quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Praias do Ceará I




Vistas antigas de praias do Ceará em cartões postais que trazem no versos notícias de pessoas que nos visitavam. Mensagens perdidas no tempo abandonadas pelos destinatários recolhidas por mãos anônimas exibidas em feiras de antiguidades  

Praias do Ceará II


Praias do Ceará III


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Cine Majestic - Cadeira

Sentado em cadeiras como esta assisti a muitos filmes no velho Majestic. Quando acontecia qualquer problema com a projeção os assentos vazios movimentados faziam barulho infernal

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O futuro do Sus

Bomba-relógio (Drauzio Varella)

A medicina de hoje custa os olhos da cara. Na contramão de outros ramos da atividade econômica, na assistência médica a produção em escala e a incorporação de novas tecnologias encarecem o produto final.
Até os anos 1960, os medicamentos eram relativamente baratos e dispúnhamos de poucos recursos laboratoriais. Os exames de imagem ficavam praticamente restritos ao eletrocardiograma e ao raio-X simples ou contrastado.
Nos últimos 50 anos, surgiram exames que nos permitem analisar detalhes da fisiopatologia humana e das características dos germes que nos atacam. Ao mesmo tempo, a automatização e a informática possibilitaram acesso aos resultados das análises de sangue e de outros líquidos corporais em algumas horas.
Ultrassons, tomografias computadorizadas, ressonâncias magnéticas, PET-CTs, cintilografias, endoscopias, cateterismos e outras tecnologias que fornecem imagens anatômicas nítidas e dão ideia do funcionamento dos órgãos internos revolucionaram nossa capacidade de fazer diagnósticos e avaliar a eficácia dos tratamentos.
No mesmo período, a indústria farmacêutica soube aplicar os conhecimentos gerados na academia para desenvolver drogas e agentes biológicos de toxicidade baixa, capazes de curar infecções graves e controlar doenças crônicas por muitos anos.
Ao lado desses avanços técnicos que tiveram enorme impacto na qualidade de vida e longevidade da população estão os custos exorbitantes trazidos por eles.
Os 150 milhões de brasileiros que dependem exclusivamente do SUS convivem com a falta de recursos e os problemas crônicos de gerenciamento do sistema público. Os 50 milhões que pagam planos de saúde queixam-se das mensalidades e dos entraves burocráticos para marcar consultas, exames e internações.
A pobreza do SUS todos conhecem. O que poucos sabem é que a saúde suplementar trabalha com margens de lucro perigosas. Contabilizando os planos mais lucrativos e os deficitários, as operadoras têm, em média, 2% a 3% de lucratividade.
No Brasil, a faixa da população que mais cresce é a que está acima dos 60 anos -justamente a que demanda os cuidados médicos mais dispendiosos, que o sistema público não tem condições de suportar e as operadoras não conseguem transferir para seus usuários sem levá-los à inadimplência.
Não é necessário pós-graduação na Getúlio Vargas para constatar que a persistirem os custos crescentes, nosso sistema de saúde ficará inviável: o SUS em crise permanente por falta de verbas; a saúde suplementar, pelo risco de falência.
Não existe saída, senão deslocar o foco das políticas públicas da doença para a prevenção. É insano esperar que as pessoas adoeçam para então nos preocuparmos com elas.
Se 52% dos brasileiros estão com excesso de peso, metade das mulheres e homens com mais de 50 anos sofre de hipertensão, o diabetes se acha instalado em mais de 10% dos adultos e a dependência do fumo corrói em silêncio o organismo de quase 20 milhões, haveria alternativa?
A responsabilidade é de todos, inclusive dos médicos. Saem de nossos receituários as requisições de exames desnecessários, medicamentos caros e condutas que contradizem evidências científicas.
As faculdades de medicina têm que ensinar noções de economia e de gerenciamento. É um absurdo nababesco prescrevermos remédios e exames sem ter ideia de quanto eles custam.
O sistema de saúde brasileiro vai quebrar se não criarmos estímulos para que cada cidadão assuma a responsabilidade de cuidar do próprio corpo, conscientizarmos os médicos e a população de que exames desnecessários consomem recursos e trazem riscos, exigirmos que hospitais e centros de atendimento apresentem indicadores que permitam avaliar a qualidade e o custo/benefício dos serviços prestados, negociarmos com a indústria os preços abusivos de algumas drogas, próteses e equipamentos, e estabelecermos critérios rígidos para impedir que a judicialização errática de hoje se perpetue em benefício dos que podem contratar advogados.
Uma população sedentária que fuma, engorda e envelhece é uma bomba-relógio para um sistema de saúde perdulário e subfinanciado como o nosso. 

