sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Universidades

Ranking chinês a cargo da Academic Ranking of World Universities (ARWU) incluiu 6 universidades brasileiras entre as 500 melhores do mundo.

A USP, na posição 144´, é a única da América Latina a integrar a lista. As demais brasileiras são, por ordem de classificação :

317 - Universidade Federal de Minas Gerais
318 - Universidade Federal do Rio de Janeiro
362 - Unesp - Universidade Estadual Paulista
365 - Unicamp
421 - Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Saiba mais na Folha de São Paulo, edição de 16/08/14

Retorno

De volta à casa após 7 dias em Portugal. Alguns dias na província, Benfeita, uma aldeia na região de Coimbra parte do Conselho de Arganil.

Comemorava-se a festa de N.Senhora da Assunção padroeira local. Dia 15, data consagrada à santa, é feriado nacional. Além disso agosto é o mês de férias na Europa e as pessoas costumam viajar por essa época.

Calcula-se que em Lisboa não fique mais que 30% da população. De resto a cidade está cheia de turistas. Afinal Portugal está considerado atualmente um dos melhores destinos turísticos do mundo.

Para a Benfeita durante a festa convergem naturais dali que vivem na capital, ou mesmo no exterior, e aproveitam a ocasião para um reencontro com familiares e amigos num mergulho nas origens.

Assim aconteceu com  minha mulher Maria Beatriz que foi inclusive, junto com a prima Maria Leonor, responsável pela organização da festa. Ambas recebiam pela função o título de mordomas. Desincumbiram-se muito bem de suas tarefas tendo a festa recebido elogios de todos.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

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"Retratei Maitê Proença em close, de olhos arregalados.
Nada do corpo. Apostei naquele retrato maluco
e aceitaram." (Ensaio Luiz Garrido)
Fonte: O Estado de S.Paulo - 10/08/2014

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Tapete Vermelho. A duquesa Kate e os príncipes Willian e Harry 
visitam a instalação de papoulas na Torre de Londres que 
homenageia os soldados britânicos mortos na 1ª Guerra.
Fonte: Imagens da semana - O Estado de S.Paulo (10/08/2014)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Economia

1- Que crise é essa em que estamos com o menor nível de desemprego de todos os tempos ?

Alexandre Tombini, presidente do Banco Central

2- Será muito difícil impedir pelo menos um trimestre de recessão.

Luiz Gonzaga Beluzzo, economista, professor da Unicamp

Piadas

Alunos, especialmente alunas, de cursinhos em São Paulo têm se queixado aos pais de piadas feitas em sala de aula por professores que consideram machismo, homofobia e racismo.

Para evitar processos as direções desses estabelecimentos pré-vestibulares têm orientado aos professores que evitem esses comentários jocosos.

Piadas como "o movimento feminista mais importante da história foi o movimento dos quadris", correm risco de extinção".

Sobre o assunto um professor disse: "Virei chato. Não faço mais brincadeiras. Minhas aulas estão terminando mais cedo. Passo exercícios a mais".

Outro, comentou: "O incrível é que há dez anos você podia contar piada de preto, de português. Ao mesmo tempo era inimaginável ter dois meninos se beijando no cursinho como temos agora".

Saiba mais na Folha de São Paulo, edição de 10/08/14

Tradução

Autores fazem literaturas nacionais, tradutores fazem a literatura iniversal.

José Saramago

sábado, 9 de agosto de 2014

Falar e ouvir

Precisamos cultivar a arte de ouvir uns aos outros. Não porque chegaremos a um acordo, mas para raciocinarmos sobre a vida que desejamos e aprendermos hábitos que levam a isso..

Michel Sandel, professor de filosofia

Felicidade

Pesquisa em 31 cidades da Europa revelou que os habitantes mais felizes estão no Porto. Seguem-se no ranking da felicidade europeia Munique e Barcelona.

Já os mais infelizes habitantes das cidades pesquisadas estão em Marselha.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Médicos

Em Portugal o Tribunal de Contas avaliando o desempenho do setor saúde sugere que o tempo médio de consulta nos Centros de Saúde do governo seja de 15 minutos quando há dois anos era de 21 minutos.

