parecem irredutíveis”. Essa é a verdade da metáfora. Aí reside a dose de mistério que encanta e seduz, na riqueza das imagens e na harmonia das palavras que embalam o devaneio do leitor. Mistério, que como diz Garcia Lorca “está em todas as coisas, e a poesia é o mistério que todas as coisas têm”. Não por acaso o carteiro iniciado deixou perplexo o poeta ao indagar-lhe: “o senhor acha que todo o mundo, quero dizer todo o mundo, com o vento, os mares, as árvores, o fogo, os animais, as casas, desertos, as chuvas... o senhor acha que o mundo inteiro é a metáfora de alguma coisa? E o homem, acrescento eu, essa metáfora ambulante do inconsciente indecifrado. O mundo como uma formidável metáfora, esta é a matéria prima do nosso poeta. Com ela desenha o esboço dos enigmas que cada um decifre.

Chama-me atenção na obra de Carlos Augusto o rigor com que usa as palavras. Lembra a obsessão de Flaubert na busca da palavra exata, única capaz de expressar uma idéia, “le mot juste”, que perseguia com tenacidade admirável. Submetia todos seus textos à leitura em voz alta caminhando sob uma alameda de tílias (a “allée des gueulades” – a alameda da gritaria) para testar definitivamente a harmonia entre forma e conteúdo. O processo, peripatético ou não, serve igualmente à poesia, penso que até mais que à prosa. Ela é boa, se resiste ao derradeiro teste da leitura em voz alta. É o que vou fazer agora, submetendo a criação do poeta ao público, a despeito de notória deficiência vocal que empresta mais valor ao produto final.

O Caminheiro

Meu pai, com seu terno de areia,
percorre todos os minutos do mar.
Ainda bem, pois sempre amou os navios.
Um dia,-
desses que se desprendem dos calendários -
ele me falou que certas espumas
cultivam sílabas tão frágeis
que, aos lábios do vento,
perdem-se de nós,
ainda que nos deixem impregnados
do rastro de seu perfume.
A morte sabe a essas composições.


Que tal? Por mim, aprovo com louvor poema e poeta.

Trânsito

O trânsito de Fortaleza é um caos. O daqui e o das grandes cidades brasileiras. Entre outras razões pelo baixo investimento na melhoria do sistema viário e no sistema de transportes públicos.

Para agravar o problema, um número cada vez maior de pessoas, graças à facilidade de crédito, aquire automóveis, que vêm congestionar, ainda mais, as ruas já entupidas de veículos.

Providências ao alcance das autoridades locais de trânsito são paliativas, mas úteis, enquanto não se resolvem questões estruturais.

Em Fortaleza, por exemplo, carros estacionam em ruas estreitas dos dois lados, como na faixa de rolamento livre, veículos trafegam nos dois sentidos. O resultado é um engarrafamento permanente. Para piorar, serviços de carga e descarga, nessas mesmas ruas, ocorrem sem controle. Até em horários de pico!

E os motoristas, como se comportam? Falta civismo, como se diz em Portugal!

A Revista que circula aos domingos junto com o jornal O Globo, edição de 06/04/08, listou Os Dez Pecados Mais Comuns Ao Volante:

1- Fechar os cruzamentos
2- Avançar sinais
3- Andar devagar na faixa da esquerda
4- Correr na faixa da direita
5- Buzinar a qualquer hora do dia
6- Estacionar nas calçadas
7- Avançar sobre os pedestres que ainda atravessam
8- Mudar de faixa sem dar seta
9- Ficar parado quando abre o sinal... até que o carro de trás dê uma buzinada
10- Buzinar para o carro da frente no segundo em que o sinal abre

Faça seu exame de consciência, evitando pecar tanto.

Ministros

Da coluna de Ancelmo Goes, do jornal O Globo, edição de 08/04/08:

"Geddel é melhor

Pelo visto já foram melhores as relações entre Lula e Ciro Gomes. Um político governista garante ter ouvido do Presidente críticas ao ex-Ministro e elogios a Geddel Vieira Lima, seu sucessor no Ministério da Integração: O Geddel é um Ministro muito melhor que Ciro.
É. Pode ser."

Delegacias II

Querer atribuir a superlotação dos xadrezes das delegacias de polícia à ação do "Ronda", que tem méritos, é fazer pouco caso da inteligência das pessoas.

O problema antecedeu em muito à implantação do citado programa, que só ocorreu no mês de dezembro do ano passado.

O Governo do Estado do Ceará foi negligente em relação ao problema.

Se vai reconhecer...

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Curiosidade

Como andam nossas delegacias de polícia?

Ainda estão livres de presos, como deixei ao fim do meu Governo?

A imprensa livre e investigativa do Ceará, sempre preocupada com os direitos humanos, poderia nos oferecer esta resposta.

Vamos aguardar.