Fonte: Les Morts mystérieuses de l'Histoire - Deuxieme série
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sexta-feira, 15 de setembro de 2017
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
A corrosão do consenso básico
Quando tudo é contestado,
o resultado é uma
democracia
instável, imprevisível.
Vivemos uma
crise multifacetada: econômica, política, social jurídica, cultural, ideológica
e histórica. Mais grave que os aspectos econômicos, sociológicos ou jurídicos
da crise, contudo é seu agravamento político. Estamos num rumo perigoso. No
Brasil tudo está em questão. A isso nos levou a confusão cultural, normativa e
comportamental que resultou da dilaceração do tecido social.
Qualquer
sociedade democrática precisa institucionalizar valores básicos, subscritos por
sua população, para assegurar sua estabilidade e um ordenado e legal processo
político de mudança. Quando não há consenso em torno desses valores básicos ou
quando se instala um conflito radical entre eles, a Nação tende a se dividir em
dois blocos radicais e excludentes “qui hurlent de se trouver ensemble”.
É a
conhecida situação da curva em U, em que o poder foge do centro e se aloja nos
extremos. Caso da guerra civil, o pior dos conflitos, cujo exemplo emblemático
é a Guerra Civil Espanhola, que em julho de 1936, mais que dois blocos, deu
origem a “duas Espanhas”. Nessa situação, parentes e amigos evitam se
encontrar, tal a hostilidade que os valores políticos antagônicos provocam
entre eles. A guerra civil é a prova definitiva de que o ódio na política é
muito mais forte que o ódio no amor.
Não nos
encontramos nessa situação. Mas já estivemos muito mais longe dela... Entre a
Espanha da guerra civil e o Brasil da crise, a Venezuela bolivariana de Maduro
já se encontra muito próxima da guerra civil. Estamos ainda longe da situação
espanhola, mas não tão longe da venezuelana. Atente-se para alguns valores
essenciais à vida social organizada que se encontram em conflito, contestação e
deslegitimação, no Brasil.
• Democracia direta para corroer a democracia representativa – A
única condenação legítima é pelo voto: implica desqualificação da legislação
penal; pressão por convocação de constituintes, plebiscitos, referendos e
reformas políticas para substituir competências já definidas do Legislativo e
do STF; manifestações com militantes “pagos” para pressionar, e forçar,
decisões legislativas ou jurídicas em normal tramitação no Congresso e no STF.
• Quebra do consenso, tudo está em questão – Redefinição contra
legem da família, do regime jurídico do funcionalismo (greve), da eleição
direta de dirigentes de órgãos públicos.
Família: qual sua conformação em termos de gêneros? Malicioso
enquadramento da discussão família tradicional x família moderna. Sexo:
escolhe-se ou é predeterminado ao nascimento? Uso de sanitários é de livre
escolha?
Democracia:
qual a verdadeira democracia, a representativa ou a democracia direta? Qual o
valor estruturante da democracia, igualdade e liberdade política ou igualdade
econômica e social? Liberdade econômica macro: quem deve ocupar-se da atividade
econômica: a livre-iniciativa ou os órgãos do Estado?
Propriedade privada é legítima e legalmente protegida ou tem
legitimidade discutível e precária? A “invasão” é um delito ou é um direito?
O lucro é
uma conquista legítima ou um roubo, sujeito à expropriação? O mercado é
necessário ou prejudicial?
A escola
deve transmitir conhecimentos ou ideologia? Educação ou doutrinação? É legítimo
e legal a censura por deliberada exclusão? É óbvio que, na prática política,
ideologia e doutrinação serão eufemisticamente definidas como “espírito
crítico”.
O criminoso
é responsável por seus atos ou vítima? Liberdade de imprensa é uma garantia de
liberdade ou é o abuso dos proprietários? Qual o critério legítimo para a
promoção salarial ou na carreira: desempenho (mérito) ou confiança política?
Símbolos religiosos não podem ser expostos em público ou é direito
de qualquer religião expor seus símbolos? A vida humana é sagrada ou
instrumental?