A medida permitiria um acréscimo de 10,7 milhões de consultas, 37% a mais que o número atual. O objetivo da proposta seria amenizar a escassez de médicos de família problema com o qual o país vem se defrontando há alguns anos.

Já quanto à qualidade do atendimento...

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Avós

A imprensa noticia que Estela Carlotto, presidente da associação das Avós da Plaza de Mayo, em Buenos Aires, encontrou depois de 37 anos seu neto desaparecido durante a ditadura militar argentina.

Descendia de uma filha sua assassinada pelos militares.

Quando estive na Argentina integrando um grupo de deputados federais brasileiros com o propósito de avaliar a situação política e visitar presos políticos naquele país e no Uruguai constou da programação um encontro com mães e avós da Plaza de Mayo em um café da capital portenha.

Na ocasião fiquei impressionado com o comportamento dessas senhoras que, reunidas periodicamente na praça em frente ao palácio do governo, cobravam o destino de filhos e netos desaparecidos no período em que os militares governavam o país.

Impressionou-me na ocasião a forma como exigiam obstinadamente informação sobre o paradeiro de filhos e netos na esperança de que ainda estivessem vivos. Ou pelo menos aparentavam assim pensar até que tivessem certeza do que lhes acontecera.

De certa forma fiquei intimamente chocado com aquele comportamento autista, que parecia ignorar a dura realidade imposta por uma ditadura cruel, impulsionado por uma esperança que bebia na fonte do amor.

A notícia do reencontro de avó e neto me fez recordar aquela viagem e reconhecer que a determinação daquelas senhoras, que à época me pareceu um tanto absurda, representa a vitória da persistência corajosa.

Sobrevivência

Às vezes a gente precisa se fazer de burra para sobreviver.

Valesca Popozuda, funqueira

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Desperdício

Com tanta gente passando fome é triste constatar que o mundo perde 30% do alimento produzido.

A Ásia industrializada é a região que apresenta a maior perda. No Brasil segundo a Embrapa a mior perda, chega a 50%, está no transporte e manuseio.

1,3 bilhão de toneladas de alimentos são perdidas no mundo por ano, 26,3 milhões vão para o lixo anualmente.

Saiba mais na Folha de São Paulo, edição de 21/07/14

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Água

O conflito pelo uso da água, face à escassez atual em razão da falta de chuvas, gerou um desentendimento entre a Agência Nacional de Águas (Ana), Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) e Operador Nacional do Sistema Elétrico (Ons).

Os três órgãos se acusam mutuamente de falta de regulamentação adequada para o emprego da água com as finalidades de consumo humano, geração de energia e transporte por meio de hidrovias.

A medida que o líquido se torna escasso há uma agudização desse choque de interesses que já começa a se fazer sentir também no comprometimento das relações dos estados entre si e destes com a União. O caso mais notório é o de São Paulo onde o colapso de abastecimento da capital deu lugar a acusações entre os governos federal e estadual e disputa pela água entre aquele estado e o Rio de Janeiro.

A situação decorre do descaso com os recursos naturais, o deperdício e a falta de gestão que assegure a utilização racional de bens como a água, de todos o mais precioso.

Saiba mais no jornal O Estado de São Paulo, edição de 27/07/14

terça-feira, 29 de julho de 2014

Esperança e cura

O médico americano Jerome Goopman há 30 anos trata de pacientes com câncer. Professor da Faculdade de Medicna da Universidade de Harvard escreveu, entre outros, o livro A Anatomia da Esperança (Editora Objetiva) relato de casos que demonstram que acreditar na cura, mesmo quando há poucas chances, pode ser de grande valia no tratamento.

Concedeu entrevista à Veja, edição de 29/09/04 da qual recolhi os seguintes trechos :

"A esperança não cura mas pode dar ânimo ao paciente para que ele continue a lutar pela sua melhora. Ela inspira coragem para superar o medo".

"Esperança não tem nada a ver com otimismo. O otimista acha que tudo vai dar certo, que tudo vai acabar bem. Mas sabemos que a vida não é assim. Nutrir esperança é reconhecer, sempre baseado na realidade dos fatos, que é possível encontrar um caminho".