Fonte: Folha de S.Paulo (05/03/2016)

O turismo do clima

Museu de Lisboa / Torreão Poente

Até hoje Portugal se beneficia do clima mais ameno para atrair turistas e residentes de países europeus de clima frio

São Petersburgo

Saint Peterburg
Foto: Emil Kan

O passeio das freiras

Les nonnes en virée - New york
(Freiras em viagem de carro - Nova Iorque)
Foto: Édouard Boubat

Escadas em caracol

Flight of windig Stairs - Germany
(Lance de escadas em caracol - Alemanha) 
Foto: Daniel Sainthorant

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Cochilo- um N a mais

Fonte: Folha de S. Paulo - 31/07/20

Nem a Folha de São Paulo, um grande jornal, escapa dos cochilos gramaticais



quinta-feira, 28 de julho de 2016

O trio Rosário

As irmãs Maria Isabel, Maria Beatriz e o irmão José Augusto então em Portugal acolhidos pelo carinho dos avós . Duas presenças e uma saudade. Os três então estavam longe de imaginar o que seria a aventura brasileira.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Getúlio Vargas e Walt Disney em visita ao Brasil


                                  Olhares curiosos à mesa do que parece ser uma solenidade

Todas as Mulheres do Mundo


                              Cartaz de um dos bons filmes brasileiros. Estrelado por Leila Diniz
                                         que era casada com o diretor Domingos de Oliveira

Cemitério de automóveis

                      Curiosa montagem de um cemitério de automóveis tendo por fundo a catedral
                      da cidade do Rio de Janeiro

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Atualidade, o Brasil crucificado

*Publicação "História da Caricatura Brasileira: 
Os precursores e a consolidação da caricatura no Brasil"
de Luciano Magno (Vol. 1)

O bicho de pé

"Extracting a jigger, scene in the Brazils (c. 1822)".
(Extração de bicho-de-pé, cena nos Brasis, c. 1822).
 Aquarela, 20,3 x 21 cm. National Library of Australia.

*Publicação "História da Caricatura Brasileira: 
Os precursores e a consolidação da caricatura no Brasil"
de Luciano Magno (Vol. 1)

A lentidão do progresso

*Publicação "História da Caricatura Brasileira: 
Os precursores e a consolidação da caricatura no Brasil"
de Luciano Magno (Vol. 1)

Atualissima


Charge "Manipanço brasileiro", em que Cândido de Faria faz a caricatura do Imperador D. Pedro II a oferecer pastas para seus ministros e aliados. Ao centro as caveiras com os dizeres: Vítimas da seca do Ceará. O MEQUETREFE Nº 120, de 10-01-1878.

*Publicação "História da Caricatura Brasileira: 
Os precursores e a consolidação da caricatura no Brasil"
de Luciano Magno (Vol. 1, Pág. 222)
*Publicação "História da Caricatura Brasileira: 
Os precursores e a consolidação da caricatura no Brasil"
de Luciano Magno (Vol. 1)

terça-feira, 3 de maio de 2016

Fonte: Jornal O GLOBO (Sexta-feira, 25/06/1993)

sexta-feira, 29 de abril de 2016

NUNO PACHECO E O SEXO DAS PALAVRAS

Segundo Eça, "o riso é a mais antiga e ainda a mais terrível forma de crítica. Passe-se sete vezes uma gargalhada em volta de uma instituição, e a instituição alui-se". Ora, numa altura em que Portugal atravessa grave crise, em inúmeros sectores da vida nacional, o Bloco de Esquerda fez-se móbil  de uma cruzada em prol da “linguagem sexista”. E se o poder do riso leva ao aluimento das instituições, não pode o Bloco de Esquerda deixar, consequentemente,  de se preocupar com este texto de Nuno Pacheco (“Público”, 22.Abril.2016), nem que seja só como prevenção nas escolhas de temas futuros com verdadeiro interesse para a grei. Para não privar uns tantos portugueses e  portuguesas (ou  portuguesas e  portugueses, em trato cavalheiresco?) da sua leitura, transcrevo o seu  texto:

