terça-feira, 24 de abril de 2018


A insurgência dos vaga-lumes

Em vez de optar pela desesperança, há quem continue a apostar na rebelião do pensamento



Imagine um livro denso sobre a obra e o pensamento de Franz Kafka que, para ser lido, exija o trabalho prévio de desatarraxar com chave de fenda dois pequenos parafusos enferrujados trespassando todas as páginas, desde a capa até a contracapa.

Ou um volume que, a propósito de falar de insurreições e revoltas de rua, tenha a extremidade das folhas chamuscadas, exemplar a exemplar, e por isso recenda levemente a papel queimado.

Ou, ainda, uma brochura sobre o inferno do sistema prisional, com as costuras da lombada à vista, acondicionada dentro de um marmitex de papel alumínio, simulando uma quentinha.

Tais ousadias gráficas, que dessacralizam o formato livro e ao mesmo tempo convertem tais publicações em objetos de arte, constituem apenas um dos muitos aspectos instigantes dos títulos lançados por uma editora alternativa paulistana, de catálogo tão enxuto quanto insubmisso às convenções do mercado.

Para além do artesanato e dos experimentalismos materiais que nos atiçam os sentidos, o portfólio da n-1 edições impressiona pelo espírito transgressivo de sua proposta editorial. Não são livros destinados ao mero deleite, à leitura de puro entretenimento. Foram escritos, de modo deliberado, para ferroar consciências.

"A ideia é oferecer pontos de vista que ponham em xeque a perspectiva da razão ocidental, branca, masculina, heteronormativa, eurocêntrica", explica o filósofo, professor e tradutor Peter Pál Pelbart, que dirige a editora ao lado do sócio, o produtor cultural Ricardo Muniz Fernandes. "Queremos suscitar alteridades e insurreições de pensamento, por meio da propagação de vozes plurais que sejam minoritárias, quase inaudíveis."

Desde o primeiro lançamento, "Máquina Kafka", de Félix Guattari, em 2011, até os títulos mais recentes, como "As Existências Mínimas", de David Lapoujade, a n-1 investe em uma linha transdisciplinar que abarca da antropologia à estética, do teatro à filosofia, da política à literatura. Mas sempre trabalhando nos interstícios do mercado, na tentativa de promover fissuras em relação aos discursos hegemônicos.

O filósofo camaronense Achille Mbembe, com "Crítica da Razão Negra", e a americana Judith Butler, com "Corpos que Contam", figuram entre os próximos lançamentos. Autores brasileiros, como Eduardo Viveiros de Castro ("Metafísicas Canibais"), Suely Rolnik ("A Hora da Micropolítica") e Vladimir Safatle ("Quando as Ruas Queimam: Manifesto pela Emergência"), também estão no catálogo.

"Resolvemos publicar esse tipo de livro diante de nossa insatisfação com a maneira rasa de pensar que tomou conta do mercado editorial", comenta Pelbart. "Queremos ativar sensibilidades, promover a potência do pensamento complexo, buscar afinidades com movimentos já em curso."

Tamanho arrojo gráfico-editorial esbarra nas óbvias limitações mercadológicas relativas a esse tipo de produção. Para tentar prosseguir sustentável, a editora instituiu recentemente uma espécie de financiamento coletivo.

Por meio de pequena quantia mensal, o interessado recebe em casa publicações do catálogo, incluindo os impetuosos folhetos da série intitulada "Pandemia", feitos para serem repassados de mão em mão, produzindo o efeito de contágio.

Questionado sobre se, ante o recrudescimento da onda conservadora, é possível sobreviver à custa de uma tática que ele próprio define como "guerrilha editorial", Pelbart responde parafraseando um trecho de "A Sobrevivência dos Vaga-lumes", do francês Georges Didi-Huberman.

"A dança dos vaga-lumes se efetua justamente no meio das trevas", diz, com voz tranquila e pausada. "Quanto mais pesada é a penumbra, mais somos capazes de captar as insurgências do mínimo clarão, perceber os lampejos fugidios e nômades no meio do escuro."

Bom saber que, em vez de optar pelo lamento quase geral de desesperança ou pela rendição cínica ao pragmatismo, existe gente que continua a apostar na alteridade e na rebelião do pensamento. Mesmo que, no presente instante, a luminescência insubordinável dos vaga-lumes pareça eclipsada pelos clarões artificiais dos refletores midiáticos e pelo lusco-fusco entorpecente das multitelas.

"Devemos nos tornar vaga-lumes e, desse modo, formar novamente uma comunidade do desejo, uma comunidade de lampejos emitidos, de danças apesar de tudo, de pensamentos a transmitir", propôs Didi-Huberman. "Dizer 'sim' na noite atravessada de lampejos e não se contentar em descrever o 'não' da luz que nos ofusca."

Lira Neto
Jornalista, pesquisador e biógrafo, já ganhou quatro prêmios Jabuti por sua obra.

Fonte: Folha de S. Paulo - ilustrada - 04/02/2018.


segunda-feira, 23 de abril de 2018

O risco de ‘infantilizar’ a gestão pública
Agências reguladoras e gestores públicos em geral têm evitado tomar decisões inovadoras por receio de terem atos questionados. Ou pior: deixam de decidir à espera de aval prévio do TCU

O controle da administração pública passou por profunda transformação nos últimos 30 anos, impulsionado pela configuração institucional da Constituição de 88, que em boa hora fortaleceu órgãos como o MP e o TCU. Deve haver, porém, equilíbrio entre gestão e seu controle, sob pena de criarmos no país um “apagão decisório”, despertando nos gestores temor semelhante ao de crianças inseguras educadas por pais opressores.