"Um médico jamais deve se considerar na posição de juiz, dando ao paciente uma sentença de dias, semanas ou meses de vida. Nunca se deve considerar uma pessoa perdida a priori. A onisciencia a respeito da vida e da morte não faz parte do domínio do médico".

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Herois

Os herois discretos são a grande reserva moral de um país.

Mário Vargas Llosa

domingo, 27 de julho de 2014

Reflexão dominical

Para reflexão dos candidatos que concorrem à eleição deste ano :

Leitura do Primeiro Livro dos Reis - 1 Rs 3,5. 7.12

Naqueles dias, em Gabaon, o Senhor apareceu a Salomão em sonho, durante a noite, e lhe disse :
"Pede o que desejas e eu te darei". E Salomão disse : "Senhor meu Deus tu fizeste reinar o teu servo em lugar de Davi, meu pai. Mas eu não passo de um adolescente que não sabe ainda como governar. "Além disso, teu servo está no meio de teu povo eleito, povo tão numeroso que não se pode contar ou calcular. Dá, pois, ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso"? Esta oração de Salomão agradou ao Senhor. E Deus disse a Salomão : "Já que pediste estes dons e não pediste para ti longos anos de vida, nem riquezas, nem a morte de seus inimigos, mas sim sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu pedido; dou-te um coração sábio e inteligente como nunca houve outro igual antes de ti, nem haverá depois de ti"

Literatura

Por-se a serviço de uma causa destroi a beleza da literatura.

Orhan Pamuk

sábado, 26 de julho de 2014

Intelectual

Já li muita definições de intelectual mas esta, de George Steiner, é a mais sucinta embora não menos precisa : Intelectual é um ser humano que tem na mão um lápis quando está lendo um livro.

In Nenhuma Paixão Desperdiçada, editora Record.

Permanência da palavra

O mármore se desfaz, o bronze perece mas as palavras escritas ---- aparentemente o meio de expressão mais frágil -- sobrevivem. Vão-se seus criadores e elas permanecem -- Flaubert lançou seu grito de protesto diante do paradoxo de estar ele morrendo como um cão abandonado enquanto a "prostituta Emma Bovary, criatura sua, surgida de palavras sem vida rabiscadas em folhas de papel, continuaria a viver. Até aqui somente os livros conseguiram exceder à morte em astúcia e tem realizado o que Paul Éluard definiu como a compulsão maior do artista : le dure désire de durer.

De George Steiner, no livro Nenhuma Paixão Desperdiçada

sexta-feira, 25 de julho de 2014

UMA MENINA DE (AO MENOS) 800 ANOS
(Pasquale Cipro Neto)
 
 O documento régio mais antigo redigido em português de que se tem notícia o Testamento de D. Afonso II, o terceiro rei de Portugal. A data desse documento? 27 de junho de 1214. Já lá se vão 800 anos e alguns dias.

Há registros de documentos escritos antes, mas, por ser oficial e por ter estrutura e formas que o distinguem do galego-português, isto, por ter sido escrito em português (arcaico), o Testamento de D. Afonso II simboliza a "certidão de nascimento" da nossa língua.

Para alguns, esse "nossa" que acabo de empregar motivo bastante para uma "guerra", mais ideológica do que real ou concreta. Explico: tanto no Brasil quanto em Portugal há gênios que dizem que o que se fala no Brasil "brasileiro".

Dou um exemplo, real e inacreditável: um amigo (brasileiro) entrou numa loja do aeroporto de Lisboa e perguntou algo a uma funcionária, que respondeu em inglês. O "cliente" fingiu que no ouvira o que ouvira e continuou a conversa em português, mas a rapariga... Bem, diante da insistência dela em responder em inglês, tornou-se inevitável a pergunta: "Mas por que a senhora me responde em inglês se entende perfeitamente o que lhe digo em português?". Prepare-se, caro leitor: "Porque eu só falo português com portugueses; com turistas, falo inglês".

Sim, nos 514 anos desses 800 (que certamente so mais de 800), o português do Brasil fez o que afirma Caetano Veloso na genial "Língua" (de 1984): "Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões". "A língua de Luís de Camões" o português de Portugal, e "a minha língua" o português brasileiro moderno, feito com o roçar do português europeu.