“Se o ridículo matasse, Portugal estava constantemente pejado de cadáveres. Não bastava a tolice do acordo ortográfico, tolice aliás que o Bloco de Esquerda abraça estoicamente, voltámos agora à mais tola e inútil das cruzadas: a da chamada “linguagem inclusiva”; o contrário da linguagem “sexista” e “discriminatória” onde se diz pais, irmãos, avós, primos, etc. Tudo discriminatório, naturalmente. Ora foi com base em tal pressuposto que, num momento de particular inspiração, o BE propôs que o Cartão de Cidadão passe a chamar-se Cartão de Cidadania. Talvez porque Cartão de Cidadão e Cidadã fosse demasiado comprido. Ricardo Araújo Pereira, no Governo Sombra, já caricaturou devidamente esta paranóia correctiva. Disse ele, imaginando um discurso bloquista: “Portugueses e portuguesas, estamos aqui reunidos e reunidas porque estamos todos e todas preocupados e preocupadas com a questão dos desempregados e desempregadas”. Pois. Mas mesmo assim não chegava. Era preciso nuns casos começar com o masculino e noutros com o feminino, para não ofender ninguém. E havia que olhar inquisitorialmente para outras palavras, muitas, milhares, que enchem livros, dicionários e gramáticas, antros de desigualdades com masculinos e femininos por todo o lado, olhem para criança (e não há o crianço?), para membro do partido (haverá a membra?), para polícia ou guarda (deveria haver o polício e o guardo?)… E então a toponímia? Ah, mas aqui imperam as “mulheres”: vejam a rua, a praça, a avenida, a travessa, a calçada, a estrada, a auto-estrada, enquanto para os “homens” sobra o beco, o largo, o passeio, o boqueirão! Querem mesmo acabar com a linguagem “sexista”? Acabem com o Português. Porque ele, que é língua no feminino e idioma no masculino, está impregnado de sexo por tudo quanto é letra. É que até o Bloco soa no masculino. Deveria ser Bloc@? Ou Bloca?”

Fonte: Blog DE RERUM NATURA (25 de abril de 2016)

quarta-feira, 20 de abril de 2016

COMO MORREM AS INSTITUIÇÕES
(BOLÍVAR LAMOUNIER)