O que é a
legalidade? O Estado Democrático de Direito, suas instituições e normatividade,
ou esses são apenas atributos formais, inferiores aos critérios substantivos? O
que é golpe de Estado, um conceito jurídico-político ou uma expressão usada na
disputa política de significado arbitrário? Como entender esta frase: seguir a
virtude prejudica o País (prejuízos e custos da Lava Jato)?
• Destruição da dignidade dos Poderes e das funções – Plenário do
Congresso como palco para danças folclóricas, reunião indígena, concentração de
minorias organizadas. Ocupação da Mesa do Senado por senadores de um partido.
Legisladores usando cartazes, igualando-se a manifestantes. Cenas de pugilato,
cuspidas. Obstrução invasiva apoiada por legisladores.
Como se
constata, tudo é contestado. E quando tudo é contestado, corrói-se o consenso
básico. Não se trata de um consenso absoluto e irreal. Trata-se de um consenso
em valores básicos, centrais e de elevada hierarquia, mediante o qual a
política e a administração são previsíveis; contêm regras que os cidadãos
conhecem, praticam e as instituições protegem; e se consolida numa organização
política democrática, unida em torno desses valores e dividida em torno de
políticas públicas.
Quando tal
não sucede, quando tudo é contestado, quando tudo está sempre aberto a
mudanças, o que resulta é uma democracia instável, imprevisível, de precária
legitimidade e duração. Tais democracias tendem a desembocar no totalitarismo,
na ditadura populista ou na cronificação da instabilidade, o que parece ser o
caso do Brasil.
A listagem
apresentada permite identificar, no mínimo, 40 questões intensa e radicalmente
divisivas. Considere-se, entretanto, que nenhuma é de importância periférica ou
secundária. São todas elas indispensáveis para a configuração política,
econômica, social, jurídica e cultural do País e para a qualidade de sua
democracial.
A indagação
que se impõe é de hierarquia correspondente à gravidade do nosso desafio como
nação democrática: como uma nação com tal grau de conflito em seus valores
básicos poderá construir e manter uma democracia moderna, autêntica e estável?
Por Francisco
Ferraz -
Professor de Ciência Política e ex-reitor da UFRGS, é criador e
diretor do portal politicaparapoliticos.com.br.
Fonte: O Estado de S. Paulo, Espaço Aberto - Domingo (08/08/2017)
O fim do amadurecimento
Existem alguns efeitos nefastos que são claramente derivados da
sociedade avançada de mercado em que vivemos. Aliás, minha principal razão de
crítica à esquerda é sua incapacidade atávica de perceber a realidade. Ao
contrário do que parece, a esquerda investe numa visão infantil da realidade,
negando o fato de que ela mesma, a esquerda, é um dos fetiches mais chiques do
capitalismo avançado.
Se a
esquerda é utópica em sua crítica infantil, os liberais tampouco nos ajudam com
sua utopia de que o mercado resolve tudo. Falta aos liberais reverência ao
fracasso.
Falta à
esquerda a humildade de se assumir como um produto do capitalismo como uma
Louis Vuitton. O sucesso do melhor método de produzir condições razoáveis de
vida (o capitalismo) é nosso próprio cadafalso: gente bem de vida fica, na
maioria das vezes, boba.
Mas vamos ao
que interessa. O fim do amadurecimento. Mas, antes, um detalhe de que não
tratarei hoje: o fim do afeto. Este está em extinção devido ao seu caráter
necessariamente dolorido. Não existem paixões alegres sem paixões tristes.
O fim do
afeto ocorrerá em breve e ele está intimamente associado ao fim do
amadurecimento porque este implica naquele. Não há amadurecimento sem
sofrimento e esse é o foco de todo o esforço moderno: eliminar o sofrimento.
Calma. Não
estou aqui a fazer um elogio à agonia. Nem ao sofrimento. Não precisamos
procurá-los, eles nos encontram de forma inevitável. Toda pessoa normal, como
diziam utilitaristas como Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill
(1806-1873), foge da dor e busca o bem-estar. Estou a dizer que o utilitarismo
transformado em comportamento sistemático produziu o momento mais infantil da
espécie: nossa era.