A origem (latina) de "roçar" é  a mesma de "romper" ("rasgar, quebrar, arrebentar"). "A minha língua" se faz como faz quem tem nas mãos uma foice e sai abrindo caminho.

Não se pode esquecer que, por extenso de sentido, "roçar" tem os traços semânticos de "tocar", "resvalar", "friccionar", sentidos que se ilustram bem pelo roçar de pernas que se dá numa conjunção carnal amorosa -na letra de Caetano, essa conjunção se dá entre o português de lá e o de cá. Se pensarmos na metáfora de uma conjunção carnal, os corpos (as duas vertentes da língua) aproximam-se e afastam-se, aproximam-se e afastam-se...

No belíssimo documentário "Língua _Vidas em Português" (do moçambicano Victor Lopes), disponível no YouTube, o grande escritor moçambicano Mia Couto faz referência e reverência específica ao namoro e à conjunção carnal entre o português europeu e o do Brasil. Mas do notável José Saramago a mais cabal definição: "Penso que no haja propriamente uma língua portuguesa; há línguas em português".

Celebremos os mais de 800 anos e a multiplicação de outros tantos -que decerto virão. E celebremos o que já se fez e se faz na nossa língua, que nossa, sim, e de todos, sem ressentimentos ou preconceito.

Lembro aqui uma apresentação de Caetano Veloso em Roma. Ao chamar para o palco a magnífica cantora portuguesa Dulce Pontes, Caetano disse, em italiano, que a chamaria "per cantare con me nella nostra lingua portoghese".

Lembro também o grande Fernando Pessoa: "A minha pátria a língua portuguesa". Em "Língua", Caetano cita esse pensamento e, num primeiro momento, altera-o ("Minha pátria minha língua") e exemplifica-o com esta exortação: "Fala, Mangueira!". Em outro momento, Caetano cita-o novamente e o emenda: "A língua minha pátria/ E eu no tenho pátria, tenho mátria / E quero frátria".

Como diz Mia Couto, o Brasil deu as costas para a África (e também para Portugal, creio). E, de certa maneira, estamos todos de costas uns para os outros.

Independentemente disso, as línguas em português seguem (e seguirão!) belas, firmes e fortes. É isso. 

Fonte: Folha de São Paulo (17/07/2014)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Aeroportos

O governo comemorou o funcionamento tranquilo dos aeroportos durante a Copa. Realmente não há notícias de congestionamento, tumulto, atrasos que viessem a causar desconforto aos usuários naquele período. O temido caos aéreo não aconteceu.

Certamente terão contribuido para isso providências como suspensão de voos não relacionados aos eventos da Copa e outras medidas para diminuir o tráfego aéreo nas sedes de jogos.

Na verdade o tráfego em aeroportos caiu 4% nas cidades-sede. O número de pousos e decolagens nos aeroportos durante os dias de jogos da Copa foi 4% menor do que um mês antes. O cálculo foi feito segundo dados dos boletins diários de tráfego aéreo de 12/06 a 13/07.

Ao longo da Copa houve apenas três dias de pico todavia não foram mais intensos que em Carnavais ou feriados de fim de ano.

Saiba mais na Folha de São Paulo, edição de 17/07/14

Energia

O aumento na conta de energia elétrica desencadeou um processo de desativação de indústrias que optaram por substituir a produção pela venda de energia.

Com contratos de longo prazo empresas deixaram de produzir para venderem a energia contratada. Miram a rentabilidade do capital indicando que vai mal a performance industrial do Brasil.

O maior exemplo dessa prática está no setor de alumínio formado por grandes consumidoras de energia elétrica. A produção local foi reduzida, a energia comercializada o que lvou a um aumento de da importação em 888%.

Algumas fábricas, diante da elevação do preço da energia, não puderam arcar com os custos, tornaram-se inadimplentes e tiveram o fornecimento cortado.