Instituições não morrem de morte morrida, morrem de morte matada – e raramente de forma abrupta. Fenecem (ou se atrofiam) gradativamente, ao longo de um processo pontilhado pelo desprezo de alguns e pela prepotência de outros. E, sobretudo, por agressões e traições ao seu espírito. Por ações e omissões da parte dos dirigentes e representantes aos quais incumbe zelar pelos papéis que as distinguem, mas que em vez disso acabam contribuindo para a descaracterização deles. 
Para bem fixar o sentido da afirmação acima peço licença para fazer dois esclarecimentos preliminares. O primeiro é que esta reflexão carece de sentido para extremistas de direita ou de esquerda. Para os adeptos do fascismo (e do populismo, seu primo pobre latino-americano), o que importa é a vontade do líder, do Führer, nunca os “formalismos vazios” que os liberais chamam de “instituições”. Numa linha muito própria, o conceito de política empregado pelos comunistas e seus companheiros de viagem tem pouco ou nada que ver com instituições; mal se distingue da tática, domínio regido muito mais pela malícia do que por valores. Os leitores a que me dirijo são, portanto, preferencialmente, os que prezam o liberalismo político e a democracia. 
Em segundo lugar, há uma interrogação prévia a ser respondida. O que distingue uma instituição de uma organização qualquer? Minha resposta, já em parte indicada, é que uma instituição só existe em função do fiel cumprimento, por seus dirigentes e representantes, dos papéis que conferem sentido prático aos valores que ela professa. Uma igreja cujos dirigentes não se comportam como religiosos pode ser qualquer coisa, mas igreja certamente não é. O comandante militar que propende a agir como braço armado de um líder ou de uma facção política pode ser um caudilho, mas não a autoridade que jurou defender a sociedade e a Constituição. A distinção que estou tentando delinear vale em todos os níveis e âmbitos da sociedade. Por ação ou omissão, o professor que não vê diferença entre ensino e proselitismo e a maioria estudantil que se acomoda ou se deixa intimidar pelos profissionais do grevismo também contribuem para a descaracterização da instituição universitária. 
Infelizmente, a crise política e econômica em que o Brasil se encontra é propícia à multiplicação de comportamentos anti-­institucionais. Três casos recentes parecem-­me requerer um comentário crítico.
Primeiro, o posicionamento assaz polêmico de dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso e Marco Aurélio Mello. 
Barroso, antecipando o possível afastamento de Dilma Rousseff e a consequente ascensão de Michel Temer, exclamou diante de uma plateia algo como “um governo do PMDB? Meu Deus, é isso o que temos?” – enunciando uma posição manifestamente facciosa. Não menos chocante, Marco Aurélio Mello, dono de uma formidável bagagem de conhecimentos jurídicos e de uma não menos formidável experiência judicante, assumiu uma posição frontalmente contrária ao impeachment, chegando mesmo a vaticinar dias sombrios para o País no caso de a proposição a ser brevemente votada na Câmara dos Deputados sair vitoriosa. Um juízo de valor, sem nenhuma dúvida, com a agravante de haver sido formulado como uma previsão ou antecipação hipotética de um estado de coisas futuro.
Proposições desse tipo são adequadas quando enunciadas pelos profissionais da futurologia – a chamada “construção de cenários” –, mas descabem por completo na boca de um magistrado. 
O segundo caso, que comento por dever de oficio, é a compra de votos para tentar deter o impeachment que Lula organizou nas dependências do hotel Golden Tulip, em Brasília. Há coisa de 20 anos, e com objetivo patentemente eleitoral, Lula ofereceu aos brasileiros uma avant-­première do gênero populista pelo qual haveria de se nortear, afirmando que mais de metade da Câmara dos Deputados era integrada por “picaretas”. Em outros tempos – lembro-­me dos anos 50 –, teria recebido uma resposta à altura. Se se atreveu a fazer tal afirmação, foi certamente por perceber a vertiginosa perda de altitude do Poder Legislativo no período pós-­transição e pós-­Constituinte. Mas, ainda assim, quem ali vemos, no Golden Tulip, dando expediente ful-l­time, é um ex-­presidente da República. Um ex­-presidente investigado pela Justiça, isso é certo, mas que ao menos por três razões deveria dar­-se ao respeito: o cargo que ocupou durante oito anos, a estima que parcela expressiva da sociedade ainda lhe devota e um elementar respeito às instituições democráticas. 
Por último, devo também me referir a certo tipo de parlamentar, aquele ao qual Lula parece estar se dedicando com maior afinco. Falo dos “picaretas”, do “baixo clero”, dos que devem seus mandatos aos “grotões” – ou seja, daqueles que jamais ergueram a voz para contestar esses termos pejorativos, como também não contestaram o insulto que Lula lhes fez em 1993. 
Quer nas referências verbais que fazia em relação a eles, quer nas atividades “práticas” mediante as quais procura aliciá-­los, Lula sempre os aviltou na física e na jurídica – ou seja, como indivíduos e como integrantes da instituição legislativa. Se esse é um retrato fiel dos “picaretas”, se eles de fato carecem, como Lula insinuou, da altivez e da independência que o exercício de um mandato eletivo pressupõe, se entre eles a regra é a falta de brios e de hombridade, então, convenhamos, o Congresso Nacional está de fato prestes a perder o status de uma verdadeira instituição. Está se transformando numa organização qualquer, fadada a perder o respeito dos cidadãos. 


*BOLÍVAR LAMOUNIER É CIENTISTA POLÍTICO, É SÓCIO­-DIRETOR DA CONSULTORIA AUGURIUM. SEU ÚLTIMO LIVRO É 'TRIBUNOS, PROFETAS E SACERDOTES – INTELECTUAIS E IDEOLOGIAS NO SÉCULO 20' (COMPANHIA DAS LETRAS)

Fonte: O Estado de S. Paulo (10/04/2016)
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RADICALISMOS
(ANGELA ALONSO)