A Emenda Constitucional 19 lançou bases para uma administração gerencial, mitigando o modelo burocrático, de matriz weberiana, instituído em 1988. Aos novos instrumentos que propugnam uma gestão voltada para resultados, deve corresponder um controle de mesma índole.

A busca da eficiência, todavia, não pode significar o afrouxamento do controle de legalidade e o combate à improbidade deve prosseguir com rigor. A transição de modelos, contudo, tem sido tormentosa tanto para o gestor, quanto para o controlador. Num quadro pavoroso de corrupção, o risco que se corre é o da generalização indevida, e é preciso responsabilidade para resistir a esse impulso.

O controle de legalidade possui contornos bem definidos, já o de eficiência é menos preciso e mais subjetivo. Exatamente por isso a hipertrofia e o voluntarismo devem ser repelidos nos órgãos de controle, pois não possuem legitimação democrática para formular políticas públicas. O controlador da administração gerencial deve agir com autocontenção e noção de consequencialismo.

Richard Posner caracteriza o consequencialismo pela necessidade de se observar os impactos econômicos das decisões estatais, tendo em vista que a maximização de riqueza incrementa o bem-estar das pessoas, e esse é o objetivo de qualquer nação. É comum decisões bem-intencionadas causarem resultados desastrosos. Segundo Posner, decisões assim são intrinsecamente erradas.

Se, do ponto de vista administrativo, uma política pública que consome dezenas ou centenas de bilhões de reais do orçamento e não resulta em benefícios para a população é tão condenável quanto uma licitação fraudada ou um contrato superfaturado, que ferramentas órgãos de controle têm para medir e controlar a eficiência dessa ação de governo?

O TCU tem se esmerado em realizar auditorias operacionais que identificam fragilidades, riscos e oportunidades de aperfeiçoamento na gestão governamental. Justamente por navegar nos mares da eficiência, e não no controle estrito da legalidade, é preciso resistir à tentação de substituir o gestor público nas escolhas que cabem ao Poder Executivo, e é essa a autocontenção que defendo.

É comum que especialistas — como são os auditores — tenham concepções e fórmulas até mais inteligentes para os problemas identificados, mas o controle de eficiência deve mirar processos de tomada de decisão e a razoabilidade dos critérios adotados, sem pretensões quixotescas ou salvacionistas.

A hipertrofia do controle gera a infantilização da gestão pública. Agências reguladoras e gestores públicos em geral têm evitado tomar decisões inovadoras por receio de terem atos questionados. Ou pior: deixam de decidir questões simples à espera de aval prévio do TCU. Para remediar isso, é preciso introduzir uma dose de consequencialismo.

Em correspondência recente, fui relembrado pelo Prof. Adilson Dallari (PUC-SP) daquilo que o jurista argentino Roberto Dromi apelidou de código do fracasso na administração pública: “Art. 1º: não pode; Art. 2º: em caso de dúvida, abstenha-se; Art. 3º: se é urgente, espere; Art. 4º: sempre é mais prudente não fazer nada”. O Brasil precisa revogar esse código urgentemente.

Bruno Dantas é ministro do TCU, pós-doutor em Direito (Uerj), professor do mestrado da UNINOVE e do IDP, e Visiting Research Fellow na Cardozo School of Law (Nova York) e no Max Planck Institute Luxembourg for Regulatory Procedural Law

Fonte: Jornal O GLOBO - 06/01/2018.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Da série : BRASILIAN SOUVENIR 
(publicado por LUDWIG & BRIGGS lithographers)
Rio de Janeiro
Da série : BRASILIAN SOUVENIR 
(publicado por LUDWIG & BRIGGS lithographers)
Rio de Janeiro
Da série : BRASILIAN SOUVENIR 
(publicado por LUDWIG & BRIGGS lithographers)
Rio de Janeiro

terça-feira, 3 de abril de 2018

Da série : BRASILIAN SOUVENIR 
(publicado por LUDWIG & BRIGGS lithographers)
Rio de Janeiro
Da série : BRASILIAN SOUVENIR 
(publicado por LUDWIG & BRIGGS lithographers)
Rio de Janeiro
Da série : BRASILIAN SOUVENIR 
(publicado por LUDWIG & BRIGGS lithographers)
Rio de Janeiro

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Fonte: Les Morts mystérieuses de l'Histoire - Deuxieme série 

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

MANTEIGUEIRA SILVA - LISBOA - Foto de Paulo Alexandrino 

JOALHARIA DO CARMOS - LISBOA - Foto de Paulo Alexandrino

HOSPITAL DE BONECAS - LISBOA - Foto de Paulo Alexandrino

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

RCP - Real Colégio de Porugal
Primeira Casa das Bandeiras / Lisboa - Foto de Paulo Alexandrino
Tabacaria Martins / Lisboa - Foto de Paulo Alexandrino

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Foto: ADELINO CHAPA - Alfama, 2007.
Foto: ADELINO CHAPA - Feira da Ladra, 2007

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

REYNOLDS (1723 - 1792)
Il piccolo Samuele
Le petit Samuel
The young Samuel
Der junge Samuel
El pequeño Samuel
Montpellier - Musée
HENNER (1829 - 1905)
Fabiola
Paris - Musée du Louvre

quarta-feira, 29 de novembro de 2017