Saiba mais no jornal O Estado de São Paulo, edições de 04 e 06/07/14

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A convite da Liberty Fund --uma associação americana que promove dezenas de colóquios por ano pelo mundo inteiro e publica as grandes obras do pensamento político "liberal"-- passei os últimos dias relendo Alexis de Tocqueville (1805-1859), autor do clássico "Da Democracia na América" (e do igualmente magistral "O Antigo Regime e a Revolução").

Da primeira vez que viajei com ele pelos Estados Unidos, ainda estudante, devo ter entendido metade da obra (estimativa otimista). Hoje, confesso que consegui uns 75% --e simpatizei com a essencial inquietação do aristocrata francês.

A "era democrática" nascia desse lado do Atlântico. Acabaria por se espalhar pelo mundo. Mas Tocqueville, apesar de admirações mil pelo novo país, detectou na "era da igualdade" o seu problema mais marcante: como escapar às "tiranias da maioria", que poderiam ser ainda mais brutais do que as tiranias do passado?

No Antigo Regime, a tirania tinha solução: as cabeças decepadas de Charles 1º (na Inglaterra) ou de Luís 16 (na França) eram uma resposta possível. E eficaz.

Mas como fugir, na era democrática, a essas tiranias majoritárias, silenciosas, muitas vezes ignaras, que subvertem as liberdades básicas em nome de uma difusa "vontade geral" --que, por ser geral, têm sempre prioridade sobre as vozes dissonantes?

Conheço as respostas clássicas para aliviar os potenciais prejuízos: separação de poderes; eleições regulares; liberdade de expressão; fortalecimento da sociedade civil. Tocqueville tocou todos esses instrumentos.

Mas o que perturba é verificar que, para Tocqueville, nenhum desses mecanismos pode ser suficiente para evitar o dilúvio da tirania majoritária. A história do século 20 é o retrato dessa melancolia profética: será preciso recordar os ditadores que usaram a democracia para liquidar a democracia?

Só que o problema das democracias não se limita às "tiranias da maioria". Também é preciso ter em conta as "tiranias da minoria" --uma observação sagaz introduzida na discussão do colóquio por John O'Sullivan, um conhecido colunista britânico para quem um dos problemas das democracias modernas está na forma como alegadas "elites" (políticas, intelectuais, acadêmicas etc.) capturam a liberdade das maiorias.

Pode ser sob a forma de um "paternalismo soft" (o que devemos comer, beber, fumar etc.). E pode ser sob a forma de um "paternalismo hard" (o que devemos ler, pensar, que expressões usar, que sensibilidades de minorias respeitar etc.).

Escusado será dizer que as nossas democracias estão hoje dominadas por esses dois tipos de tiranias: por um lado, a tirania de populistas autoritários que conquistam facilmente a ignorância e a pobreza das massas com suas promessas ilusórias de redenção.

Por outro lado, encontramos também a tirania de uma suposta "intelligentsia" vanguardista que gosta de tratar os cidadãos como crianças --crianças que não sabem pensar, nem comportar-se, nem viver sem a tutela de um Estado "babysitter", que as embala do berço até a cova. Haverá solução para isso?

Curiosamente, Tocqueville achava que sim. E mais: considerava que essas soluções deveriam nascer no interior das democracias --e não pelo retorno reacionário a uma idade de ouro aristocrática que, na verdade, nunca verdadeiramente existiu.

Algumas dessas soluções já foram referidas: separação de poderes; liberdade de expressão; pluralismo religioso; reforço da independência da sociedade civil (a "arte de associação", como lhe chamava Tocqueville e que ele presenciou com agrado nos Estados Unidos).

Mas a mensagem fundamental de Tocqueville é que a única forma de preservar a liberdade perante a tirania passa por cultivar nos indivíduos o gosto por essa liberdade.

Ou, como o próprio escreveu num dos momentos mais sublimes da sua "Da Democracia na América", o principal objetivo de um governo virtuoso é permitir que os cidadãos possam viver sem a sua ajuda. E acrescenta Tocqueville: "Isso é mais útil do que a ajuda alguma vez será."

Passaram quase 200 anos sobre essas palavras. Curiosamente, não envelheceram uma ruga.