"O feminismo é um câncer." "O Holocausto realmente aconteceu?" Frases nesta linha saíram da boca, ou melhor, do Twitter de Tay. Você não sabe quem é? Não tem importância, Tay já não existe. Viveu míseros quatro dias. Era um robô interativo da Microsoft, criado para se comunicar com o público jovem. Morreu graças a seu sucesso.
A empresa sacrificou Tay por conta de sua empatia com usuários do Twitter, em cuja convivência se converteu em racista, xenófoba, machista, isto é, em eleitora potencial de Donald Trump ou Jair Bolsonaro.
Tay serviu de esponja e espelho para fenômeno em alta: a radicalização de posições políticas. As novas tecnologias circulam juízos peremptórios e informações sem checagem. Como na vida "real", laços virtuais se constroem entre os assemelhados em opiniões, aspirações, gostos. Mimetismo de "likes" e "shares" instantâneos, ânsia de pertencimento que suprime o raciocínio complexo, apostos e adversativas –quem se aventura incorre num pecado, o "textão". O alarido é por apreciação definitiva, a favor ou contra, sem meio-tom.
A radicalização política cria cercas de arame farpado no mundo virtual como naquele estrangeiro a Tay, o da convivência face a face, em carne e osso. E derrama sangue –Paris e Bruxelas, Turquia e Paquistão o testemunham. No Brasil, produz tensão que se apalpa com os dedos.
"Radicalização" está longe de ser termo unívoco. Basta ir ao "Aurélio" –digo, ao Google. O radical do século 19 ficava à esquerda dos liberais: pró-reformas igualitárias e uso cirúrgico da violência, como pregavam os anarquistas de que trata Benedict Anderson no livro "Sob Três Bandeiras: Anarquismo e Imaginação Anticolonial". Radicais por contraponto ao outro lado da balança, tão saliente na vida brasileira, o conservadorismo.
Mas ser radical também é ir à raiz. Antonio Candido, em ensaio chamado justo "Radicalismos", comenta grandes do pensamento brasileiro –Manuel Bonfim, Joaquim Nabuco, Sérgio Buarque de Holanda– que desvelaram os alicerces de nossa formação social.
Radicais do pensamento, como esses, privilegiam o diagnóstico acurado das causas dos problemas, ao passo que os radicais da ação, o objeto de Anderson, vão logo às vias de fato. Qual desses tipos grassa no Brasil hoje? Dispensa esforço detectar a engorda dos radicais da ação e a anemia dos radicais do pensamento.
Nos protestos pró-governo ressurgiu ativista que parecia morto como Tay, o radical de esquerda. Voltou sua estética, sua imagética, suas palavras de ordem, sua orientação distributivista. Mas sem o distintivo, segundo Candido, dos radicais clássicos: a originalidade de diagnóstico e prognóstico.
Se neste lado há escassez, no outro, há penúria de pensamento novo. Domina a opinião pública hoje este tipo paradoxal, espécie de oximoro: o radical de direita. Seu ar da graça se deu em faixas chulas e pueris em protestos que extrapolaram o ataque ao governo e à pessoa da governante, para incidir sobre direitos adquiridos e liberdades individuais.
Você o conhece: vocifera em programas de TV, blogs, ruas, incapaz de tolerar os distintos de si, seja em gênero, classe, raça, orientação sexual, religiosa ou partidária. Na sua lógica, o diferente é um desclassificado, cuja existência ofende. Alguém com quem não pode conviver e que quiçá possa eliminar, numa materialização dos reality shows.
Essa indigência da ação tampouco acha estofo no pensamento. Esses radicais –ou liberais, como sua versão mais culta preferiria– estão a dever uma exposição apurada dos fundamentos de suas posições. Faltam análises sofisticadas, dignas do contraponto com Sérgio Buarque, ou que honrassem um Oliveira Vianna.
Multiplicam-se os raciocínios chinfrins, vez ou outra embalados em erudição –inclusive em artigos neste jornal. Simplificação extrema do pensamento escancarada por jovens incautos o bastante para explicitar o maniqueísmo –caso do mocinho que declinou seu modelo norteador: os Power Rangers.
É uma intolerância singela "contra-tudo-que-está-aí". Raciocínio de prazo e perna curtos que impede de avistar o "tudo-o-que-está-por-vir".
Estes novos radicais de direita, qual Tay, apenas destilam bílis. À diferença dos de esquerda, desconhecem liderança. São criaturas antes miméticas que reflexivas, mas aptas a se rebelar contra seus criadores. Tay o fez: achacou a Microsoft sem clemência. E, ao contrário do robô da Microsoft, os nossos têm um defeito de fabricação: carecem do botão de desligar.

Fonte: Folha de S. Paulo (10/04/2016)

quarta-feira, 13 de abril de 2016