Pode-se
notar claramente o fim do amadurecimento tanto no comportamento dos mais jovens
como no dos mais velhos. O amadurecimento não é algo que se busca ou se compra.
Ele está mais perto do fracasso do que do sucesso. É aquele tipo de estado de
espírito que se revela mais no silêncio do que no ruído da autoafirmação. Pede
paciência, como o conceito pede, diria Hegel (1770-1831).
E levanta
voo no final do dia, como a coruja da filosofia, segundo o mesmo Hegel. Por
isso sempre associamos o amadurecimento aos mais velhos. Quando se vê avós
querendo imitar netas, pode apostar que o contrário do amadurecimento, o
retardo mental, se instalou como modo de vida.
Nos jovens,
o estrago é cada vez pior. Chegam a universidade atolados em "políticas de
vulnerabilidade". Você não sabe o que é isso? Explico.
Em 2004, o sociólogo inglês Frank
Furedi, no seu "Therapy Culture", ainda sem tradução no Brasil,
apontava, a partir de uma pesquisa empírica na mídia impressa britânica, o
crescimento de termos psicológicos que descrevem vulnerabilidade: angústia,
necessidade de aconselhamento, ansiedade, distúrbios de atenção, e outros.
Nas escolas
e universidades, o impacto é enorme. Pais e profissionais, de forma disfarçada,
pressionam as instituições de ensino para "aprovarem" seus filhos em
nome de seus diagnósticos. A vulnerabilidade clínica deve ser critério, pensam
o ideólogos dessas políticas de vulnerabilidade, para aprovação. Usam termos
como "inclusão" para justificar velhas práticas de negação dos
resultados ruins de seus filhos e pacientes.
O resultado,
entre outras coisas, é que os jovens são cada vez mais frágeis, com quase
nenhuma "resiliência" (nome da moda pra se referir à velha força de
caráter, fora de moda). Sendo uma avaliação algo além de mera devolutiva de
conteúdo da matéria, essa mesma avaliação passa a ser um instante de enorme
stress patológico. Algum dia desses, um professor será processado por reprovar
um aluno.
E o problema
é que a pedagogia, muitas psicólogas e parte do Ministério Público endossam
esse desastre para o amadurecimento.
O ganho
secundário, como diria Freud (1856-1939), dessa neurose da vulnerabilidade é
que esses jovens são "poupados" de qualquer responsabilidade moral.
Uma catástrofe em nome da vulnerabilidade. Uma geração inteira de medrosos com
iPhones.
As substâncias medicinais da maconha
O uso da maconha foi proibido a partir da
conferência internacional do ópio, realizada em Genebra em 1924. Decidiu-se na
época que era mais perigosa do que o ópio.
Em nosso meio, segundo o professor Elisaldo
Carlini, da Unifesp, a partir da década de 1930, seu uso foi proibido e os
usuários passaram a sofrer perseguição policial.
Antes da proibição, a Cannabis já
era usada no tratamento de convulsões em crises de epilepsia.
Em 2003, a OMS autorizou o uso médico da
tetra-hidrocanabinol, substância derivada da maconha. No Brasil, a RDC 79/2016
da Anvisa incluiu os canabinoides como produto médico controlado sob receita médica.
Raphael Mechoulan, da Universidade Hebraica de
Jerusalém, recentemente fez uma revisão, na revista "Epilepsy &
Behavior", dos canabinoides e do uso dos princípios ativos da maconha.
Em pesquisa publicada em 1964 no "Journal of
the American Chemical Society", Mechoulan, em colaboração com Yechiel
Gaoni, relatou o isolamento pela primeira vez do tetra-hidrocanabinol, no
Instituto Weizman de Ciências de Israel. Mais tarde, essa e outras substâncias
ativas da maconha passaram a ser usadas no tratamento de crises epilépticas de
crianças, onde outros remédios falharam. Essas substâncias estão sendo
estudadas para controle da dor e em problemas autoimunes.