Fonte: 1º/07/2014 - Folha de S.Paulo
Autor: João Pereira Coutinho
Vou ao supermercado e fico pasmo com os produtos nas prateleiras. Não falo da quantidade de iogurtes, bolachas, pastas dentifrícias ou papel higiênico que me transformam no famoso burro de Buridan --o asno do paradoxo filosófico que morre de fome por não saber qual dos pedaços de feno escolher. De fato, tanta variedade paralisa qualquer um.

Falo de outro fenômeno igualmente agônico: a quantidade de produtos alimentares que parecem diretamente saídos de um consultório médico.

Um iogurte não é um iogurte, com um determinado sabor e uma determinada textura. É quase um remédio de farmácia que promete diminuir o colesterol e controlar 50 outros indicadores orgânicos igualmente importantes para a saúde do sujeito.

E quem fala em iogurtes, fala em sucos (com seu cortejo de vitaminas), batatas fritas (com reduções heroicas na quantidade de sal) e até chocolates (alguns deles prometem melhorar o fluxo arterial). Como se chegou a isto? Verdade: com a "morte de Deus" e o fim de uma vida transcendente, cuidar do corpo transformou-se na única religião dos homens modernos. De tal forma que nem a gastronomia está a salvo: antes do prazer ou da mera fome, está primeiro a saúde. Hoje, não se come mais para viver. Come-se para viver até aos cem --uma importante revolução civilizacional.

Honestamente, nem sei por que motivo não se abrem restaurantes em hospitais, com refeições cozinhadas por médicos e servidas por enfermeiros. No final, o cliente faria análises ao sangue e só pagaria a conta se tivesse o número certo de triglicerídeos.

O problema é que nem no hospital o cliente estaria a salvo. Desde logo porque é cada vez mais difícil saber o que comer: existem estudos, publicados a um ritmo demencial, que dizem uma coisa e o seu contrário. Às vezes, na mesma semana --ou até no mesmo dia.

A carne vermelha é má, defendem uns. A carne vermelha é ótima, garantem outros. Sobre os laticínios, há opiniões para todos os gostos: são puro veneno; são simplesmente insubstituíveis. E até as gorduras, que deveriam ser um inimigo consensual, parece que não são tão inimigas assim.

A revista "Time", aliás, dedicou matéria especial ao fenômeno: durante décadas, o país declarou guerra às gorduras. Que o mesmo é dizer: incluiu no Index da dieta nacional a carne vermelha, os ovos, os laticínios, a manteiga. A mensagem era simples: conservar um coração saudável implicava dizer adeus a todo esse lixo. Conclusão? Os americanos foram dizendo adeus ao lixo, optando por aves, leite magro ou cereais. Infelizmente, a mudança na dieta não os tornou mais saudáveis. Pelo contrário: o país está mais doente do que nunca.

A diabete de tipo 2 aumentou 166% entre 1980 e 2012. Os problemas do coração continuam no topo da lista --e das mortes. E, sobre a obesidade, estamos conversados: falar dos Estados Unidos é imaginar uma nação disforme de glutões disformes. Explicações? Não, a gordura não é o papão que se imaginava, explica a revista. Não entro em termos técnicos, até porque eles são demasiado gordurosos para mim. Mas parece que a gordura do peixe e dos vegetais é boa para o coração. E até a gordura "suspeita" de um bom filé (cozinhado com manteiga, claro) tem vantagens respeitáveis na limpeza do mau colesterol.

Os verdadeiros inimigos, hoje, são os carboidratos presentes nos açúcares, nos doces, nos farináceos. Isso, claro, enquanto não surgir um novo estudo a defender precisamente o contrário --ou, pelo menos, a colocar as coisas na suas devidas proporções.

E eu? Que fazer perante essa selva de alarmes contraditórios? Nada. Rigorosamente nada. Perdido no supermercado, vou retirando das prateleiras os alimentos que a ciência aprova e desaprova nos dias pares e ímpares, respectivamente.

E confesso que as gorduras continuam a ter espaço generoso na minha dieta animalesca. Não que eu me orgulhe disso, cuidado. Mas enquanto não existirem estudos definitivos sobre o assunto, prefiro seguir as recomendações da minha ilustre dra. Gula.

Fonte: 24/06/2014 - Folha de S.Paulo
Autor: João Pereira Coutinho