Pelo pioneirismo de Mechoulan, está sendo
organizada uma conferência internacional em sua homenagem pela Universidade
Hebraica de Jerusalém e pela Sociedade Internacional de Pesquisas em
Canabinoides.
Fonte: Folha de S. Paulo, Plantão Médico, por Júlio Abramczyk - Sábado, 5/08/17).
sexta-feira, 25 de agosto de 2017
segunda-feira, 7 de agosto de 2017
PEQUENAS LIVRARIAS VOLTAM A ABRIR PORTAS EM NOVA YORK
Um ditado favorito dos
americanos para expressar ironia após triunfar sobre uma adversidade foi
cunhado por Mark Twain: “Notícias da minha morte foram muito exageradas”, disse
o autor de Huckleberry Finn, um
humorista fino. Para os sofridos livreiros independentes, um pouco de
triunfalismo será desculpado, neste ano em que o discurso público emanando de
Washington reflete alergia a qualquer forma de prosa literária. Não é exagero:
as livrarias independentes, além de não estar mortas, voltaram com força. Em 2009,
havia 1.401 livrarias independentes nos Estados Unidos. Este ano, elas já somam
2.321. Nova York, onde caros aluguéis comerciais afugentam o varejo como não
acontecia desde o crash de 2008, ganhou pelo menos cinco livrarias no último
ano, como a aconchegante Books Are Magic, no Brooklyn. A livraria foi aberta em
maio pela romancista Emma Straub, autora de Os Veranistas,
que começou a escrever ficção enquanto trabalhava como vendedora na Book Court,
no mesmo bairro. A Book Court fechou depois de 35 anos, em dezembro, porque o
prédio foi vendido para um empreendimento imobiliário. O pesar entre leitores e
escritores que lançavam seus livros na Book Court, como Junot Diaz e Don
DeLillo, ilustrou como o papel das independentes cresceu com a debandada das cadeias
sob o cerco da Amazon e do livro digital.
O
número de debates e eventos com autores em livrarias aumentou este ano, depois
da vitória do presidente, que pede aos assessores relatórios de apenas uma
página, de preferência com gráficos. E não é só por causa do renovado sucesso
da ficção sobre distopias. Em cidades como Washington, Boston, São Francisco,
Chicago e Nova York, é comum noites com mais de um autor debatendo temas além
da literatura, como política de saúde e educação.
A
explosão das cadeias dos anos 1990, como a Barnes & Noble, ainda
sobrevivente da devastação digital do começo do milênio, colocou as
independentes na defensiva, incapazes de competir com a venda de livros com
desconto. Mas as cadeias de livrarias, além do assalto da Amazon, passaram a
enfrentar outro fenômeno recente: a morte dos shoppings onde costumavam se
instalar. É o que a mídia chama de “apocalipse do varejo”. Enquanto shoppings
vão ficando desertos, a vida de pequenas cidades e subúrbios afluentes se volta
ao comércio da rua principal e adjacências. É um estímulo à volta da livraria
como ponto de encontro e conversa.
Há 20 anos, esta repórter
estava filmando uma da melhores livrarias de ficção literária de Nova York,
quando uma van despejou uma turma de alunos do segundo grau na Books &
Company. O professor guiava a turma como se estivesse no Museu Metropolitan,
destacando fotos de grandes romancistas nas paredes. Foi um momento doce e
amargo. A sorte dela já estava selada pela alta exorbitante do aluguel do
proprietário do prédio, o Museu Whitney. Mas os adolescentes percorreram com
entusiasmo a livraria como a âncora de uma cultura literária pela qual estariam
por se afeiçoar.
Novas
pesquisas revelam que apenas 6% dos leitores de livros nos Estados Unidos
consomem apenas livros digitais. A livraria física e os livros impressos
continuam a atrair leitores de todas as idades. Para uma cidade de 8.5 milhões
de habitantes, as cem livrarias independentes de Nova York não fazem frente à
fartura de Paris. Mas a saúde das livrarias independentes mostra que é possível
conviver com o e-livros sem abdicar dos prazeres do papel.
Fonte: Lúcia Guimarães. O Estado de S. Paulo (Domingo, 2 de julho de 2017)
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